31 de dez de 2013

Amoras, amores e surpresas



Na semana da criança ouvi o escritor, filósofo - Mario Sergio Cortella - citando este verso singelo, achei tão simbólico... É de um poeta chamado Guilherme de Almeida. Pensei que um dia talvez me rendesse uma postagem bacana e agora resolvi fazer essa "reflexão" de final de ano.

Um  gosto de amora comida com sol. A vida chamava-se: Agora!

O ano está se findando, ainda bem, foi um ano difícil, mas estou saindo feliz dele, pois tudo terminou bem e isso é o que importa.

Comecei o ano com a alegria de um reencontro de amor, mesmo que o tempo tenha modificado o sentimento e a vida de cada um, o afeto REAL, o que vivemos um dia é um laço que nem o tempo e o espaço destrói, viverá em nossas memórias.

Por outro lado me entristeci  demais quando um querido se "despiu"  revelando espontaneamente o que eu signifiquei para ele: nada. Mas valeu pelo MEU laço, o mais afetuoso que poderia enfeitar um pacote de carinho. Presente, dá quem quer e recebe quem quer também. Assim são as coisas.

Meses de angústia por meu cachorrinho ( para quem não sabe, ele era de meu pai e veio morar comigo quando este faleceu há 3 anos) estar doente, foi uma correria, inseguranças, medo de não poder fazer nada por ele como não pude pelo meu pai. Com o apoio do meu ex tudo se arranjou e ele está muito bem para um cãozinho de 15 anos. De certa forma meu pai vive nessa vidinha que era tão querida por ele.

Uma reforminha que durou 3 meses ao invés de no máximo 1 1/2 calculado, desconforto, gastos não planejados, estresse, lidar com o ser humano não é fácil...Passou, ficou bacana, mas perdi o tesão, nada como a rotina, amo!

E as amoras?

Bom, tenho uma amoreira que dá poucos frutos, me divirto um cadinho com elas, mas este ano ela foi regada com muito água de cimento, cal, essas coisas e naturalmente  minhas frutinhas tão esperadas anualmente não vingaram. E olha como é a vida, pertinho de casa há um pé de amoras num terreno e galhos "pularam" o muro, 2 vezes ao dia quando levava o cachorro para passear, me deliciava com enormes e deliciosas amoras, as crianças de hoje não ligam para isso, todo dia havia uma nova leva de amoras maduras. Certa vez, anos atrás eu peguei umas amoras desse mesmo pé, a dona viu, fez cara feia e no dia seguinte cortou os galhos. .Não sei se foi coincidência ou não, mas choquei. Hoje o terreno está vazio, os passarinhos e quem gosta de amoras, agradecem.

Aqui em casa quando a reforma acabou, podei a minha amoreira que brotou, minguada, mas sobreviveu....
Até suco fiz, como nos tempos de menina.
Entrelaçando os assuntos ... surpresa.

Quando crianças vemos a morte como algo distante: uma velha vizinha ou pessoas que nem conhecemos morrem e assim nos falam sobre coisas de viver e morrer.
O tempo passa,  perdemos nossos avós, um tempo depois os tios começam a partir,  tudo parece seguir uma lógica aceitável, seremos a próxima geração.

Mas a vida é uma caixinha se surpresas e apesar de parecer, não é clichê. A aparente ordem natural da vida  me surpreendeu este ano, trouxe a sombra do fim, a gente nunca espera...O filho, às vésperas de completar 21 anos descobre um tumor e esse tumor é maligno.
A primeira reação é de impotência: E agora, não posso passar isso por ele...Insegurança total. Mas esta reação não passou de um dia, ele foi tão forte...Ainda me lembro de quando saímos do consultório, me emocionei, ele disse que sentia muito por mim...Nos abraçamos, o acompanhei até a escola onde faz teclado, comemos churros quentinho lá perto... Dia seguinte acordei com os olhos inchados de tanto chorar à noite, mas foi só, olhei-me no espelho e disse: - Agora chega.

A mais pura verdade, nem por um momento vi esse moço fazer  mimimi, se lamentar ou coisa parecida...Diante disse só podemos ser fortes, enfrentar o inevitável e inesperado.

Um dia estive em uma maca entrando na sala de cirurgia para recebê-lo em meus braços e num piscar de olhos ele estava ali, quase 21 anos depois, deitado numa maca entrando num centro cirúrgico, mas eu e o pai o deixamos em mãos divinas (Dr Genival).

Ele enfrentou tudo de boa, uma grande aventura para quem diz que não teve uma infância aventureira.

 Só quem é mãe  de coração conhece a sensação de quando um filho está doentinho e depois de um febrão, correrias e remédios ele dorme...A gente põe a mão na testa dele e sente que está fresquinho, a respiração serena....É a melhor sensação do mundo. Não importa quantos anos passem, nunca mais seremos a mesma pessoa depois da maternidade.
Com artrose e tudo lá fomos nós ao Ressaca Friends!


Poucos sabem desse episódio, não acho bacana (para mim) exposição de dor em rede, não gosto de mimimi, quem me conhece sabe, mas agora achei legal falar, afinal observamos tanta choradeira por aí, sofrimentos  por bobagens, egos inflados, intolerância, grosserias, insensibilidade com a condição dos nossos semelhantes... Até respeito esse tipo de "dor" e exposição, mas não me comove. Sinceramente tudo que passamos só me faz valorizar ainda mais o que já valorizava: o essencial que é o afeto, o presente que é o dia de hoje com saúde e minha vidinha feliz à minha maneira e de mais ninguém.


Vida....amores...amoras....Vamos saborear a vida que renasce todos os dias com o prazer de criança  comendo fruta do pé, com um sorriso borrado  de roxo da fruta madura...Sentindo apenas a alegria de cada momento...balançando em árvores com folhas sorridentes salpicadas de sol a observar a felicidade mais pura naquele momento.

A vida brota!
A vida se chama: Agora!

Um feliz AGORA  com sabor de AMORA para quem um dia ler esse texto, não perfeito, mas com sentimento.

Dalva Rodrigues





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15 de dez de 2013

Mandela e nossos heróis.

E os olhares do mundo se voltaram para a África do Sul.
Morreu um grande homem, morreu Nelson Mandela.
Uma cerimônia grandiosa, homenagens, discursos, políticos, multidões...Todos querem dizer o último adeus ao Herói, todos aparecem...
E observando toda essa manifestações veio um questionamento:

Onde estava a comunidade internacional que deixou um lutador pela igualdade humana como Mandela passar 28 anos na prisão? E seu povo, defendido com tanta bravura e ousadia que o levou à cadeia?
Outros ativistas morreram lutando por igualdade enquanto Nelson Mandela esteve preso, como Steve Biko,  ( vale a pena assistir ao filme Cry Freedom que mostra sua luta pela igualdade) líder antiapartheid, provavelmente  brutalmente assassinado. A luta fora da prisão continuou, porém somente poucos enfrentam os opressores, mas ao final, a história se fez e pelo menos no papel os direitos se tornaram iguais.

Será que heróis precisam ser assassinados ou passarem anos injustamente presos? Por que eles não são antes reconhecidos heróis pela maioria pelo qual eles lutam ? Será que só a morte pode torná-los oficialmente heróis?

Não digo que não houveram manifestações importantes para que a liberdade chegasse mesmo que tardia, mas foi pouco para um herói, muito pouco, principalmente quando pensamos em números: 28 anos, praticamente 1/3 da vida dele e milhões subjugados. Ah, devíamos ter feito muito mais!

Heróis mortos nas páginas dos livros, heróis de minorias e maiorias que assistem de camarote o fazer da História. 
Heróis que recebem aplausos na despedida final.
Heróis não temem calabouços, temem o silêncio da sociedade, talvez eles chorem em seus confinamentos.
Sociedade que se manifesta em seus funerais.
Assim como muitas vezes agimos com nossos maiores heróis, nossos pais. 

E você, tem reverenciado e validado seus heróis?
  

Dalva Rodrigues











8 de dez de 2013

Receita: "Vida de panela de pressão".





Mais um final de ano chegando, anos que se passam velozes como as estrelas cadentes tímidas  que rabiscam o céu  poluído da cidade... Outrora elas encantavam os olhos do poeta que um dia fora menino, hoje o velho se ilumina de memórias lentas e versos inseguros.

O tempo roubou as estrelas, as brincadeiras, a ingenuidade, as ilusões.

Mas dizem que tudo tem seu tempo e nesse caso concordarei, que se percam as ilusões, morrer iludido seria muito triste.

Tenho pressa, quero "vida de panela de pressão", quero saboreá-la sem muitos requintes, apenas o necessário, como aquelas refeições vapt - vupt que ficam prontas em minutos, sem muito trabalho, quando a fome é grande parece um banquete. Polenta de fubá fino é outra coisa, porém cansei de cozinhar.

Sou preguiçosa, pobre e tenho fome

Quero pouco da vida.
Passeios que não me cansem.
Brincar com o cachorro.
Diversão e aconchego em família.
Bebidas que me embriaguem  suavemente.
Amigos que me tragam leveza.

Quero o tempero  da avó querida, tem sabor de saudade e era tudo muito simples.
Cheirinho de feijão fresco borbulhando na panela é muito bom!
E também um saco alvejado de guardar pão, bordadinho...enfeitando a cozinha como nos velhos tempos.*


Saudade das coisas simples.
Sou simples, sempre fui.
Talvez por incompetência me desculpo dos fracassos.
No final, quero tudo simples e rápido.
Bolo simples, descomplicado, açucar peneirado por cima tá mais que bom.
A receita? A definitiva. chega de testar!
Café preto na xícara branca. 
Roupas leves de algodão.
Livros de amor.
Comédias românticas.
Músicas alegres.
Beijos roubados sem compromisso.
Margaridas amarelas ou rosas no jardim.
Ou outras...trazidas pelos passarins! 

E quando chegar o fim, que a morte também seja "panela de pressão".



* Lembrança reativada pela amiga Pepa, muito querida!