1 de set. de 2020

Fragmentos Aleatórios 3



Os braços
Os braços são fortes. Músculos de vida, dos bornais que carregara levando as boias tão esperadas na roça, da enxada cravada no solo duro ao longo dos cafezais, das pesadas barras de aço e ferro guiadas aos fornos na fundição envolta em chumbo e calor que gera progresso na cidade grande. "-Lá vem chumbo quente!" Quem viveu na pele sabe o que significa.
Pequeno descanso entre jornadas, gastos com gostos e desgostos, gastos com afeto.
Joga a criança para o alto, a recebe em segurança em seus braços. Entre o medo e a confiança, o pouso dominado pelas gargalhadas da brincadeira.
Juntos quebram ondas no mar, mãos fortes só a solta em segurança na areia, olhos atentos de um cuidadoso rei que não submete seu povo, cuida.

As mãos
Tão potentes, ao longo do caminho perdem o vigor, já não segurariam sequer areia entre dedos esquálidos.
Ainda batem palmas por bolinhos de chuva acompanhados de um ligeiro brilho nos olhos e um sorriso escapulido entre dor, resignação e esperança.
São lavadas com afeto, água morna e sabão, secas suavemente com a nova toalha felpuda e cheirosa. Abraço, lágrimas, despedida.
Um beijo em suas mãos: -Sua benção pai, volto logo.

O mármore
Acabou. O chumbo foi literalmente quente, seu Estado ineficiente. Aquele rei não teve um "rei" merecido. A pedra fria é para todos, cedo ou tarde, inevitável.
Suas mãos sem pressa agora se esfriam, seu corpo descansa sem vida. Vazio de ti e de mim.
Resta saudade, memórias de sons, gestos, momentos, exemplos. Saudade que agora não mais se saciará com abraço, prosas e cantorias.
Um corpo se vai, um tanto d'alma fica outro se vai, em todos os dias, até o fim.

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Raphael e Maria Luisa

Ontem, 31 de Agosto de 2020 fez 10 anos que meu pai se foi, na foto acima meu sobrinho que nasceu exatamente 9 meses após sua morte, junto de sua irmãzinha de 1 aninho. 

Meu pai e  seu neto.



"Naquela mesa tá faltando ele e a saudade dele tá doendo em mim"