Páginas

18 de set. de 2021

Atmosfera


Tanta vida acontecendo em uma plantinha "qualquer".
O que cabe neste breve respirar?




Alguns casulos se transformarão neste inseto 
que se confunde com os brotos e sementes quando quase secas.

Poucos vivem até a transformação final.




Parecem baratas, mas não são.






A paina se rompe suavemente para levantar a semente.
A vida espera um sopro do vento.














Todos existem, conscientes ou não.
Tudo nasce e morre o tempo todo, a atmosfera pertence a todos.
E a primavera está batendo à porta, sentem?
O que queremos ver, sentir, realizar?
Procuro ar puro na natureza silenciosa, em busca de poesia.
Desejo a quietude dos voos interiores, das palavras  desarrumadas flutuando perdidas em busca de sentido, sem verborragia, sem busca de atenção, sem ser alvo de pertubações delirantes e excesso de informações.
Despir as roupas pesadas, dar um salto no céu para inspirar ar puro prolongadamente e quem sabe voltar, colocar meus pés no chão, em paz.
Longe das balas e conflitos, longe de todo tipo de guerra. 

Dalva Rodrigues 
18/09/2021









26 de ago. de 2021

8 de jul. de 2021

Fragmentos Aleatórios 5

O grupo escolar

O primeiro dia. Não se   dá conta do que é medo ou insegurança, mas sente as pernas bambas.
Uma bolsa, cadernos, livros, um lápis de aprender a escrever, desenhar, uma borracha para desfazer, arrumar...Seis cores para dar vida, iluminar. Uma régua para medir e talvez apanhar.
O uniforme causa estranheza e ao mesmo tempo é lindo, saia azul marinho de pregas, camisa branca com brasão da escola desenhado no bolso, blusa de lã azul marinho, meias brancas 3/4 e sapatos pretos. Sente vergonha de usá-lo.
No primeiro dia segue a avó pelas ruas de terra que em dias chuvosos bebiam água livremente, pelo menos até o asfalto chegar. Por sorte o solo está seco e o uniforme novo não vai se sujar.
Na manhã fria vê parcialmente as figuras enevoadas caminhando quase todas na mesma direção. Por que para lá? 
Finalmente o destino, o grupo escolar enorme aos olhos infantis que avaliam cada detalhe.
Crianças se aglomeram na frente dos enormes portões, as menores quase todas acompanhadas. Segura firme no braço da avó, ah se pudesse voltar para casa...
A insegurança pelo novo era maior que o desejo de aprender.
Distrai-se do medo vendo os carrinhos de vidro emoldurados em madeira onde vendiam doces sobre duas rodas enormes. Cores que saltavam aos olhos: arrozinhos cor-de-rosa, geleias coloridas, chicletes de vários sabores, balas em tiras, pirulitos de todos formatos e sabores, guarda-chuvas de chocolate, triângulos açucarados de bananada, doces corações de abóbora, maria moles brancas como neve envolta em coco seco, moedas de chocolate, caixinhas da sorte...
Acompanha com os olhos a movimentação das crianças ao redor dos carrinhos para serem atendidas antes que o sinal tocasse e o grande portão abrisse. Sorte dos vendedores, um, o Gordo, o outro, o Magro, velhinho de óculos redondos de lentes grossas, parecia a versão masculina da avó.
Assusta-se com tanta gente. Como seria a escola, o que aconteceria lá dentro? Seria a professora boazinha ou má como alguns contavam.
Sinal tocado, portões abertos, misturam-se na multidão em busca de informações.
Na fila de sua classe teve que soltar o braço da avó. Agora estava só, em meio a tantas crianças busca com os olhos alguma amiguinha conhecida. Nada, um mundo novo e desconhecido. 
Cada professora assume a fila de sua turma. Recados dados, hino nacional tocado, cada fila acompanha ordenadamente a professora pelas escadas e corredores até suas respectivas salas.
Senta-se encostada à janela 
quase no fundo da sala. Tímida, treme de medo até a aula começar e fluir.
Logo sente o carinho da professora com cada um, por sorte não era má, até oferece lápis e borracha para quem não tem. E também segura nas mãos orientando os primeiros traços de lápis no caderno encapado de plástico xadrez.
Nas paredes há letras sorridentes, flores e bichinhos estampados em cartazes coloridos e brilhantes. 
Uma lousa gigante (que muito teme) com giz e apagador, carteiras e cadeiras de madeira, um armário com materiais,  trancado pela professora e desperta a curiosidade dos alunos, que eram muitos, nunca vira tantas crianças juntas em uma sala.
E os dias se seguiram, novas amigas, iam e voltavam juntas. O braço protetor tinha outras tarefas por fazer.
Com o tempo experimenta quase todos os doces dos carrinhos.
Guarda na memória os aroma da merenda (nem sempre boa) e o sabor de cada uma delas. 
Acha discretamente seu lugar, sempre no fundo da sala, embora sem nunca deixar de observar tudo ao redor.
Ás vezes ao olhar pela grande janela com persianas ainda sente vontade de sair e estar lá fora em seu mundo conhecido.
Aprende que as professoras boazinhas não duram para sempre e que as malvadas podem ser traumatizantes. Melhor não se apegar a nenhuma delas sem saber que as boazinhas de verdade seriam inesquecíveis. 
Afinal não foi tão ruim...Brincou, ficou de mal, ficou de bem. 
E aprendeu a ler tantos livros e imaginar, escrever e pensar, o maior tesouro escolar.

EMVL


Ciranda Cirandinha

Vamos todos cirandar

Vamos dar a meia volta

Volta e meia vamos dar

O Anel que tu me destes

Era vidro e se quebrou

O amor que tu me tinhas

Era pouco e se acabou

Por isso dona (nome da criança)

Faz favor de entrar na roda

Diga um verso bem bonito

Diga adeus e vá embora

6 de jun. de 2021

Sebastião (conto)

Enquanto estrelas forravam o céu, na terra as janelinhas mostravam as luzes opacas das brasas de lenha  em cada humilde casinha de pau a pique da colônia erguida entre morros em uma  pequenina cidade de Minas Gerais, no final dos anos 20 do século passado.

Moradas abrigavam corpos cansados pela lida na roça, no terreiro e nos cuidados domésticos. 
Em cada casebre havia páginas invisíveis de histórias não contadas em livros, a oralidade se expressava naturalmente como sementes de dente-de-leão se semeando, levadas pelo ventos nos campos e brotando na terra acolhedora.
Os causos estimulavam a imaginação de toda gente, grande ou pequena, era desejo de conhecimento mesmo que inconsciente. Assim histórias eram repassadas e preservadas até que morressem quando ninguém mais as passassem adiante ou quando ninguém mais quisesse ouvi-las. 
Vividos ou repassados, os contos eram contados preferencialmente em dia de descanso semanal, em noites de luar, sem pretensão de palavras solenes, pois mal conheciam o beabá, nem mesmo as crianças conseguiam estudar adequadamente pelas dificuldades de acesso à escola.
As palavras ingênuas eram quase cantadas aos ouvidos curiosos de conhecimento e de outros horizontes além das montanhas que raramente transpunham. 
Eram momentos de reunião e alegria onde todos participavam, até os animais de casa e de criação.
Em dia de festa então, não faltava moda de viola e sanfona trazendo diversão ao terreiro compartilhado, todos vestiam roupas de festa cerzidas pelas mulheres da colonia: xadrez, floral, bandeirolas e flores coloridas de papel.
Ali ninguém possuía o teto onde habitavam, estes, pertenciam ao dono da terra, das plantações, da venda, de tudo que ousavam imaginar existiria além das montanhas conhecidas. 
Na prática havia um dono de corpos, a ele deveriam erguer as mãos aos céus,  agradecer o trabalho pelo pão de cada dia, vestimenta e teto, sem nunca reclamar. 
Acreditavam, no entanto, que suas almas a Deus pertencia.
-Senhor, olhai por nós!


Depois de um dia de labuta a noite esperada de descanso vem chegando, crianças repousam, já lavadas da poeira de quem precocemente já faz parte da rotina árdua de sobrevivência.
Numa das casinhas, em colchões de palha espalhados na terra batida, a família se ajeita para o sono restaurador.
Ainda sentem no ambiente o cheiro de angu com ovos, taioba e torresminho que alimentou a família logo que o sol se despediu no horizonte.

O calor da brasa amena no forno/fogão de barro aquece o cômodo único e mantem aquecidas as sobras para a refeição da madrugada antes de saírem para a roça.
É preciso estar com a barriga forrada logo cedo para aguentar a lida no cafezal e garantir as migalhas que sobravam do ordenado calculado pelo dono de tudo. 
Os dias de trabalho começavam antes dos primeiros  raios do sol, antes mesmo das aves cantarem.
Depois da rápida refeição, carregando seus bornais, chapéus e enxadas caminhavam juntos ainda no escuro até o cafezal. Chegavam junto com o sol que iluminava as plantações, os dias e mostrava as horas no céu.

 Antes de dormirem a oração da matriarca é ouvida por todos em silêncio respeitoso, dela vinha a sensação de proteção divina, força para a labuta inquestionável e necessária no dia seguinte.
As paredes de barro muitas vezes ocultavam os insetos transmissores de doenças, no cantinho de uma delas  dormia Sebastião, agarrado às mamas da mãe. Mirrada como ele, era a dona do alimento mais rico que havia por ali a lhe servir. Sugava o leite com sofreguidão se apegando às gotas de vida, de afeto contado e dividido.
Era fruto dos tempos em que controle de natalidade era o não me toque, a negação, era o desejo sufocado, rejeitado, temido, era o medo de outra vida colocar no mundo para sofrer.
Mas a vida insiste, entre uma negação e outra, a insistência surda prevalecia e nova vida era gerada, mais uma boca para alimentar, neste mundão a sofrer.
Assim um dia chegou ao mundo, Ião, como carinhosamente Sebastião era chamado. Franzino, uma mistura de etnias, pele parda, traços de preto, cabelos crespos e castanhos que herdara do avô português, olhinhos de bugre caramelados e curiosos, ainda não sabia o quanto o mundo era grande e o tanto que teria para descobrir. 
Tinha quase dois anos de resistência e sobrevivência.
A colonia era o mundo do pequeno, ajudava alimentando a criação mesmo com seus passinhos curtos. 
Com olhinhos atentos aprendia com as crianças maiores a cuidar, amar e respeitar os bichos, os morros, as plantações, a família, os outros colonos e até o dono de tudo. Sem saber o que são sonhos, queria ser como o pai e os irmãos. E também sonhava embarcar no trem.
Nas noites estreladas fragmentos de asteroide ou meteoritos riscavam o céu. Era o manto mais bonito que Sebastião deitado na rede gostava de ver, apontava o dedinho a cada risco no céu e sorria sempre com seu jeitinho encabulado para mostrar a quem estivesse ao seu lado. 
Assim eram os dias e noites do caçula até o anúncio de um novo rebento na família. Sem saber o porquê perdeu o amuleto da sorte, sua fonte de melhor nutrição, calor e afeto. 
Já era crescido, não poderia mais mamar em sua mãe, já percebera isso há um tempo, agora era definitivo e só lhe restava pedir, resmungar e chorar agarrado às pernas da mãe.
Aos poucos o pequenino Sebastião foi entristecendo pela saudade do colo e leite materno, ou de uma possível doença.
Foi perdendo as forças, não se animava nem mesmo quando o chamavam para ir na cidade, passar na venda e comprar um doce. 
Antes dele adoecer, o dia de ir no vilarejo era esperado e disputado por todos irmãos, pois nem todos podiam acompanhar os pais. O que Ião mais gostava de lá era ver o trem bem de pertinho, apitando e anunciando sua chegada na estação.
Lá da roça via o trem, mas era bem distante em um trecho da mata, largava tudo e corria de onde quer que estivesse para olhar fascinado. As vezes o trem passava à noite, as luzes dos faróis na mata escura faziam o pequeno dar pulos de alegria:
-Ô mãe,  ói trem, ói trem...
- Piuí, piuí, piuí...gritava correndo para alcançar o alto da pedra no terreiro para olhar o trem lá longe, antes que desaparecesse na encosta da montanha.


Há algumas semanas as famílias não se reuniam mais para os causos, todos entristecidos pelo "minino" que não melhorava. Chás de ervas, rezas, benzeções e visitas custosas ao "doutor" da cidade, nada parecia animá-lo.
Quando as estrelas cadentes riscavam o céu estrelado, os colonos que sempre clamavam por desejos básicos, alimento na mesa, saúde e que todas crianças vingassem, agora só pediam pelo pequeno Ião:
-Senhor, olhe por ele, assim como olha pelas estrelas e tudo que há no céu e na Terra.

Em mais uma noite de cansaço toda gente dormia, menos a mãe e Sebastião.
A mãe o pegou de seu cantinho no colchão e o acolheu nos braços, sentando-se na velha cadeira de madeira, o colocou sobre seu ventre crescido quase prestes a parir. 
Ele já não falava, olhinhos caídos, apenas murmurava poucas palavras desconexas, a febre já não cedia, não largava o corpinho frágil.
A mãe que não cabia em si de tanta oração e tristeza, impotente, cantou baixinho em seu ouvido uma canção de ninar. 
Lá fora só o som noturno da mata, grilos, rãs e sapos com suas cantorias.
Em um canto da janela começava a despontar a lua cheia, mas o trem não passaria na noite iluminada para alegrar a criança.
Sebastião ergueu num esforço inesperado o corpinho debilitado, agarrado às mamas da mãe, alcançou com o olhar a lua cheia emoldurada pela janela aberta  e esboçou um sorriso. 
Apontou o dedinho: 
Ô mãe, ói trem, ói trem, ói trem...
Até a voz fraquinha se calar noite adentro e a lua atravessar a janela do casebre.

Todos ali e as estrelas lá do céu choraram pelo pequeno Sebastião, que de alguma forma naquela noite de luar embarcou no trem entre as montanhas e se foi para nunca mais voltar.


Dalva Rodrigues
06/06/2021

Nota: Com respeito à memória de minha vó, peço desculpas pelas possíveis e prováveis distorções do conto e  licenças poéticas.
Ainda me lembro de seu jeitinho e olhos marejados ao contar  a história de Ião.




8 de mai. de 2021

Campos minados e solos férteis


Sinto agulhadas em minha cabeça, como se fossem o pulsar do sangue a martelar estranhamente em pontos estreitados nesse mar de veias e artérias que inundam meu velho corpo.
Elas chegam sem consentimento e eu aguardo, em serenidade, cada nova fisgada até cessarem.
É como esperar uma visita não anunciada, mas pressentida; até que entre um segundo e outro cessem as pontadas, espero que sem dor, sem dramas, sem traumas, sem lágrimas, sem passado, sem presente, sem futuro. Acabou.
A visita chegará e não estarei para recebê-la.
A porta aberta trará o silêncio do que não existe, a casa vazia, corpo sem alma, o descanso a ocupar o espaço das astuciosas garras humanas, das falsas vozes doces  murmurando seus desejos egoístas, conspirando,  chantageando, ludibriando para obter vantagens.
Ando cansada dos rumos da revelada sociedade  pós-verdade, da hipocrisia, do descaso, da falta de união, das cobranças que só alimentam a próprio criatura, das indiretas, dos inconvenientes invasores de território pessoal e emocional, da liberdade e socialização rasa que sem ser convidado julga sem conhecimento de fato e sem empatia.
Onde andará o bom senso,  respeito e limites? As trevas da ignorância e maldade cada vez mais ganham forças, principalmente nas ondas virtuais que também refletem na vida real e nelas navegamos,  em um mar cheio de armadilhas perigosas dispersas entre pessoas realmente boas e reais.
Não deveria ser o contrário, sabedoria e bondade ao alcance de todos?
Ando exausta de ver atiradores de flechas afiadas rumo ao alvo fatal para desmerecer o que julga inferior ou em quem não corresponde seus desejos.
Cansei de campos minados de palavras, insensibilidade e ignorância assumidas com orgulho.
Sementes daninhas germinam e brotam ilusões em solos  manipuláveis e carentes de tudo. Isso é desgastante, cansei do silêncio dos bons diante dos maus.
O peito abriga o coração, músculo que pulsa vida, toda forma de amor. Mas com o passar do tempo ele endurece e talvez nem doa mais, nos acostumamos com a dor e ela se transforma em nó na garganta, na falta de vontade de viver no mundo como ele se apresenta, em trevas, apesar de toda beleza natural.
A cada agulhada nas profundezas de meu cérebro, sinto a ânsia de um corpo diluído em matéria orgânica voltando ao solo fértil da natureza que traz a paz da não existência.
Uma hora a flecha acerta no alvo, na cabeça, 
na ideia, no coração...Na mosca. 
Quando o pulsar cessa, fica o vazio do não existir na imensidão,  essência que volta ao ciclo original da vida, vingando em solos férteis entre ruínas de civilização. Plenitude.

Enquanto não me acertam fatalmente no alvo, caminho procurando atalhos para fugir de campos minados e quando não houver jeito, que eu passe despercebida como uma folha seca e esmigalhada ao chão.

Oração do Narciso 
( o inconveniente, porque esse é o que incomoda)

Eu, eu, eu, eu...
Infinitamente eu onde tudo é meu.
Que eu seja prioridade dos humanos. 
Deuses, sempre me ouçam em primeiro lugar. 
Reservem-me o lugar especial ao lado de seus tronos de ouro e poder.
Onde eu possa seduzir e comandar mentes e corpos: 
Ame-me.
Seja presente, seja intenso, 
me sirva, me venere, 
me receba, me presentei, me ajude,  
me leia, me curta, me consuma...
Alimente meu eu.
Vinde a mim todas as pessoas, luzes 
e o além, posto que sou imortal.
Amém. (longe de mim)

Dalva Rodrigues
08/05/2021

There there - Radiohead





18 de mar. de 2021

Fragmentos Aleatórios 4

A Difícil Arte de Amar - Meryl Streep e Jack Nicholson - 1986
 

Coração pulsa de tanto amor, desejos, conflitos internos, razão, culpa, vida que cobra.
Solidão quando mente e corpo  querem estar entrelaçados em braços, pernas e mãos.
Ardor de bocas molhadas sedentas. 
Houve uma vez um verão.


Em bares, cinemas, mulheres desacompanhadas são rotuladas disponíveis.
A noite é morna, horas precisam ser preenchidas, a noite na cidade é de todos, seria sua.
Exploradores na noite buscam aventuras, sexo, companhias, outros buscam só o deleite de um filme, um drink, aliviar a tensão das incertezas da vida.
Para ela é ousadia, uma jovem mulher quebrando barreiras sociais, preconceitos, suas inseguranças. 
Não precisa dele para acompanha-la. Entra no cinema.
Senta na cadeira isolada na quase vazia sessão espremida no meio da semana monótona. 
Sabe que é só mais uma alma invisível no escuro como todas aquelas silhuetas desconhecidas.
A sessão começa, nenhuma mulher desacompanhada além dela. Sente olhares de homens solitários como ela.  
Um se aproxima, senta ao seu lado em meio a tantas cadeiras vagas. Sente medo por alguns instantes ao ver no escuro olhos estranhos se voltarem para seu rosto e a seguir despir seu corpo com olhos frios. Coração dispara.
Levanta-se rispidamente, senta em outro lugar. Aprende o gesto de dizer NÃO na situação, enche-se de poder mesmo que a palavra NÃO tenha morrido em seus lábios. 
O motivador filme é lento, deixa brechas para seus pensamentos, vê-se no passado, no presente, futuro. Incógnitas.
O final é libertador. O futuro? O caminho mostraria, sempre mostra.
No saguão de saída envolto em fumaça de cigarros, cheiro de pipoca e café, a música do filme na mente acompanha seus passos ao final da sessão. 
Risos, lágrimas. Pessoas voam em liberdade pelas avenidas da vida, em busca de seus nortes.
O cinema abriga o sonhador e o questionador.


Na avenida, casais abraçados parecem parados no tempo, em cenas românticas. Solitários se escondem do mundo ou fogem de si.
Outros, libertos se encontram na busca, na ousadia temerosa (ou não).
A noite acolhe, lua acompanha todos sem distinção, não implora olhares de admiração. 
Avenida São João, bares movimentados, o som tocando nas velhas lojas de discos, luzes, mariposas, mendigos, bêbedos, prostitutas, músicos, trabalhadores,  batedores de carteiras... O encanto noturno da cidade.
Na rota encontra uma jovem mãe a empurrar o carrinho de seu bebê, sem medo das armadilhas da noite, canta para ele. Lembra do final do filme.
Batem corações na velha São Paulo, aprendizes de amar, viver, sobreviver.
Tem a leve sensação de que estava uma  mulher diferente, muito mais forte, pronta para encarar o espaço vazio, em breve.
Caminha embalada na canção:

Baby sneezes
Mommy pleases
Daddy breezes in
So... good on paper
So romantic
But so bewildering...


Dalva Rodrigues
18/03/2020

10 de fev. de 2021

Cárceres

Anda perdido em ilusões de tudo que vê e ouve falar ser um lar.
Migalhas a conta-gotas alimentam o frágil corpo.
Alma nem sabe o que é, um fio invisível do qual nem se dá conta do existir.
Dias de frio, calor, fome, sede, solidão, desamparo, dor. Dias de nada são os melhores.
Sente cheiros...O arroz frita nos temperos, ovos frigem na panela e em sua imaginação. Come a casca da banana.
Sente cheiros...Suor, seu próprio cheiro mesclado em excrementos e vapor.
Ouve sons... vindo da casa a água morna do chuveiro a escorrer em corpos asseados, sente o cheiro de sabonete de flores desconhecidas.
Acima, a centímetros de sua cabeça, ouve o barulho da chuva de verão torrencial sobre a telha que o sepulta calado.
Ouve na casa todos risos, músicas, conversas, comemorações.
"Seria um lar, por que não estou lá"?
Faz tanto tempo que vive abandonado. Ainda é tão criança, sem saber o que é sê-lo, fora ou dentro de seu cárcere não há espaço para ele. Seria a rua a salvação, com seus perigos e tentações? Eles dizem que é proteção.
O verão castiga com seu calor, seria o barril o seu caixão?
Morreu e não sabia, está no inferno. Sustentado nos cambitos inchados picados por mosquitos, atado em correntes por mentes doentes, atrozes.
Ouve crianças e suas risadas.
Vez ou outra uma pipa colorida atravessa no seu minúsculo céu, uma moldura de tijolos inacabada.
Ouve cantos tristes de pássaros engaiolados para alegrar seus donos.
Não sabe ser pássaro, não consegue cantar. Se cantasse  ficariam felizes?
Falta voz para gritar, força para reagir, aquele é o lar que conhece.
Sonha com água, ar puro, banho, pão, uma cama, se esticar, respirar, ser criança, viver. O tempo de criança é tão curto.
E ainda assim o seu algoz ele diz amar.

Dalva Rodrigues
10/02/21

U2 - Original Of The Species


  

"Por favor permaneça uma criança em algum lugar no seu coração."

A cada minuto que respiramos, muitos estão sendo sufocados.

Quem ouve os gritos silenciosos de sofrimentos em cárceres?

Em que momento, em que circunstâncias um ser deixa de ser humano?