Páginas

Mostrando postagens com marcador Contos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Contos. Mostrar todas as postagens

6 de jun. de 2021

Sebastião (conto)

Enquanto estrelas forravam o céu, na terra as janelinhas mostravam as luzes opacas das brasas de lenha  em cada humilde casinha de pau a pique da colônia erguida entre morros em uma  pequenina cidade de Minas Gerais, no final dos anos 20 do século passado.

Moradas abrigavam corpos cansados pela lida na roça, no terreiro e nos cuidados domésticos. 
Em cada casebre havia páginas invisíveis de histórias não contadas em livros, a oralidade se expressava naturalmente como sementes de dente-de-leão se semeando, levadas pelo ventos nos campos e brotando na terra acolhedora.
Os causos estimulavam a imaginação de toda gente, grande ou pequena, era desejo de conhecimento mesmo que inconsciente. Assim histórias eram repassadas e preservadas até que morressem quando ninguém mais as passassem adiante ou quando ninguém mais quisesse ouvi-las. 
Vividos ou repassados, os contos eram contados preferencialmente em dia de descanso semanal, em noites de luar, sem pretensão de palavras solenes, pois mal conheciam o beabá, nem mesmo as crianças conseguiam estudar adequadamente pelas dificuldades de acesso à escola.
As palavras ingênuas eram quase cantadas aos ouvidos curiosos de conhecimento e de outros horizontes além das montanhas que raramente transpunham. 
Eram momentos de reunião e alegria onde todos participavam, até os animais de casa e de criação.
Em dia de festa então, não faltava moda de viola e sanfona trazendo diversão ao terreiro compartilhado, todos vestiam roupas de festa cerzidas pelas mulheres da colonia: xadrez, floral, bandeirolas e flores coloridas de papel.
Ali ninguém possuía o teto onde habitavam, estes, pertenciam ao dono da terra, das plantações, da venda, de tudo que ousavam imaginar existiria além das montanhas conhecidas. 
Na prática havia um dono de corpos, a ele deveriam erguer as mãos aos céus,  agradecer o trabalho pelo pão de cada dia, vestimenta e teto, sem nunca reclamar. 
Acreditavam, no entanto, que suas almas a Deus pertencia.
-Senhor, olhai por nós!


Depois de um dia de labuta a noite esperada de descanso vem chegando, crianças repousam, já lavadas da poeira de quem precocemente já faz parte da rotina árdua de sobrevivência.
Numa das casinhas, em colchões de palha espalhados na terra batida, a família se ajeita para o sono restaurador.
Ainda sentem no ambiente o cheiro de angu com ovos, taioba e torresminho que alimentou a família logo que o sol se despediu no horizonte.

O calor da brasa amena no forno/fogão de barro aquece o cômodo único e mantem aquecidas as sobras para a refeição da madrugada antes de saírem para a roça.
É preciso estar com a barriga forrada logo cedo para aguentar a lida no cafezal e garantir as migalhas que sobravam do ordenado calculado pelo dono de tudo. 
Os dias de trabalho começavam antes dos primeiros  raios do sol, antes mesmo das aves cantarem.
Depois da rápida refeição, carregando seus bornais, chapéus e enxadas caminhavam juntos ainda no escuro até o cafezal. Chegavam junto com o sol que iluminava as plantações, os dias e mostrava as horas no céu.

 Antes de dormirem a oração da matriarca é ouvida por todos em silêncio respeitoso, dela vinha a sensação de proteção divina, força para a labuta inquestionável e necessária no dia seguinte.
As paredes de barro muitas vezes ocultavam os insetos transmissores de doenças, no cantinho de uma delas  dormia Sebastião, agarrado às mamas da mãe. Mirrada como ele, era a dona do alimento mais rico que havia por ali a lhe servir. Sugava o leite com sofreguidão se apegando às gotas de vida, de afeto contado e dividido.
Era fruto dos tempos em que controle de natalidade era o não me toque, a negação, era o desejo sufocado, rejeitado, temido, era o medo de outra vida colocar no mundo para sofrer.
Mas a vida insiste, entre uma negação e outra, a insistência surda prevalecia e nova vida era gerada, mais uma boca para alimentar, neste mundão a sofrer.
Assim um dia chegou ao mundo, Ião, como carinhosamente Sebastião era chamado. Franzino, uma mistura de etnias, pele parda, traços de preto, cabelos crespos e castanhos que herdara do avô português, olhinhos de bugre caramelados e curiosos, ainda não sabia o quanto o mundo era grande e o tanto que teria para descobrir. 
Tinha quase dois anos de resistência e sobrevivência.
A colonia era o mundo do pequeno, ajudava alimentando a criação mesmo com seus passinhos curtos. 
Com olhinhos atentos aprendia com as crianças maiores a cuidar, amar e respeitar os bichos, os morros, as plantações, a família, os outros colonos e até o dono de tudo. Sem saber o que são sonhos, queria ser como o pai e os irmãos. E também sonhava embarcar no trem.
Nas noites estreladas fragmentos de asteroide ou meteoritos riscavam o céu. Era o manto mais bonito que Sebastião deitado na rede gostava de ver, apontava o dedinho a cada risco no céu e sorria sempre com seu jeitinho encabulado para mostrar a quem estivesse ao seu lado. 
Assim eram os dias e noites do caçula até o anúncio de um novo rebento na família. Sem saber o porquê perdeu o amuleto da sorte, sua fonte de melhor nutrição, calor e afeto. 
Já era crescido, não poderia mais mamar em sua mãe, já percebera isso há um tempo, agora era definitivo e só lhe restava pedir, resmungar e chorar agarrado às pernas da mãe.
Aos poucos o pequenino Sebastião foi entristecendo pela saudade do colo e leite materno, ou de uma possível doença.
Foi perdendo as forças, não se animava nem mesmo quando o chamavam para ir na cidade, passar na venda e comprar um doce. 
Antes dele adoecer, o dia de ir no vilarejo era esperado e disputado por todos irmãos, pois nem todos podiam acompanhar os pais. O que Ião mais gostava de lá era ver o trem bem de pertinho, apitando e anunciando sua chegada na estação.
Lá da roça via o trem, mas era bem distante em um trecho da mata, largava tudo e corria de onde quer que estivesse para olhar fascinado. As vezes o trem passava à noite, as luzes dos faróis na mata escura faziam o pequeno dar pulos de alegria:
-Ô mãe,  ói trem, ói trem...
- Piuí, piuí, piuí...gritava correndo para alcançar o alto da pedra no terreiro para olhar o trem lá longe, antes que desaparecesse na encosta da montanha.


Há algumas semanas as famílias não se reuniam mais para os causos, todos entristecidos pelo "minino" que não melhorava. Chás de ervas, rezas, benzeções e visitas custosas ao "doutor" da cidade, nada parecia animá-lo.
Quando as estrelas cadentes riscavam o céu estrelado, os colonos que sempre clamavam por desejos básicos, alimento na mesa, saúde e que todas crianças vingassem, agora só pediam pelo pequeno Ião:
-Senhor, olhe por ele, assim como olha pelas estrelas e tudo que há no céu e na Terra.

Em mais uma noite de cansaço toda gente dormia, menos a mãe e Sebastião.
A mãe o pegou de seu cantinho no colchão e o acolheu nos braços, sentando-se na velha cadeira de madeira, o colocou sobre seu ventre crescido quase prestes a parir. 
Ele já não falava, olhinhos caídos, apenas murmurava poucas palavras desconexas, a febre já não cedia, não largava o corpinho frágil.
A mãe que não cabia em si de tanta oração e tristeza, impotente, cantou baixinho em seu ouvido uma canção de ninar. 
Lá fora só o som noturno da mata, grilos, rãs e sapos com suas cantorias.
Em um canto da janela começava a despontar a lua cheia, mas o trem não passaria na noite iluminada para alegrar a criança.
Sebastião ergueu num esforço inesperado o corpinho debilitado, agarrado às mamas da mãe, alcançou com o olhar a lua cheia emoldurada pela janela aberta  e esboçou um sorriso. 
Apontou o dedinho: 
Ô mãe, ói trem, ói trem, ói trem...
Até a voz fraquinha se calar noite adentro e a lua atravessar a janela do casebre.

Todos ali e as estrelas lá do céu choraram pelo pequeno Sebastião, que de alguma forma naquela noite de luar embarcou no trem entre as montanhas e se foi para nunca mais voltar.


Dalva Rodrigues
06/06/2021

Nota: Com respeito à memória de minha vó, peço desculpas pelas possíveis e prováveis distorções do conto e  licenças poéticas.
Ainda me lembro de seu jeitinho e olhos marejados ao contar  a história de Ião.




26 de jul. de 2020

A alegre senhora de vermelho - Conto



Era feliz, talvez porque nunca dera ouvidos aos ditadores de etiqueta e comportamentos. Correto para ela era ter caráter, não prejudicar ninguém, pagar suas contas, respeitar o próximo e a si mesma, ser dona de seus desejos e realizações que não diziam respeito a curiosos da vida alheia.

Aos sete, quinze, trinta...sessenta, setenta, oitenta, noventa...O que são os anos e representam na vida de uma mulher? Quantas mulheres viveram dentro de uma vida inteira?
Uma soma de todas, no mínimo.

Sempre foi jovial, gostava de falar, fazer amizades, não perdia oportunidade de conhecer pessoas, puxava conversa com estranhos, ia aos bailes dançar, namorava muito, bebia suficiente para se alegrar, usava as roupas que ela mesma fazia inspirada nos figurinos das atrizes dos filmes que assistia nos velhos cinemas de rua. 
Apaixonava-se, pelos homens e pela vida.

Um sorriso se abria em seu rosto ao ver-se no espelho em seu vestido preferido: vermelho, rodado, com mangas bufantes presas em delicadas pregas, chapéu vintage na mesma cor enfeitado com laço e uma pequena flor de plástico que tirava dos arranjos comprados para colocar nos vasos, enfeitar a casa. Lugar de flores vivas era no pequeno jardim que cuidava com dedicação.
Não menos importante eram os sapatos modelo boneca com saltos baixos e confortáveis, sentia-se elegante e jovial desde sempre, mesmo agora quando os cabelos se tingiram totalmente em prateado lunar.

Tinha estilo próprio, de gente feliz consigo, percebia que as pessoas olhavam para ela, uns achando graça, outros  a chamavam de brega, alguns poucos percebiam e admiravam sua ousadia em se permitir ser o que ELA queria ser. A vida inteira foi assim.

Plena e leve a definia. Uma velha menina, jamais saia sem passar batom rosado nos lábios agora plissados pelo tempo e água de colônia atrás das orelhas. Nunca se sabe quando o amor pode passar ao lado e sentir seu perfume, embora soubesse que boa parte dos homens de sua idade ignoravam suas próprias marcas de velhice e queriam apenas  as memórias dos corpos jovens, delas e deles.
E não os julgava por isso, também sonhava mesmo era com os corpos cheios de vigor, mas como ninguém vive exclusivamente de fantasia aproveitou bastante os idosos que com ela se deitaram sem se importar com as marcas físicas do tempo.

Quando andava pelo comércio do bairro periférico se recusava a pegar a fila para idosos, não por não se enxergar idosa ou não ser sabedora de seus "direitos", era por ter a consciência de que a outra fila tinha mais atendentes apesar da fila maior. Algumas aplicações de leis são para iludir, sabiamente dizia. 
Seu raciocínio não era fraco, aprendera com a vida as contas práticas de matemática mais do que nas carteiras escolares (que pouco frequentou), para não ser trapaceada pelos sem caráter que vez ou outra apareceram em seu caminho. Era simples, não boba.

A vida diz que o viver passa rápido, sabia disso, aproveitava cada momento com intensidade. 
Não casou, dedicou-se aos sobrinhos, depois aos sobrinhos netos, principalmente na primeira infância onde as crianças são livres de preconceitos e toda experiência e afeto são bem-vindos.
Quando se tornavam adolescentes seguiam novas buscas, a tia/avó espalhafatosa da Rua da Vila não acompanhava o novo tempo que viviam.
E ela compreendia, prezava pelo direito de escolhas de cada ser, transformava seu amor também, em outra fórmula do mesmo amor.

Comprou um pequeno terreno nos tempos que havia muitas industrias e trabalho, finalmente saiu do aluguel quando se aposentou. Construiu a pequena casa, simples, colorida com objetos especiais da vida enfeitando e trazendo memórias de vida e pessoas.

Agora já não tinha disposição de ir aos bailes de terceira idade que tanto frequentou até pouco tempo. Fazia passeios curtos com o grupo da comunidade, seu tempo era dedicado mais aos dois cachorros e um gato que eram seus companheiros e fonte de afeto. 
Todos os dias dedicava um tempo a costurar retalhos doados que se transformavam em quentinhas colchas de retalhos para doação aos carentes de um calorzinho e atenção quando eram entregues. Era grata à vida, poderia ser ela naquela situação, quem sabe dos caminhos que a vida pode nos levar?

Em uma manhã vestiu o vestido vermelho preferido, colocou o chapéu, passou batom, olhou-se no espelho feliz e saiu de casa para pagar as contas,  conversar com os conhecidos mais antigos do bairro. Gostava da energia de vida que sentia nos jovens, das novas visões do mundo, mas estes nos últimos tempos viviam mais nas extensões do mundo virtual , do qual ela só dominava o básico.

Na loja de aviamentos comprou tecido branco de bolinhas vermelhas, começava a se falar em uma doença trazida por um novo vírus, as pessoas deveriam usar máscaras para sair de casa. Como já passava dos  oitenta apesar de estar com a saúde razoável, melhor seria não arriscar. 

Ainda estava quente quando voltou para casa naquela  tarde de começo de outono, lavou os lençóis floridos e o tecido para as máscaras.
Sentou-se no banco do jardim, os cães e o gato sempre ao lado observando, brincando ou tirando uma soneca aos pés da senhora.
Descansou observando o zum zum zum das abelhas nas flores, os lençóis balançando no varal, o tecido branco de bolinhas vermelhas dançando ao vento lhe trouxe recordações...

Naquele mesmo dia sentou-se à velha máquina de costura que era única herança da avó, as mãos ainda habilidosas fez algumas máscaras de vários modelos para combinar com seu vestido vermelho preferido, agora sim se sentia preparada, sem medo para sair às ruas de seu amado bairro  onde vivia desde que nascera.
O dia fora intenso, o descanso merecido.

Deitou-se nos lençóis cheirosos que havia lavado à tarde, lembrou do baile em que dançara com o rapaz mais bonito do baile, de sorriso encantador, olhar sedutor e braços fortes que a faziam girar pelo salão com sua esvoaçante e perfumada echarpe branca de bolinhas vermelhas...Eram tão jovens e famintos de vida.
Adormeceu com essas gostosas memórias e a certeza de que viver era uma aventura gratificante e ainda queria muito dela.











Dalva Rodrigues
26/07/2020





24 de fev. de 2020

MOSES - conto





A consciência veio lentamente se misturando ao sonho; a música trazida pelo fone de ouvidos do celular em um canto do travesseiro a despertava.
Eles estavam tão pertinho, se olhando com ternura e desejo...
Não, não queria acordar daquele doce sonho, só mais um instante...

Para sua tristeza, sonhos não são opcionais, têm autonomia e não dependem de nossa vontade.

Coincidência...O sonho, o acordar justamente com aquela música...MOSES.
Repassou mentalmente cada cena com medo de que elas se perdessem como a maioria das imagens de sonhos, em um mundo de fantasias perdidas, sonhos ou pesadelos não vividos que logo esquecemos.

Acordou do sonho que um dia sonhou acordada há muito tempo.

***

Quando a vida se arrastava, os passos não tinham  rumo, o dia era morno e o sono das noites era o refúgio, encontrou nos olhos dele a luz que acendeu novamente sua alma.
Cada passo, literalmente (e só literalmente) aumentava a esperança de encontrá-lo. 
Seu coração transbordava de uma alegria sem explicação ao imaginar o possível encontro de seus olhos naquelas tardes onde o sol ameno iluminava os olhos mais doces e "falantes" que já vira . 
Provavelmente aqueles olhos não falassem a sua língua, mas era a que ela desejava, uma necessidade de se agarrar a vida e assim acreditava naquela linguagem mágica, quase sempre muda.
Caminhava pelas calçadas como se pisasse em nuvens, imersa nas baladas e rocks arquivados no velho MP3 player, o coração pulsando na esperança de vê-lo nem que fosse de longe.

Nas vezes que seus olhos se encontravam gravava na retina aquele rosto lindo, moldado de luz e ternura.
Era o alimento para suas fantasias e seus dias.

Passagem de O Pequeno Príncipe, a raposa para o principezinho:

-Minha vida é monótona. Eu caço galinhas e os homens me caçam. Todas as galinhas se parecem e todos os homens se parecem também. E por isso me aborreço um pouco.Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol.Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra.O teu me chamará para fora da toca,como se fosse música.

A toca era a vida inanimada que a abrigava, solitária e invisível.
Ele era o raio de sol.
Se ele sorria, seu coração disparava, sorria por fora e por dentro, sentia uma vontade imensa de dançar, sozinha rodopiar, pular, deixar o corpo fluir no ritmo da  música e do prazer daqueles míseros e profundos instantes.

Passagem de O Pequeno Príncipe, a raposa para o principezinho:

E depois,olha! Vês lá longe,os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil.Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo,que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo…
campos de trigo
Ainda hoje ela imagina o barulho do vento no trigo
e lembra dele agradecida
pela luz

Não o cativou, nem era a intensão, embora tivesse lhe contado de seu amor, era um querer não querendo. 
Ela só precisava da força daquele sentir vibrando em si.

Iludiu-se conscientemente até se incomodar com o  insensato amor que preenchia seu vazio.

Tudo que tinha era apenas olhares e sempre seria assim até o dia que seus olhos não mais pudessem se encontrar, seus rumos encontrassem outros caminhos que não se cruzassem. 


Onde estaria o botão de basta, se não dentro dela? Como desapegar de um amor sentido nas tardes vazias de si e do mundo?

Não foi um processo instantâneo como o encantamento, ridicularizou-se diariamente, como as cartas de amor.

Procurou pelos corredores em busca  dele, subiu e desceu escadas na esperança e vergonha íntima dessa perseguição visual e emocional que dominava sua mente.
Subiu aos céus e desceu. Várias vezes.

Naquele dia quando o avistou ao longe, parou os passos, era risível e insensata essa busca.
Desviou o caminho, decidiu do fundo do coração, deixar aquele céu iluminado: 

-Agora chega!


***

QUASE, NADA, TUDO.  divagação


Dias desses ao longo do passar a vida alguns amores poderiam ter acontecido: um leve toque de mãos inesperado, um encontro de olhares mais profundo, um sentar lado a lado e conversar sentindo o perfume fresco perturbador, afinidades de alma e vida...

Eles não aconteceram, os encontros não são de exata, são de ética, nem sempre é o momento certo, acabam ficando no bem querer fraterno, num cantinho do coração.


Hora errada e  cabeça dura coloca infames no percurso. Livrai-nos de todo o mal, esses não contam.

Uma coisa é certa, os bem vividos enquanto duram, deixam boas lembranças e/ou  frutos.

O único amor que possuímos (pelo menos teoricamente) é o nosso.
Ninguém é dono do amor do outro.


Dalva Rodrigues
24/02/2020







17 de mai. de 2015

O capitão do coração dela

O tempo lhe roubava os sonhos de mulher, mas restava um pedacinho de esperança de  descer as encostas verdes e  floridas na primavera.


 ...

Mesmo tendo se passado tanto tempo a imagem daquele homem  frequentemente vinha assombrá-la com as lembranças dos momentos que estiveram juntos. 
'Não importa o que aconteça, nunca esqueceremos.'
Foi o que disseram um dia, no primeiro encontro agora tão distante.

Naquela noite  quente enquanto observava o céu  estrelado, em sua mente fantasiosa a lua cheia e brilhante sussurra em seu ouvido que  em algum lugar ele também pensa nela e a espera.  Suspirou diante de tais pensamentos e entrou em casa.

Procurou no armário uma caixa  onde guardava recordações, retirou uma echarpe de voal branco  transparente que usara na primeira vez que se encontraram e levou-a até o rosto, era tão macia...Fechou os olhos,  podia sentir o perfume dele, sentir na pele o efeito do toque de suas mãos percorrendo seus braços lentamente.
Mais uma vez as lembranças voltavam...

A vontade de conhecê-lo fora forte o suficiente para perder o medo de um encontro com alguém que só conhecia virtualmente, como não era uma jovenzinha resolveu arriscar aquela nova experiência, talvez única e última diante  da iminente velhice que a espreitava sem piedade. Sentia que ele era especial. 
Que aventura deliciosa, esperara por ele no cais do porto  sentindo o vento morno vindo do mar , vendo os navios no horizonte azulado sendo tragado pelo laranja rosado do pôr do sol; ouvindo Amy Winehouse no velho pen drive e o coração acelerado de ansiedade.

Decidiu-se, iriam novamente se encontrar, dessa vez daria tudo certo, tinha certeza.

Retirou do armário as poucas  roupas que tinha e jogou-as sobre a cama, nada lhe agradava, o efeito dos anos no corpo não ajudava muito na escolha, mesmo assim escolheu  lembrando e levando em conta o gosto dele. Deixou a roupa escolhida num canto e colocou a echarpe ao lado do travesseiro.
Deitou-se ansiosa para a manhã chegar. 
Essa noite não queria sonhar com ele como sempre desejava, sabia que no dia seguinte teria seus beijos e abraços novamente...Confiava na lua, confiava nele.
Adormeceu.
 ...
O dia despertou e ela desafiou o tempo, seguiu o caminho que levava ao mar. A paisagem bucólica passava pela janela e o vento brincava com seus cabelos rebeldes e ligeiramente grisalhos enquanto sua mente projetava como num filme o primeiro e inesquecível encontro, deixando um sorriso espalhado em seu rosto marcado pela vida.

Nunca se esqueceu da primeira vez que o viu ao longe, se aproximando, tinha certeza que era ele, mais alto do que imaginara, forte...Parecia um pirata que aportara de algum navio para arrebatar seu coração. Por instantes teve vontade de desaparecer no ar, talvez ele a achasse muito feia, daria a  chance de fazer de conta que não a vira, virasse as costas e voltasse para seu navio pirata. Mas não foi o que aconteceu, logo descobriu que era o mais gentil, adorável e misterioso homem que jamais esqueceria. Tudo foi perfeito.
Não criaram laços, mas havia afeto e um carinho especial entre eles. 

Como magia lá estava ela novamente a espera dele depois de alguns encontros e outros tantos desencontros. 

Sentou-se na orla da praia vendo a vida transbordando nas crianças que brincavam alegres na areia. 
Abriu um livro para passar o tempo,  mas o coração pulsava tão acelerado que ela não se concentrava. Desistiu da leitura e ficou com seus pensamentos.
O tempo foi passando, as crianças se foram, os pescadores voltavam do mar...
E o horizonte não lhe trazia seu pirata.
Aos poucos as cores quentes iam se tingindo do breu da noite sem luar. 
Olhou para trás e percebeu as luzes artificiais da cidade. Não iria desistir. 
Voltou-se para o horizonte, procurou mais uma vez a lua, ela falaria com ele, mas só escuridão e o barulho das ondas quebrando na praia.
O vento frio da noite golpeou seu corpo levando a echarpe delicada de seu pescoço. As lágrimas finalmente se libertaram.
Tomou-se de tristeza na alma, escuridão, escuridão, escuridão...
...

Gradativamente ouvia o som dos pássaros lá fora, seus olhos se abriram e imediatamente se fecharam diante da luz do sol que invadia o quarto pelas frestas da janela que estalava anunciando o dia quente de verão.

De olhos fechados em segundos enxergou...Compreendeu a escuridão.
A echarpe estava ao seu lado. 
Não houvera primavera.

Mal amanheceu e seu sol já se pôs. 


Dalva Rodrigues











 



14 de set. de 2014

Um conto de amor

 Aos 45 do segundo tempo minha participação na blogagem coletiva:
 Espalhe Amor em Seu Blog - da Elaine Gaspareto do Blog Um Pouco de Mim. O link tá no final!

 Um conto de amor

Sentada no banco vazio do grande quintal a senhora com um sorriso nos lábios estava em silêncio.
Ao seu lado a sacola estava vazia, mas seu coração transbordava de amor. A solidão não lhe importava mais,  os momentos que acabara de viver ainda eram tão vivos que ouvia o som. Levantou-se com dificuldade e pôs-se a caminhar lentamente para casa ouvindo mentalmente as risadas das crianças....barulho de vida, sonhos, esperança.

...

Desde menina fora muito inteligente e proclamada por todos como a melhor em tudo, mas isso não lhe rendera laços  de afeto suficientes para que as pessoas queridas ficassem junto dela, ao contrário, por no fundo sentir-se melhor que todos, acabava afastando a todos depois de um breve tempo.  Mas isso não tinha importância naquele momento, a vida era longa e não faltava pessoas interessantes para preencher o espaço de pessoa tão culta e interessante como ela.

No entanto o tempo não tem dó, passa. Amores passaram, amigos passaram, pais se foram, família distanciou-se, todos formaram suas famílias ou laços...A vida até então tão prazerosa lhe parecia vazia, sentia-se cansada, já chegara aos sessenta anos, cansou das viagens principalmente agora que eram cada vez mais solitárias, não sentia a euforia da partida, muito menos o conforto da volta, cansou das tardes vazias, sem abraços, sem risos, sem brindes...O que sobrou lhe parecia tão sem alma, talvez ela nunca tenha prestado atenção nesta ausência.

E assim a senhora desistira do mundo, pouco saia do apartamento, vivia imersa em seus livros, recebia o contador uma vez por mês, resistia bravamente a falar com a falante moça que fazia limpeza há anos em seu apartamento de luxo; cada vez mais se isolava, nem mesmo no mundo virtual conseguia se sentir doando ou recebendo afeto genuíno, como não fora acostumada a ele não sentia  vontade de interagir com outras pessoas, muito menos de outras classes sociais.

Certa manhã  Jandira - moça da limpeza - apesar de não ser copeira já se acostumara e lhe servir o lanche da manhã e junto ao copo de suco deixou um pequeno embrulho com um laço de fita  bem bonito e um cartãozinho.

A senhora ergueu os olhos por sobre os óculos como a perguntar: O que é isso?

-É para a senhora!

Abaixou os olhos e leu: Este coração é seu!

Largou o livro e com as mãos suavemente enrugadas abriu o pacote...Um delicado coração/sachê de tecido floral ornado de renda apareceu, vinha acompanhado de um cartãozinho: Para lembrar que sem doação o amor não existe!

Jandira explicou sobre a campanha Espalhe Amor Por Aí, que ela e algumas amigas se juntaram na comunidade  para confeccionar vários corações para distribuírem para as pessoas e quem sabe despertar um pouco de amor e gentileza no coração delas.

Algo tocara em sua alma, segurou firmemente o coração nas mãos e inesperadamente com um sorriso agradeceu a moça que pela primeira vez em tantos anos sentira ternura em seu olhar e no agradecimento.

Levantou-se com sua joia nas mãos, correu os olhos pela sala repleta de fotografias, recordações de momentos maravilhosos que vivera...Ela estava sozinha, todos se foram.
Naquele instante decidiu que abriria seu coração pela primeira vez para doá-lo. 

Jandira a ajudou, apresentou-a à comunidade, outra realidade,  onde conheceu outras pessoas e aprendeu a fazer corações e bonecas de tecido, quadradinhos de crochê para mantas...
E assim seus dias se preencheram, já não sentia solidão, de vez em quando juntava suas prendas feitas com tanto carinho e levava em um orfanato onde passava o dia com crianças ávidas por afeto. 

Lá ela aprendeu que quem nunca doou, nunca amou verdadeiramente, na melhor das hipóteses, recebeu.

Alguém espalhou amor.


Dalva Rodrigues 




A Elaine prorrogou para dia 20/09 a blogagem coletiva, quer falar de amor? Clique no link e veja como participar e ainda ganhar um coração!

Divitae


17 de jun. de 2012

PARADISE - Um Pequeno Conto em Prosa

Ela decidiu ficar ali, abriu mão dos voos que no fundo sempre tiveram algo de solitário, seja na espera ansiosa pela decolagem ou no pouso forçada de seus desejos de mulher apaixonada.
É bem verdade que não era o seu desejo, apenas uma questão óbvia de escolha sem outra opção...pés no chão.
Bagagem de mão, suas fantasias cabiam naquele pequeno espaço tão cheio de lembranças perfumadas.
Era seu saguão de um aeroporto sem aviões.
Olhou para os lados...tudo vazio ou pelo menos lhe parecia, tudo sem sentido neste concreto chão.
Uma mão lhe acenou se perdendo na multidão invisível.
Um rosto lhe sorriu e apagou-se diante do frio em seu olhar.
Solitária e segura caminhou para casa em silêncio, abriu portas e janelas.
Desfez a pequena bagagem...diversas vezes. Chorou...até que as lágrimas secaram.


Restou saudade daquelas viagens ao paraíso agora perdido no vazio.
Algumas vezes olha para o céu, fecha os olhos, sente um ligeiro calor na face e a brisa nervosa do vento que desarruma seus cabelos.
Lembranças invasivas lhe perturbam a alma e queimam o corpo, sonha como menina e fantasia como mulher, sente como se fossem as mãos do amado a lhe acariciar os cabelos, lábios, alçando-a ao perdido paraíso que ficou lá no céu de Agosto.
Abre os olhos...ou quem sabe seriam grades, que se abrem toda vez que ela fecha seus olhos...


Dalva Rodrigues