6 de ago de 2017

Mimos, nomes de bonecas e algumas séries

Essa semana fiquei muito feliz, recebi mimos que ganhei do blog O Tacho da Pepa!

Nem me lembro há quanto tempo sigo esse blog, gosto da diversidade de temas, sempre com bom humor, carinho e competência das irmãs Lia e Virginia, tem comidinhas, artesanato, DIY, papo sério e de vez em quando rola sorteio de desapego. Quando digo desapego é desapego mesmo, nada de obrigações e fazer publicidade, só é necessário ler as regras ( curtinha), comentar na postagem de sorteio e contar com a sorte. 

Deixo aqui a sugestão para seguir o blog e também conhecer o Canal do Tacho Lia Angelica , se gostar se inscreva e ajude as meninas a crescerem cada vez mais no Canal, tenho certeza de que não vai se arrepender.

Bom, vamos aos mimos?!
Olhe só quanta fofurice:



Não são lindos?! Adorei tudo, até mesmo o chifre de alce florido quando tinha visto achei meio estranho, mas assim que vi pessoalmente veio a ideia de usá-lo em um painel com o tema Twin Peaks que é minha nova paixão no mundo das séries, no universo Twin Peaks chifres de alce  aparecem com bastante frequência. Será que a Pepa vai ficar chateada se eu tirar as flores?

Mas eis que me viro e mudo de ideia na hora, espia só, se não ficou o máximo!


Combinou perfeitamente com a pegada Frida Kahlo em minha parede!

Já ganhei sorteios no Tacho e dei nome para as bonecas (Serafina e Rosa), até fiz uma poesia Uma história de bonecas, dessa vez não poderia deixar de nomeá-las também. Será que isso de nome é trauma de infância? Na verdade nunca tive muitas bonecas "boas", meu sonho era uma Suzy,  mas nunca ganhei, se bem que as brincadeiras na rua eram muito mais divertidas que brincar de bonecas e a única boa que ganhei se chamou Sissy acho que por causa do filme...Sissi, a Imperatriz.

Depois de pensar muito acabei escolhendo Suky para a menorzinha de formas mais arredondadas, inspirado na cozinheira Suky da série  Gilmore Girls, amor antigo.

A  boneca Pepa grande e fotógrafa ganhou o nome Rita, fiquei apaixonada pelas botas dela, a escolha do nome vem da série  Rita, cujo personagem que dá nome ao título quase sempre usa botas.

Essa série dinamarquesa é uma ótima dica para quem consegue se desprender do politicamente correto, ela tem ousadia, conflitos existenciais, afeto e drama com uma pitada de humor no universo dessa professora e mãe de 3 filhos jovens. É uma delícia e só tem uma temporada, a segunda está confirmada. 


Louca e adorável, Rita!

É isso, esses mimos me animaram a escrever um cadinho aqui no blog, meu muito obrigada às meninas do Tacho, Lia e Virgínia, é sempre muito bom acompanhar vocês!
Um abração para todos que lerem meu post!

Beijos!

Dalva Rodrigues

Rita e Gilmore Girls estão disponíveis na Netflix.
Twin Peaks, apenas a 3ª temporada, lançada 25 anos depois da 2ª temporada, está disponível.
Ainda há o filme Fire Walk With Me, que faz parte da trama.




6 de mar de 2017

Paixão pelo futebol e a primeira vez no Morumbi

A vida passa rapidamente  nesta cidade, cresci junto com ela, um tanto  desordenada, no entanto, cheia de novas descobertas e paixões.

Uma das primeiras paixões  que descobri foi o futebol, desde menininha ouvia meu pai contar histórias de seu tempo de solteiro, do time da empresa onde trabalhava e jogava, das encrencas  e brigas que arrumavam nestes eventos, onde os jogadores iam na carroceria de caminhão até o campo do adversário. Acho que a rivalidade passional no futebol sempre existiu.

Já casado e com seus 2 filhos, jogou e dirigiu  o Anchieta Futebol Clube, time de várzea de Vila Liviero, onde morávamos.  Domingo era assim na periferia,  dia de futebol, alegria, dos almoços caprichados  e também dos sacos cheios de uniformes sujos de poeira ou barro que minha avó e mãe lavavam e reclamavam. Hoje fico me perguntando se elas ganhavam para tarefa tão árdua.

Nestes tempos não me interessava realmente pelo esporte, achava estranho aquele jogo só de homens correndo atrás da pelota, mas fazia parte da vida de meu pai e eu observava esse gosto com carinho,  sempre atenta aos causos que ele contava.

Em 1974, já com 12 anos, apaixonei-me pelo Palmeiras apesar de meu pai ser São-paulino. Ainda não era comum mulheres em estádios de futebol, nem mesmo meninas jogavam futebol, mas mesmo assim tive o sonho de ser goleira do meu time, treinava bastante para isso, queria ser como o arqueiro Leão, um de meus ídolos na época, junto com Ademir da Guia.

Lia tudo sobre futebol: A Gazeta Esportiva, o Almanaque do Zé Carioca para aprender as regras do jogo, dormia com o radinho de pilhas ouvindo programas esportivos nas rádios AM, aprendi tudo sobre o esporte e agora entendia porque ele era uma paixão, meu coração acelerava de emoção, tudo fazia sentido!

Nunca esquecerei minha primeira ida a um estádio de futebol, foi em um clássico Palmeiras x São Paulo, no Morumbi, o velho estádio Cícero Pompeu de Toledo. Perturbei muito meu pai para convencê-lo a me levar pois aquilo não era coisa de meninas. Enfim chegou o grande dia, era um domingo, pegamos o ônibus até o centro da cidade, caminhamos até o Vale do Anhangabaú onde filas imensas de ônibus esperavam a multidão de torcedores para os levarem até perto do estádio, o resto do caminho era feito à pé.

Descemos  depois de uma bagunça saudável dentro do ônibus, sem sinal de violência ou palavrões, esses eram guardados para o juiz e bandeirinhas. 

A multidão ia descendo a avenida larga que não me recordo o nome...Meu coração que já batia forte acelerou ao ver o estádio enorme lá embaixo, crescendo cada vez mais a cada passada. Sentia-me como uma ave em um bando a cruzar os céus para chegar ao seu destino, livre e juntas.

Meu pai, como muitos torcedores levavam rádios à pilha e não me esqueço que enquanto estávamos caminhando em direção aos portões de entrada, no rádio ouvíamos o locutor Fiori Gigliotti, que apresentava o programa Cantinho da Saudade, a musica ao fundo era, se não me engano, Bailarina Solitária...Até hoje essa música me remete àquele pequeno trajeto cheio de emoções no coração de uma menina de 13 ou 14 anos de idade, que veria pela primeira vez seu time jogar.

E a emoção  continuou lá dentro, o medo do balanço do estádio que vibrava com os pulos da torcida na hora do gol. Água, cachorro quente, picolé de limão e amendoim com casca eram as únicas opções, embora minha mãe havia preparado um lanchinho tipo piquenique para nós...Coisa de mãe e que na época me causou vergonha na hora da revista à entrada, mas na hora que a fome apertou foi um banquete.

Vi meu Palmeiras vencer por  2x1 o glorioso São Paulo do meu pai que ficou muito bravo quando eu o abraçava de alegria na hora dos gols do meu verdão. Neste dia tive o privilégio de ver duas feras em campo, Ademir da Guia e Pedro Rocha, eles não rolavam a bola, eles bailavam com ela pelo gramado verdinho rumo ao ataque, como namorados nos bailes de outrora conduziam as damas. Sublime. 

E veio o apito final, a comemoração dos vencedores na casa do rival e a vontade de ficar ali, eternizar aquela sensação enorme de alegria. Realizara meu sonho.

Calmamente fomos deixando as arquibancadas para trás, a fumaça e cheiro de churrasco das barraquinhas nos perseguindo..Ao som dos passos apressados fizemos o caminho de volta pela cidade semi adormecida, cada um rumo ao seu destino, amanhã  cedinho seria mais um dia de trabalho na cidade.

Naquela noite nem dormi direito, que domingo feliz, cada detalhe se repetia em minha mente insistentemente.
Guardei para sempre em minha memória aqueles momentos junto ao meu pai que já se foi, com ternura e sinceridade no meu cantinho da saudade, como dizia o saudoso Fiori Giglioti.



 Dalva Rodrigues

A idade vai chegando e sinto a necessidade de rebuscar lá no passado as lembranças já nebulosas, algumas já perdidas. Perguntei à minha mãe sobre os uniformes do time que ela e minha vó lavavam, mas ela não se lembra muito bem, lembrou que eles eram feitos de sacos de farinha tingidos e costurados, era muita dedicação ou quem sabe, na época, obrigação.
É muito estranho a sensação de que o nosso passado vai desaparecendo com a morte de cada um daqueles que amamos, que compartilhamos momentos, a vida...
Cada momento possível deve ser explorado ao máximo antes que as lembranças se percam inexoravelmente diante da morte de quem compartilhamos a vida. 
Relembremos nossos causos e dos antepassados, com nossos pais, filhos, afetos...A vida passa muito rápido, nem sempre ela é longa, mas ela passará, para todos.







20 de nov de 2016

Os velhos jardins



Ando, sonhando acordada pelas ruas de minha infância, quando casas eram construidas em terrenos grandes, havia espaço para jardins, árvores e em alguns até mesmo gramados.

Caminho em tempos que algumas crianças ainda levavam flores para a professora mais querida:


Em quase todo quintal há um jardim, pelo menos nos arredores de minha casa é assim. Minha avó tem "mão boa" para plantas, estão sempre bonitas, viçosas , há plantas de vários espécies, vivem "felizes", acordam chorando gotas risonhas de orvalho nas manhãs frescas da cidade da garoa, parecem brincar de balanço com o vento.

São rosas, cravos, lírios, copos de leite, dálias, margaridas, palmas, samambaias, avencas, ervas para chá, temperos...
Muitas sombreadas por árvores frutíferas que compõem essa beleza singela, outras, esparramadas ao sol, esperam  para abrir às onze horas.

A maioria dos jardins não são elaborados, neste "mundo" não há paisagismo, é tudo bem natural e com o jeitinho da dona (digo donA porque neste tempo não vejo  homem cuidando de jardins) da casa, as plantas crescem pelo chão entre dentes-de-leão e também são plantadas rusticamente em latas, bacias, baldes, panelas velhas e vasos.

Tudo simples como a própria vida, o passar dos dias lentamente aproveitados, pelo menos é essa a sensação dentro do meu universo infantil.

De tempos em tempos minha vó doa seu tempo e carinho para as plantinhas, retira o mato, poda, aduba com estrume de cavalo [isso mesmo, nesta época há muitos cavalos circulando e catar esterco é comum] planta, replanta e tira algumas mudas

Com suas mãos ágeis marcadas pelo tempo, envoltas em terra boa, deixa tudo ainda mais bonito  para alegrar os olhos de quem vê.

Um hábito comum é a troca de mudas, quantas vezes batem palmas no portão e logo se ouve:

-Bom dia dona Brígida (minha vó paterna), como estão bonitas suas plantas!

E geralmente, depois de uma boa prosa vem o pedido de uma mudinha dessa ou daquela planta e a pessoa segue feliz seu caminho com sua nova esperança em flor.
 
Um dia você leva, no outro você traz.
Que bonito essa troca e nem por isso os jardins são todos iguais, cada um tem seu jeitinho, o que determina mesmo a beleza deles é a dedicação nos cuidados. 


É verdade que também tem uma ou outra vizinha que nunca dá ou troca mudas e nem por isso seus jardins são menos lindos, estão lá para serem apreciados por quem passa, causando admiração em uns e inveja em outros. E dona "fulana" chata só corre um risco: de uma criança arteira roubar uma flor para a professora ou para seu amor. Mas "mininu" é bicho esperto, ninguém vai perceber!

Acordo de minha "viagem" no tempo, vejo-me andando pelas ruas do agora; calçadas quebradas, vida verde em busca de sol despontando nas rachaduras, nos muros que supostamente nos protegem.  


Minha vó já se foi, pela terra que antes cobria suas mãos, seu corpo foi recebido. 

A menina já não existe,  as mãos marcadas agora são minhas.

Os tempos mudaram, os espaços diminuíram, muito concreto, pouco verde, pouco tempo para cuidar de plantas, poucas relações, a maioria das crianças brincam e crescem em creches e não em quintais divertidos e floridos, aos cuidados das avós.

O hábito de trocar mudas é raro, as pessoas mal se conhecem para ter esta intimidade, quem quer e pode ter um jardim, COMPRA em grandes mercados onde se encontra tudo (menos a "mão boa" para plantas), contrata um paisagista e tem um lindo jardim, que por mais que seja lindo, ao meu ver, falta emoção, falta  alma, falta história.

Os velhos jardins envelheceram com seus donos, se perderam no tempo...

Por vezes vejo jardins decadentes, com traços de terem sido maravilhosos, provavelmente quem cuidava deles não possui mais saúde e vigor ou morreram, deixando ali exposta sua ausência implícita e o desinteresse das novas gerações.
Ainda é lindo mesmo entre as ervas daninhas, afinal essas também merecem viver, é vida.
 

Em alguns casos os jardins não morrem com seus donos, entre ervas daninhas e galhos desobedientes, as flores ainda lutam bravamente para existirem, ainda se pode sentir a alma deles, de tudo que foram cenários:  o chão de terra batida, crianças brincando e rindo,  o barulho do balanço, cães enterrando  cuidadosamente seus ossos , as cadeiras no terreiro, as prosas, o cheiro de café...E o perfume das flores de um verdadeiro jardim.


Dalva Rodrigues



Comentários a respeito de divagações:

 Ainda bem que alguns ainda conseguem, mesmo que em espaços menores, dedicar um pouco desse amor por plantas. Eu não sou uma delas e nem vou dizer que é por culpa da falta de "mão boa", é falta de dedicação mesmo. O meu, nem atrevo mostrar!

Algumas das plantas de meus vizinhos Katia e Paulinho.

Ontem cortaram o abacateiro aqui ao lado de casa...

Progresso, economia, trabalho, sonhos, ninhos dilacerados e a natureza enfurecida sobrevivendo.

Foto linda do meu amigo Paulinho, quando abrir a janela, já não verá o abacateiro.



Eu demoro a escrever, mas qdo escrevo é novela, para quem leu até o fim, meu muito obrigada!








18 de jun de 2016

Ainda Alice

Recentemente assisti o filme Para Sempre Alice, com uma atuação perfeita de Julianne Moore que lhe rendeu o primeiro Oscar, sem contar outros prêmios e indicações. O filme é baseado no livro (não li) Still Alice - Lisa Genova. Gosto mais do nome original, é mais profundo dentro da densidade a que ele nos remete.
Sinopse  do filme.

O tema do filme é Alzheimer, uma professora bem sucedida de linguística, ironicamente se vê  afetada precocemente pela doença.
Still Alice

De todos os males que a velhice pode trazer, este é o que mais me assusta. Não tenho medo da morte, mas temo a morte em vida, estar presente e no entanto aos poucos ausentar-me, caminhando para o nada...vazio silencioso de tudo que fui,  perdendo-me nas ocorrências invisíveis de um cérebro doente.

Essa doença é muito cruel no começo para o portador e mais tarde para o cuidador, que de certa forma também acaba tendo que deixar sua vida de lado para cuidar de um passado sem perspectiva de futuro. A sociedade é muito crítica com quem pode delegar para terceiros o cuidado, julgando como falta de afeto, responsabilidade e moral. Ah se pudéssemos compreender a dor do outro, todos seriam mais felizes...

Particularmente, falo como mãe, se um dia estiver nesta situação, sem controle, a última coisa que não gostaria de ver, seria meu filho deixando de viver por mim nesta situação vegetativa. Para mim seria como deixar um legado egoísta demais, uma espécie de chantagem emocional sem direito a questionamentos.
O amor é o que levamos do outro dentro de nós, isso é o que vive e é forte.
 
O envelhecer traz dúvidas da normalidade de sintomas, será da idade ou não? Os esquecimentos, a dificuldade em reter na memória coisas banais que antes fazia automaticamente como saber a data das contas, se foi paga ou não, o que precisa trazer do mercado, se tomou o remédio, o nome de filmes, os enredos dos livros, o cálculo básico de matemática no cotidiano, a inspiração perfeita e repentina não retida etc.

Dizem que é bom exercitar o cérebro, mas as vezes acho que o excesso é que pode ser o grande vilão,   o cérebro acaba tendo que ser seletivo para registrar tanta informação que temos atualmente. Pelo sim, pelo não, continuo jogando Candy Crush e montando quebra-cabeças para exercitar a memória tentando fazer as coisas mais devagar, menos automaticamente  e prestando mais atenção, respeitando os novos limites do corpo perante a decadência inevitável de todo ser vivo.

O futuro sempre será uma incógnita, mesmo quando cada passo é pensado e repensado antes do agir.


Abaixo, poema que escrevi inspirado no filme e nos meus temores.

Ainda Alice

Quando não lembrar da menina que fui
Das brincadeiras de rua
Dos "voos" de bicicleta
Do balanço no limoeiro
Das canções com o pai
Dos bolos da vó
Da admiração pela mãe
Do carinho da madrinha.

Quando não lembrar dos amigos

Das aventuras
Confidências
Risadas.

Quando não lembrar dos amores inocentes da mocidade
Beijos e abraços
Mãos dadas
Carícias trocadas
Desejo. 

Quando não lembrar dos passeios
Dos parques
Dos circos
Quermesses
Cinemas
Exposições.

Quando não lembrar o nascimento do filho
Da surpresa
Da emoção
Do primeiro olhar
Do cuidar.

Quando não  lembrar do meu cão
Brincadeiras
Passeios
Sua alegria a me receber no portão.
 
Quando não  lembrar dos aprendizados
Dos livros
Dos filmes
Reflexões 
Poesia
Pessoas.

Quando não lembrar para que serve um pincel
Tintas e suas cores
O azul do céu
A beleza das flores
A bela inspiração.

Quando não lembrar os caminhos
As ruas
As placas
As letras
Os números
Os óculos
A entrada
A saída
O farol
A faixa
Os carros.

Quando não lembrar a casa
O banheiro
A escada
A água
O fogo
O medo.

Quando o espelho refletir névoas
Nada restará.
Caráter
Coerência
Sucesso
Fracasso
Sabedoria
Experiência 
Ego
Afeto.

Dizem que restam as memórias
Mas quando elas não mais existirem
O que restará?
E se nem sonhos existirem?
E se existirem,
Lembrarei por segundos
Das memórias camufladas 
Embaralhadas no sono profundo?

Restam dúvidas?
O Ser ou Não Ser...
E se os ponteiros do relógio
Forem mais velozes que o gatilho
Roubando a escolha do última ato de lucidez?

Ainda estarei aqui
Quando me perder de mim?
Estarei e não serei. 
Ainda Alice
Talvez.
Não sofra por mim.

Dalva Rodrigues
18-06-2016


Obrigada pela leitura!
Pessoas queridas que passam aqui para deixar seu carinho, dia 25-06, sábado, às 10:30h vai ser apresentado na rádio CBN de São Paulo (90,5 FM), o áudio sonorizado da crônica que enviei para o quadro Minha história de São Paulo. É uma versão mais curtinha do que a que postei aqui (Meus amores em São Paulo), mas vou curtir muito, espero que se puderem ouçam.
Beijos!



 
















E se eu
Estar e não Ser. Ainda Alice.

14 de fev de 2016

Meus amores em São Paulo




Versão sonorizada e narrada pelo Milton Yung da rádio CBN

Meu amor por São Paulo é caso antigo, nasci no bairro Ipiranga, no comecinho dos anos 60; pertinho de onde um certo Pedro bradou a "independência".

A rua onde cresci na Vila Liviero sempre será minha, tomei posse no imaginário de tão lúdica que era, mesmo sendo friamente outra atualmente. Era de terra, pouca e boa vizinhança , muitos terrenos vazios, campinhos, pasto e matas para as crianças explorarem com as mais diversas brincadeiras e correr com seus cachorros.
Cirandas, pipas, rolimãs, árvores e seus balanços mágicos, voos de bicicleta tão fantásticos que guardo até hoje a sensação do vento no rosto...sim, era quase como voar( nunca sequer andei de avião).
  
Como era gostoso conversar nas noites de céu limpo e estrelado...Histórias de ETs, cantorias, piadas e papos que não acabavam mais, até alguma mãe gritar: -Já passou da hora de entrar! E de - Já vou, já vou! - as prosas continuavam mesmo com o risco iminente de algumas chineladas ao entrar em casa.
Em noites frias de inverno mal enxergávamos quem estava ao lado de tão intenso era o nevoeiro, cenário perfeito para voltar da casa da vizinha que tinha televisão (a novidade e sonho de consumo de todos) depois de assistir Cine Mistério (programação de filmes de terror como Drácula e Lobisomem). Ah, andar esses poucos metros até a porta de casa era um ato de coragem rapidíssimo, pernas para que te quero!
No dia seguinte acordava cedinho com os galos cantando, música sertaneja, cheiro de café e o apito das fábricas chamando os operários que sumiam na rua, envoltos em neblina e garoa, rumo a mais um dia de trabalho. E para nós crianças, era só mais um dia de aventuras, um dia a mais para viver em sua plenitude, produzir material farto para memórias do amanhã.

Meu primeiro amor de infância era irmão de meu amigo, numa noite, na brincadeira 'beijo, abraço ou aperto de mão' ele escolheu 'beijo', mas quando abriu os olhos e me viu, só quis mesmo dar a mão...Bem me quer, mal me quer...Minha primeira desilusão foi iluminada pelos vaga-lumes que brilhavam enlouquecidos, ao som dos grilos insistentes da noite quente e dos amigos a zombar. Um dia a família dele se mudou, perdi o  amigo e o amor que ainda viveria muito tempo, só em meu coração.

Já moça, meus pais separados, fui morar em Vila Mariana, depois passei uns tempos no interior com meu pai, gostei da cidadezinha pacata, mas não havia emprego e minha maior alegria era quando chegando em São Paulo, subindo as escadas rolantes da estação República do metrô, via minha cidade surgindo, linda, imponente...Como é bom voltar para casa, para nossa cidade mesmo com todos os defeitos de uma selva de pedra ela tem tesouros que só quem aqui nasceu sabe o valor.

Vivi um grande amor nesses tempos, amor que dessa vez mesmo sendo correspondido, não era meu. Um dia nos despedimos na véspera de Natal, na esquina da Avenida São João, em frente ao Largo do Paissandu, foi o beijo mais romântico de minha vida...E o mais triste...Eu ali parada, vendo-o atravessar a avenida enquanto minhas lágrimas desciam...De certa forma soube que estava próximo o fim. Voltei para casa chorando acompanhada pelas sombras dos misteriosos prédios do centro novo que ainda tinha muito de velho.
Até hoje toda vez que passo nessa esquina onde hoje tem uma loja de sapatos, lembro da cena e da sensação de abandono que o amor pode causar nos deliciosos delírios da juventude.

Tempos depois me apaixonei novamente, houveram beijos de despedidas, mas estes eram quase diários, na estação Vila Mariana. Depois de um dia de trabalho, não havia nada melhor do que essas despedidas que  muitas vezes eram um convite para ficar e aproveitar a fase tão gostosa que é o namoro. O suntuoso salão do antigo Cine Ipiranga foi palco de uma cena hilária desse namoro, quando quase saí no "braço" com uma menina que vendia balas, que ousadamente me ignorou e pegava no braço do meu noivo insistindo na venda...Esse episódio quase rendeu o fim do romance pelo meu ciúme ainda não domado na época, mas superamos, mais para frente até nos casamos.
 
Quantos anos se passaram, a cidade se modificou assim como todos nós.
Gosto de passear pelo Bosque da Cerejeiras do Parque do Carmo, zona leste que é onde moro hoje, lembrar de um affair virtual com pitadas fantasiosas de realidade e que talvez (muito provavelmente) tenha sido a despedida de minha vida sentimental, que deixou lembranças inesquecíveis, beijos, abraços, sem cobranças, sem jogos mentais, só carinho puro que sinto até hoje. Como talvez os amores devessem ser.

Caminho pelo parque ouvindo o zum-zum-zum dos insetos, o cantos dos pássaros, a alegria das crianças brincando, vendo o encantamento dos namorados...Vendo a vida ensaiando o último espetáculo na minha cidade, amor tão antigo.
Bosque das Cerejeiras SP



Dalva Rodrigues


Editei este finalzinho porque hoje 31-05-16 a Rádio CBN respondeu meu e-mail e será apresentado no programa em junho. Fiz esta crônica para participar do quadro CONTE SUA HISTÓRIA DE SP.
Feliz da vida pela resposta!