19 de abr de 2019

Minha avó, o Lava-pés, meninos e meninas

Minha avó paterna, mulher humilde, de muita fé,  morreu aos 103 ainda transbordando fé em deus, tinha esperança em dias melhores, em pessoas melhores, em ressurreição.




Enquanto pode se ajoelhou sobre o tapete para fazer suas longas orações num murmúrio baixinho, com as mãos entrelaçadas sob a cabeça baixa, antebraços apoiados no colchão. 
Assim pedia a deus que olhasse por todos.
A imagem ainda é nítida em minha mente mesmo depois de tantos anos.
Todas as camas, todos os tapetes.

Tinha que ser assim, de joelhos. 
Lembro quando os anos pesaram (e olha que demorou) ela se sentia triste por não poder mais ajoelhar e pedia perdão a deus por isso.
Eu sempre falava para ela:

-Vó, se deus é tão bondoso e justo como a senhora diz, saberá compreender, certamente.

Lembro vagamente de alguns ritos da igreja adventista que ela frequentava, sempre a acompanhei desde bem pequena. Um deles era a Semana Santa, com cultos todos os dias, orações especiais e um ritual chamado Lava-pés, relacionado a uma passagem bíblica onde Jesus lavou os pés de seus discípulos.

Previamente já se sabia quem seria a irmã (era assim que se tratavam) com a qual fariam dupla para a cerimônia onde as mulheres se sentavam nas cadeiras de madeira escura cada uma com uma bacia à sua frente, no chão.

As crianças ficavam em outra sala com atividades enquanto os adultos participavam da cerimônia, mas algumas vezes conseguia observar as mulheres, não sei o porquê mas lembro só das mais velhas, sentadas nas cadeiras tendo seus pés gentilmente lavados e depois secos pela irmã  ajoelhada à sua frente. 
Depois elas trocavam de posição, tudo se repetia.
Hinos eram tocados em um piano, as pessoas cantavam acompanhando a letra no hinário que parecia uma bíblia com letras e notas musicais.

Não sabia os significados daquilo tudo, achava intrigante. Queria ter sido uma criança menos tímida para questionar e saciar minha mente sempre inquieta e curiosa.
Provavelmente eles explicavam para as crianças na escolinha sabatina, mas não me lembro, imagino que não eram as respostas para as perguntas que eu me fazia, como por exemplo o rito ser separado entre homens e mulheres.
Mas quem dava trela para conversa de criança?

Ao final do culto neste dia especial havia uma festinha com doces, pipoca, sanduíches e groselha com água e gelo colocada em grandes caldeirões de alumínio e servida em canequinhas com uma concha.

Nessa hora a diversão era garantida, já não precisávamos ficar em silêncio, podíamos correr e gritar com as brincadeiras como talvez tenha feito o menino Jesus com os outros meninos e meninas há mais de 2000 anos.

Mulheres não podiam usar calças.
Olhem a rebeldinha!



Mesmo não sendo religiosa hoje penso no quanto esse é um ritual bonito e reflexivo acima de tudo.
Jesus usava de um simbolismo sensacional para se expressar. 

Outro dia a amiga Chica perguntou aqui com quem do passado você gostaria de conversar, alguém com o qual não tenha conhecido...Fiquei de pensar e agora me veio a resposta:
 -Chica, gostaria de ter levado um papo com Jesus!

                                           *****
Além da humildade de colocar-se um diante do outro e lavar os pés como iguais me faz pensar que a vida é cíclica, uma incógnita, que nunca saberemos em que posição poderemos estar amanhã.

De quem lavaria os pés hoje?

Quem lavaria seus pés amanhã, se precisasse?



Obrigada pela leitura!


7 de abr de 2019

EXIT SONG



EXIT
SONG

Exato espaço sufoca a mente

Xis da questão, exposto, nu, íntimo, ardente

Itinerante busca entre êxtase e dor

Tsunami de pensamentos contidos em pudor

Soltos na superfície rasa da incompreensão

Onde morriam naufragados sem voz, sem canção.

No one

Game over

NO SONG


Amo a banda Radiohead, a cabeça divina de Thom Yorke. Essa é uma de minhas músicas preferidas, está no álbum OK Computer, fabuloso.
Existencial.



Essa música já esteve em algumas séries, entre elas  a sensacional Black Mirror (3ª temporada/episódio 3) da Netflix.

Ouso dizer que é uma série necessária diante da tecnologia que nos servem diariamente com simples cliques, que possuem alcance muito maior do que podemos ingenuamente pensar. O futuro já começou.

Cada episódio é um mini filme diferente, mas é impossível assistir um só, tem muito para mastigar, engolir, digerir. 

Exit Song também está no final do 7º episódio da série (Netflix)  Umbrella Academy,  também muito bom, mas indicado para quem curte heróis (no caso desconstruídos) e aventuras. 

Obrigada pela leitura!

Amigas/amigos, me perdoem se não conseguir visitar seus blogues ou responder comentários, meu velho note está quase em ritmo de Exit Song.


Editado: tradução da letra abaixo.


Acorde de teu sono
Do secar de tuas lágrimas
Hoje fugiremos, fugiremos

Arrume tuas coisas e se vista
Antes que teu pai nos ouça
Antes que tudo vá pelos ares

Respire, continue respirando
Não perca o controle
Respire, continue respirando
Eu não consigo fazer isso sozinho

Cante-nos uma canção
Uma canção para nos aquecer
Há tanto frio, tanto frio

E você pode rir
Uma risada assustada
Tomara que suas regras e
Sua sabedoria te sufoquem

Agora nós somos um só
Na paz eterna
Tomara que você sufoque
Que você sufoque

Tomara que você sufoque
Que você sufoque
Tomara que você sufoque
Que você sufoque






3 de mar de 2019

Carinho, poemas e flores


Como não ficar feliz com demonstração de afeto? 

Essa semana as meninas do blog  Ipsis Litteris, a Nice e a Ale, postaram um poema meu, não bastasse essa honra ainda me fizeram e ao blog, elogios que fiquei até envergonhada, mas muito mais lisonjeada, até porque elas entendem muito de assunto literário, tem como não ficar toda toda!? Olhem a presunção da pessoa! rs

Deixo o link abaixo para vocês conhecerem o blog delas, quem  ama literatura vai amar, quem não ama também!!

E aproveitem para ler meu poema, é de 2012, ficou tão lindinho formatado por elas!!



Para Nice e Ale, com carinho: 

Quem espalha poesia aos ventos
É porque enxerga as flores
Colhe seus perfumes 
Alivia muitas dores
Enfeita amores.


Pequenas flores

Olhos distraídos não me verão
Sou tão singela e pequenina
Cresço entre ervas daninhas pelo chão
No terreno baldio da esquina.

Sou flor, somos flores
Entrelaçadas ou espalhadas
Quase nunca queridas
Mesmo que donas de belas cores.

Chuva generosa rega a terra
Para renascer a primavera
Quietinha, sopro sementes na alcova
Para que a vida nunca morra.


São muito miudinhas mesmo.