27 de dez. de 2020

Minha excelência

Procuro excelência em mim, ao meu redor:

No meu lar. Nas paredes lisas, bem pintadas, sem marcas, sem rachaduras, sem mofo, bem decoradas, combinadas.
Nas roupas de corte impecável, bem passadas, sedutoras, etiquetas famosas e descoladas.

Nos amigos, nas festas, no pet enfeitado, no hobby, no político, nas redes sociais, na foto perfeitamente enquadrada, no vídeo bem editado, no celular de ponta conquistado.

Na viagem, na galeria de arte, no museu, na biblioteca, na fina sinfonia, correta ortografia. 

Na família perfeita, solidária e animada.

No sucesso profissional ou fracasso existencial.

No corpo idealizado, nos músculos definidos, peso controlado, cabelos tratados, sedosos, bem penteados, dentes branqueados, unhas impecáveis, alimentação saudável.

No fino vinho, refinada gastronomia.

Nas bocas que beijo, nos corpos com que me deito, no amor que idealizo.

No espelho sem reflexo, na idade ignorada, no filtro que ilude, na maquiagem decorativa, nos poros sufocados.

Procuro virtude em deuses, meditação, religião.

Sou escravo do meu ego, de minha necessidade de superioridade.

Ando por aí caçando perfeição. Nas construções verticais e horizontais, nos automóveis, nos pedestres, no tráfego agonizante na tarde iluminada.

Procuro validação de todas minhas escolhas, certas ou erradas.

Procuro o perfeito breve, logo colocado de lado, substituído.

Depois choro, quando sou descartado, trocado.

Ignoro a imperfeição explícita.

Cimento, palavras mal traçadas, gritadas nos grafites das paredes abandonadas, fumaça, queimadas, lama, desabamentos, emergências, sirenes, incêndios, fome, tiros, homens maus.

Ignoro a doença, a morte que não me dói, minha efemeridade.

Perfeição sem humanidade, hipócrita, evolui devastando, exterminando.

Quanto mais procuro a perfeição, mais me distancio do animal que sou.

O natureza ignora nossa sapiência, age para sobreviver, sem raciocinar, apenas se adéqua, no tempo dela e no tempo imposto pela sábia humanidade.

Há outras vidas dentro e fora de mim. E estas nem se dão conta de minha existência, de minha excelência.

Dalva Rodrigues
27/12/2020

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