Páginas

Mostrando postagens com marcador Crônicas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Crônicas. Mostrar todas as postagens

1 de jun. de 2020

Silêncio e barulho nas ruas

Bateu um silêncio inexplicável, meio parecido com cansaço,  bate aquela sensação de desânimo, parece que os caminhos estão quase sempre tortos, as soluções se distanciam quanto mais você caminha. 
As ruas se tornam frias, não fervem de pessoas, ficam tristes mesmo com o belo tom de cinza.

Estávamos começando a prestar atenção no Coronavírus por aqui, ainda se dizia que máscaras eram só para quem estava com algum sintoma ou fosse do grupo de risco. 
Sem máscara, mas já cuidadosa, levando meu frasquinho de álcool em gel, evitando ao máximo tocar nos objetos e mobílias em um ambiente grande e cheio de pessoas na  triagem da Defensoria Pública na Rua Boa Vista, centro de São Paulo.
Pessoas impacientes esperam a chamada de sua senha, não ficam serenas nem quando têm tempo de acalmar a mente. 
Estava inquieta, tudo que queria era voltar para casa com problema resolvido, fugir da sensação do que já pressentia ser iminente perigo. 
Nada resolvido, mas encaminhado, o estagiário orientou-me  para pegar um certificado logo ali na agência do INSS no Viaduto Santa Ifigênia, perto de onde  estava.
Saí do prédio aliviada por respirar o ar "puro" que na cidade é quase sempre poluído, pareceu-me mais seguro, melhor poluição do que vírus devastador.
Estava frio, garoa insistente, daquelas que lembram os velhos tempos da cidade, abri a sombrinha, caminhei até lá, cuidando para não tropeçar ou escorregar no chão molhado. Uma fratura...SAMU, pronto socorro...Isso me deu calafrios.
Neurose 2020.
Um olhar no chão, outro ao redor, outro ainda no céu que chorava lágrimas fininhas que limpavam a poluição sem no entanto o poder de álcool e sabão.
Chegando na agência me falaram que antes tinha que agendar por telefone para fazer a solicitação. Nem reclamei da informação do estagiário que me deu a orientação, havia sido tão atencioso. 
Logo estaria em casa, banho quente, finalmente um café amargo revigorante. Em segurança...(será?).
Voltei calmamente pelo famoso viaduto observando ao longe o que supus ser um grafite borrado (pela minha visão imperfeita) na parede de um prédio no Largo de São Bento. 
Tirei algumas fotos aproveitando o vazio da tarde sem correr risco de ter o celular roubado, fato comum na região.




Parei na metade do caminho, lembrei da cena  de Black Mirror (S05E01) onde o personagem aparecia no famoso Viaduto. 

Cena de Black Mirror

Ainda não tinha noção do quanto o tema Coronavírus estaria em nosso cotidiano e viveríamos uma realidade digna de ficção.

Segui, o borrão desenhado foi tomando formato: a imagem do cantor Raul Seixas, poderoso com suas músicas que eram um grito louco que transbordava sensatez.
A caminhada não havia sido à toa, tirei mais algumas fotos, fiquei algum tempo observando o trabalho (descobri mais tarde que era do fotógrafo Rui Mendes, é uma foto de 1987 ampliada) e voltei para o silêncio interior, rumo ao terminal de ônibus onde me misturei à multidão que já começava a voltar para a periferia que para muitos é dormitório.

Tirei essas fotos no dia 28 de Fevereiro/20.
Veio a quarentena, tudo parecia ter ficado mais silencioso ainda, em todos os lugares do mundo.
Vieram as mortes, de pessoas, não de números.
Ainda há cheiro de morte no ar, mas neste domingo, 31/05, parecia cheio de barulhos de vida acontecendo, pipas no céu, risos, fogos, movimento. 
Ilusão de que está tudo bem ou estão vivendo o dia como se fosse o último?
Depois de um tempo o silêncio parece que foi quebrado, serão as mortes banalizadas também? Mais um medo com o qual nos acostumaremos?

A Historia não para, acontece o tempo todo.
O mundo quer respirar...Saúde, liberdade e dignidade.
Algumas ruas no mundo ferveram estes dias, apesar de todo perigo.

O que escreveria e cantaria o  Maluco Beleza diante do que virou uma Pandemia? 
Será que a Terra ainda para, ou ainda teremos que nos exterminar para a vida na Terra continuar?


O Segredo da Luz - Raul Seixas

Os olhos verdes que piscam no escuro de céu
Filho da luz, fui nascido da lua e do sol!
Nas noites mais negras do ano eu mostro minha voz;
Estrelas, estrelas
As estrelas elas brilham como eu!
As nuvens vagueiam no espaço sem lar nem raiz
0 ódio não é o real é a ausência do amor
No fim é um grande oceano, mãe, mãe filho e luz…
Estrelas, estrelas
As estrelas elas brilham com nós!
As trevas da noite assustam escondendo o segredo da luz!
Da luz que gargalha do medo do escuro
Que é quando os meus olhos não podem enxergar!
Dia , noite,
Se é dia sou dono do mundo e me sinto filho do sol
Se é noite eu me entrego às estrelas em busca de um farol
Estrelas, estrelas,
As estrelas elas brilham como eu.
As trevas da noite…

13 de jun. de 2019

Borboletas e sonhadores na sala de estar

Eles andavam pelo bairro,  corpos desgastados pela vida dura, pela cachaça, vermelhos de sol.

Algumas vezes sóbrios, na maioria não.

Os dois amigos perambulavam pelas ruas em busca de alguém que lhes dessem um prato de comida, roupas ou uns trocados por pequenos fazeres como carpir mato, carregar entulho, uma vez que na periferia quase todos não podem pagar para descartar de forma correta.

Se paga, falta o dinheiro da água, da luz, do pão ou do IPTU.

Sorte dos catadores?

Azar da sociedade?

O entulho poderia ser queimado poluindo o ar, nunca se sabe que casa tem um idoso ou criança com doença respiratória.

Ou quem sabe ficar entulhado nos quintais renderia uns perigosos escorpiões e aranhas para compartilhar com toda vizinhança, também não é uma boa ideia.

Mas para alegria de nossos protagonistas, o descarte na maioria das vezes vai para uma calçada qualquer e a prefeitura vem recolher depois de um tempo,depois que os vizinhos reclamam.

Talvez o caminho da solução seja outro, o qual ignoramos ou fingimos ignorar. 

Eles não questionam, simplesmente existem.

Foi um dia especial, Adelino e Manuelzinho encontraram dois sofás de couro desgastados pelo tempo, dispostos na calçada em frente a casa estilo anos 70, provavelmente deixado pelos donos da casa para que alguém pegasse para reformar, estrutura de madeira boa, uma reforma os deixariam lindos, valeria a pena.

Olharam-se com cumplicidade e não pensaram duas vezes.

Sentaram-se.  A alegria invadiu os semblantes vazios, sentiam-se como cidadãos dignos de uma sala de estar particular, ao ar livre, nada de papelões e muretas fedidas. 

Um confortável par de sofás e uvas rosadas pendendo em lindos cachos pelo muro ao lado compondo o lúdico cenário.

Era como se dissessem: -Pessoas, olhem para nós!

Entre um cigarro e um gole de cachaça eles conversaram por horas enquanto os transeuntes passavam olhando a cena pitoresca.

Assim como nós em nossas próprias salas de estar, sob um teto aconchegante dividimos cervejas e um café com amigos e família, eles socializaram o momento oferecido pelo destino.

Aliás, eram duas cenas pitorescas,  em ritmo amoroso, um casal de borboletas acasalava despudoradamente ao lado do sofá em plena luz do dia.

Poucos as observaram.


acasalamento
Juntas até que a morte as separem

As horas passam, os amigos confabulando, as borboletas curtindo o sexo explícito na calçada, em pura ingenuidade da natureza, sem se preocuparem se poderiam ser esmagadas ou chamadas de promíscuas.

Depois de umas três horas de transa as borboletas lutaram (ou algo parecido) para se desprenderem e ao final da batalha  só restou uma, morta, no passeio público.

Finda a união que parecia tão duradoura.

Não sei quanto tempo os sofás ficaram expostos e seus convidados puderam aproveitar.

A vida não traz presente todo dia, nem amor.

Outro dia Vi Adelino deixando uns cacarecos no conhecido lugar de descarte, um homem passou de carro,  ralhou com ele e olhou para mim como que esperando validar sua atitude de bom cidadão ao criticar o pobre coitado.

Fiquei quieta, qual seria o ângulo que ele queria que eu visse para aprová-lo em sua indignação pelo catador malvado?

-Adelino, e o Manoelzinho? -Faz tempo que não o vejo.

-Arrumou emprego por uns mêis no canteiro de obra de um condomínio, tava bom, pouca cachaça, aí a construção acabou e ele não conseguiu outro emprego.

-Pegou o dinheiro da indenização, avisou a famía que iria pra sua cidade no nordeste, estava com saudade da filhinha, havia de conseguir um emprego por lá, mió que carregá peso na cacunda por uns trocados.


- Mas foi triste dona, a notícia correu que ele levava dinheiro, esperaro ele, robaro e fizero  judiera com o pobre.


-A última coisa que soube é que ficô acamado e bobo das ideia.


-Que tristeza, a esperança durou tão pouco.

-Cuide-se Adelino, e não fique triste com o comentário do rapaz, certamente ele não consegue vestir a sua pele para compreender seu "trabalho".

Segui meu caminho lembrando deles sentados na sala de estar ao ar livre, felizes.

Algumas vidas são mais efêmeras que outras, tão frágeis em sua invisibilidade como as borboletas.

Aproveitam as felicidades do acaso antes que as esperanças acabem em uma calçada qualquer.

O fim do êxtase 


Dalva Rodrigues
13/06/2019












3 de jul. de 2018

A calçada, a fama e o coração.

As calçadas me  parecem frias e injustas, talvez pela minha existência, que caminhou  mais pelas  esburacadas e cheias de armadilhas para os desatentos.
Calçadas ornadas com bitucas, chicletes, papéis...Pedintes que rogam a nossa caridade oculta com  olhares vazios, próprios dos desalentados.
Calçadas onde gentes se trombam, não se olham, só seguem seus caminhos planejados na correria do dia.
Em pleno alvoroço do horário de almoço no centro de São Paulo, pela rua XV de Novembro eu caminhava como mais uma formiguinha, não tão apressada, com joelhos gastos o ritmo é suave.

O som da música dele foi chegando aos poucos aos meus ouvidos.

Percorri com os olhos, o movimento dos camelôs para ver de onde vinha o som fantástico de guitarra que me atraia, talvez um vendedor de CDs gravados...Nada.
Continuei o caminho em direção à Praça Antonio Prado guiada pelo som. 

E lá estava ele, no meio da roda de pedestres que paravam para ouvi-lo, o cantor da linda voz que cantava um clássico do rock e dedilhava a guitarra com maestria.


E assim me encantei com esse artista, fiquei ali embriagada vendo aquele show ao vivo em pleno coração da cidade. 
Deixei dentro de minhas pequenas possibilidades uma pequena quantia na caixa e fui embora deixando para trás aquele momento tão precioso. Foi um privilégio do acaso.
Não perguntei seu nome.

Mais de um ano se passou e sempre pensava naquele artista de rua e em como era possível um cantor tão bom não estar tendo a chance de mostrar para o mundo toda sua potência. Como queria encontrá-lo novamente!

E o encontrei em março de 2017, dessa vez soube que era o William Lee, assisti extasiada sua apresentação, comprei o CD, vi todos seus vídeos no Youtube...Tornei-me fã do cara que representava todos os astros do rock que amava e nunca tive acesso aos shows.

A calçada nem sempre é justa ou traz fama e reconhecimento justo, mas pode ser o palco e a plateia de muita gente boa, gente de bem e competente.


Pouco tempo depois ele faleceu depois de muita luta, aliás uma vida de muita luta desde sempre, soube depois.

Senti tanto, como se fosse meu ídolo famoso que nunca tive acesso, ele era do povo e feliz com o que fazia com dedicação, competência e amor.

Senti vontade vê-lo uma última vez. Fui ao cemitério naquela tarde fria de inverno, com sol e céu limpo.


Dei adeus a ele e a todos os meus ídolos do rock que se foram e não me despedi.


Fora do velório, no banco  alguém desenhara com sementes talvez, caídas das árvores...O formato era de coração, cheio de possíveis simbolismos, meus olhos se encheram de lágrimas, desisti de sentar, fiquei em pé mesmo vendo o entra e sai de amigos e familiares que se despediam.


A moça bonita chorou copiosamente diante do querido que partira.

Veio para fora, alguém a amparava. Olhou para o coração no banco e gentilmente o desfez entre lágrimas e o consolo amigo.

Fiquei ali sozinha no velório enquanto as pessoas o acompanhavam à última morada de seu corpo. Era um momento  íntimo demais para um estranho acompanhar.

Adeus William Lee, você sempre será um sucesso!

Ao sair passei pelo banco e vendo as sementes secas espalhadas pelo banco e chão, refiz o coração.

O vento eu sabia, iria desfazer.

As calçadas ficaram mais vazias, mas o som de sua voz e guitarra ainda ecoam como respostas balançando ao vento como disse Bob Dylan.

Dalva Rodrigues
03/07/2018






6 de mar. de 2017

Paixão pelo futebol e a primeira vez no Morumbi

A vida passa rapidamente  nesta cidade, cresci junto com ela, um tanto  desordenada, no entanto, cheia de novas descobertas e paixões.

Uma das primeiras paixões  que descobri foi o futebol, desde menininha ouvia meu pai contar histórias de seu tempo de solteiro, do time da empresa onde trabalhava e jogava, das encrencas  e brigas que arrumavam nestes eventos, onde os jogadores iam na carroceria de caminhão até o campo do adversário. Acho que a rivalidade passional no futebol sempre existiu.

Já casado e com seus 2 filhos, jogou e dirigiu  o Anchieta Futebol Clube, time de várzea de Vila Liviero, onde morávamos.  Domingo era assim na periferia,  dia de futebol, alegria, dos almoços caprichados  e também dos sacos cheios de uniformes sujos de poeira ou barro que minha avó e mãe lavavam e reclamavam. Hoje fico me perguntando se elas ganhavam para tarefa tão árdua.

Nestes tempos não me interessava realmente pelo esporte, achava estranho aquele jogo só de homens correndo atrás da pelota, mas fazia parte da vida de meu pai e eu observava esse gosto com carinho,  sempre atenta aos causos que ele contava.

Em 1974, já com 12 anos, apaixonei-me pelo Palmeiras apesar de meu pai ser São-paulino. Ainda não era comum mulheres em estádios de futebol, nem mesmo meninas jogavam futebol, mas mesmo assim tive o sonho de ser goleira do meu time, treinava bastante para isso, queria ser como o arqueiro Leão, um de meus ídolos na época, junto com Ademir da Guia.

Lia tudo sobre futebol: A Gazeta Esportiva, o Almanaque do Zé Carioca para aprender as regras do jogo, dormia com o radinho de pilhas ouvindo programas esportivos nas rádios AM, aprendi tudo sobre o esporte e agora entendia porque ele era uma paixão, meu coração acelerava de emoção, tudo fazia sentido!

Nunca esquecerei minha primeira ida a um estádio de futebol, foi em um clássico Palmeiras x São Paulo, no Morumbi, o velho estádio Cícero Pompeu de Toledo. Perturbei muito meu pai para convencê-lo a me levar pois aquilo não era coisa de meninas. Enfim chegou o grande dia, era um domingo, pegamos o ônibus até o centro da cidade, caminhamos até o Vale do Anhangabaú onde filas imensas de ônibus esperavam a multidão de torcedores para os levarem até perto do estádio, o resto do caminho era feito à pé.

Descemos  depois de uma bagunça saudável dentro do ônibus, sem sinal de violência ou palavrões, esses eram guardados para o juiz e bandeirinhas. 

A multidão ia descendo a avenida larga que não me recordo o nome...Meu coração que já batia forte acelerou ao ver o estádio enorme lá embaixo, crescendo cada vez mais a cada passada. Sentia-me como uma ave em um bando a cruzar os céus para chegar ao seu destino, livre e juntas.

Meu pai, como muitos torcedores levavam rádios à pilha e não me esqueço que enquanto estávamos caminhando em direção aos portões de entrada, no rádio ouvíamos o locutor Fiori Gigliotti, que apresentava o programa Cantinho da Saudade, a musica ao fundo era, se não me engano, Bailarina Solitária...Até hoje essa música me remete àquele pequeno trajeto cheio de emoções no coração de uma menina de 13 ou 14 anos de idade, que veria pela primeira vez seu time jogar.

E a emoção  continuou lá dentro, o medo do balanço do estádio que vibrava com os pulos da torcida na hora do gol. Água, cachorro quente, picolé de limão e amendoim com casca eram as únicas opções, embora minha mãe havia preparado um lanchinho tipo piquenique para nós...Coisa de mãe e que na época me causou vergonha na hora da revista à entrada, mas na hora que a fome apertou foi um banquete.

Vi meu Palmeiras vencer por  2x1 o glorioso São Paulo do meu pai que ficou muito bravo quando eu o abraçava de alegria na hora dos gols do meu verdão. Neste dia tive o privilégio de ver duas feras em campo, Ademir da Guia e Pedro Rocha, eles não rolavam a bola, eles bailavam com ela pelo gramado verdinho rumo ao ataque, como namorados nos bailes de outrora conduziam as damas. Sublime. 

E veio o apito final, a comemoração dos vencedores na casa do rival e a vontade de ficar ali, eternizar aquela sensação enorme de alegria. Realizara meu sonho.

Calmamente fomos deixando as arquibancadas para trás, a fumaça e cheiro de churrasco das barraquinhas nos perseguindo..Ao som dos passos apressados fizemos o caminho de volta pela cidade semi adormecida, cada um rumo ao seu destino, amanhã  cedinho seria mais um dia de trabalho na cidade.

Naquela noite nem dormi direito, que domingo feliz, cada detalhe se repetia em minha mente insistentemente.
Guardei para sempre em minha memória aqueles momentos junto ao meu pai que já se foi, com ternura e sinceridade no meu cantinho da saudade, como dizia o saudoso Fiori Giglioti.



 Dalva Rodrigues

A idade vai chegando e sinto a necessidade de rebuscar lá no passado as lembranças já nebulosas, algumas já perdidas. Perguntei à minha mãe sobre os uniformes do time que ela e minha vó lavavam, mas ela não se lembra muito bem, lembrou que eles eram feitos de sacos de farinha tingidos e costurados, era muita dedicação ou quem sabe, na época, obrigação.
É muito estranho a sensação de que o nosso passado vai desaparecendo com a morte de cada um daqueles que amamos, que compartilhamos momentos, a vida...
Cada momento possível deve ser explorado ao máximo antes que as lembranças se percam inexoravelmente diante da morte de quem compartilhamos a vida. 
Relembremos nossos causos e dos antepassados, com nossos pais, filhos, afetos...A vida passa muito rápido, nem sempre ela é longa, mas ela passará, para todos.







5 de jul. de 2015

Selfie - Mico de roupa moderna?

Parece que a modo da selfie pegou e pelo jeito não vai cair em desgosto tão cedo, a paixão pela fotinho parece que ficou mais importante do que os eventos prestigiados.

Nunca fui de tirar (minto, gostava de tirar, mas não de aparecer nelas) muitas fotos - melhor deixar para os bonitos ou pelo menos fotogênicos - mas é legal uma ou outra foto para reforçar as lembranças de momentos principalmente depois que temos filhos, não podem faltar fotos nos passeios. 
Selfie no Anime Friends 2008 - Paulo de Shikamaru

Até pouco tempo quando ia aos eventos de Anime com o filho, tinha vergonha de pedir para alguém tira uma foto de nós e apelava para o selfie que antes era MICO, sim mico, as pessoas ficavam olhando e nos sentíamos mesmo meio que idiotas parados num local tirando fotos de si mesmo. Filho nunca tinha paciência para mais que 2 tentativas e na maioria das vezes era preciso bem mais que isso para sair pelo menos uma boa, sem cortar a cabeça de um de nós. 
Pensando bem, éramos idiotas mesmo, que diferença faria o que as pessoas pensavam? Será que as pessoas que tiram selfie hoje em dia estão preocupados com o que os outros estão achando deles posando em pleno movimentado fluxo de uma famosa rua da cidade? Não mesmo.


Hoje é normal, você está andando na Rua 25 de Março em São Paulo e de repente alguém do nada pára na sua frente sem dar seta para fazer uma selfie e postar nas redes sociais.


Assistindo ao vídeo (de 1964) acima percebe-se facilmente o conceito de selfie embutido, em um tempo que não tínhamos acesso aos eletrônicos. 
The Animals


Eu que nasci em 1962 só tive minha primeira Kodak Instantânea quando no fim dos anos 70 elas se tornaram acessíveis. Lembro que houve um tempo em que as fotos mais descoladas eram aquelas casuais, para não ficarem com cara de paisagem, tinham que captar a alegria do momento, do movimento.
Já paguei esse mico também! Quer prova, olha a foto abaixo...Foto com movimento, ideia minha, com uma Instamatic na mão...só rindo...mas valeu, ficou registrado. Quando somos bobos, não nos apercebemos no ato, mas aprendemos ou quem sabe...mudamos.
Meu pai e irmão - começo anos 80

Esse mês vou novamente ao Anime Friends com o filho, como as coisa se inverteram e estou menos arisca, vou pedir para alguém tirar uma foto de nós, só para contrariar, e quem sabe com cara de paisagem como aquelas do passado, preto e branco, todo mundo sério,estático, vestindo a melhor roupa para o clique raro e provavelmente feliz com o momento, quem poderá dizer que não? Assim como os sorrisos das selfies, quem dirá se são de alegria mesmo ou não?
O mico e seu tamanho está em nossa cabeça.

Modismo vai e vem, só depende de um olhar esperto e desperto.

Que amemos mais o momento do que o registro dele.

PS 28/07/15: Foto do anime Friends 2015 (sem selfie rs)


Dalva Rodrigues

Pessoas queridas, estou aceitando críticas construtivas, seja de erros de ortografia, vícios de escrita, qualquer dica será bem vinda. Obrigada!



9 de fev. de 2014

Sobre porões e céus


Eram tempos de morte...
Ao toque da sirene todos se apressam em busca do abrigo  escuro que os receberiam, o porão abraçava-os como se tivesse os braços da morte convidando-os para o leito potencialmente fúnebre àqueles que  ainda ansiavam por viver.
Silencio mortal, apenas respirações...

Quanto tempo se passará até o alívio da sirene quebrar o silêncio mortal? Haverá vida ou será o fim eterno sem tempo sequer para despedidas? Talvez a despedida esteja nos olhares cansados  trocados no vácuo do porão.

Do silêncio brotou a voz de menina.
Seus lábios timidamente começam a narrar a história de um menino cujo sonho era crescer, enamorar-se, dançar as valsas mais belas olhando nos olhos da amada e um dia morrer velho, cansado, mas de viver.
A voz juvenil e doce embala a espera interminável dentro da escuridão,  refrigério para  aquelas almas presas no porão.

Lá fora o jovem que um dia fora menino sonhador fazia o caminho inverso. A noite fria de céu salpicado com estrelas o observava esgueirar-se de seu porão solitário, refúgio de vidas minadas.
A sirene era seu momento de liberdade, de encarar a morte percorrendo passos temerosos na calçada cinzenta.
Estaria vivo e feliz se nenhuma alma o visse. Timidamente deixou o penumbra, sentiu a beleza da luz noturna que iluminava a rua adormecida e seu desejo de viver.
Como era lindo aquele céu.


Poderia fundir sua alma nele, fechar os olhos, assim ouvir as estrelas o chamando, chamando...Era a voz da amada vindo do passado abandonado o convidando para bailar  entre elas, tendo como testemunha apenas a lua prateada.

Poderia  fechar o olhos, entregar-se à dama vestida de estrelas... à noite fria...Deixar-se morrer feliz na calçada fria, pôr um fim na angústia de sobreviver em tempos de guerra.
Relutou a tanta beleza, ouviu lá dentro de sua alma a voz da menina a chamá-lo.
Sorriu para as estrelas, não fechou os olhos.
Voltou para o refúgio no porão.

A sirene tocou, naquele dia ainda não se viram cinzas. 


Dalva Rodrigues


Fiz  esta crônica inspirada em algumas cenas do filme "A Menina que Roubava Livros".  Ainda não li o livro, mas recomendo o filme, emocionante!
A menina que roubava livros



21 de dez. de 2012

Um conto feminina de natal

O frio lhe congelava o corpo naquela noite de Natal.

A tarde de verão fora quente, a noite trouxe tempestades com rajadas de ventos, granizos que pareciam perfurar o corpo desprotegido, a noite era solitária, lojas fechadas, cada um em seus lares nos preparativos para a grande noite feliz! Uma ou outra alma vagava rapidamente para alcançar seu destino, tentando se proteger do dilúvio tropical nos beirais da lojas.
Finalmente  seu ônibus chegou, assim que subiu sentiu o ar menos frio do ambiente lhe abraçar o corpo trêmulo e molhado pela tempestade furiosa. Sentou-se encolhida no cantinho tentando se aquecer ou esquecer o frio que consumia o corpo. Pensou em natais passados...


Lembrara de um tempo distante quando as noites de Natal  guardavam mistérios de meia-noite  que nunca conseguira alcançar.  Bebidas geladas, refrescantes, bolhinhas mágicas que dançavam nas taças dos adultos alegres na espera da meia noite, presentes sonhados ao pé da  árvore enfeitada, ceia com delícias desconhecidas e desejadas, risos, gargalhadas, abraços, melodias....jingle bells, papais-noéis, era noite de natal!
E tudo existira apenas no imaginário dela, sempre dormira cedo, real mesmo eram os almoços de Dia de Natal, árvore enfeitadas com algodão, comida farta e deliciosa sobre a mesa ajeitada no quintal, roupas novas, muitas crianças para brincar, um dia de alegria como qualquer outro dia de festa aos olhos de uma criança simples e feliz.
 

Ela cresceu, ficou acordada, experimentou as bebidas dos adultos, brindou, celebrou acanhadamente aquela festa tão sem sentido aos seus olhos jovens; viveu amores, ilusões, era dona de si, tinha a liberdade de ir ou não às festas que quisesse. Era dona de seus abraços, presentes e laços.

E mais rápido ainda o tempo passou, como num piscar das luzes de natal que agora observava lá fora, sentada no ônibus quase vazio que recebia um ou outro atrasado para a festa, seus abrações, presentes e brindes; um bêbedo entrou, discursou para si, cansou e dormiu; uma mãe entrou carregando pacotes desfeitos e molhados na sacola plástica e um bebê mal protegido no peito a chorar; entrou um casal bem novinho tão agarradinhos (como só os jovens amantes sabem ficar) que parecia que a chuva não os haviam molhados de tanto era o calor dos dois (Natal pra quê?!).

Cansou de observar a melancolia da cena que fazia parte, colocou os fones de ouvido, ligou o rádio e foi escolhendo a trilha para pinturas mortas e reais de véspera de natal que se passava além da janela do ônibus em rápido movimento, espirrando água em poucos e  ingênuos arrumadinhos correndo atrasados para seu destino. Nos poucos bares e padarias abertos, muitos bêbados, homens  entornando cervejas, rindo, aparentemente se divertindo  enquanto as esposas em suas cozinhas provavelmente suavam às bicas com os fornos cheios de assados maravilhosos para esperar o beberrão. Nenhuma música combinava com essa cena urbana de véspera de Natal, melhor fechar os olhos ao som de uma seleção de músicas românticas, procurou Amy Winehouse,Love is a Losing Game, sonhou acordada com os abraços do amado e só por alguns instantes sentiu o calor lhe aquecer as roupas ainda ligeiramente úmidas, o corpo, a alma fria.



Finalmente chegou ao seu destino, desceu, caminhou pela rua deserta iluminada pelos pisca-piscas alegres e coloridos. Silenciosa entrou na casa mais solitária ainda, despiu-se rapidamente, ligou o chuveiro, entrou...Como era bom sentir a água quente lavando e aquecendo o corpo velho cansado e gelado. Agora já não parecia estar tão frio, colocou um pijama velho e confortável, preparou um drink, sentou-se no sofá, deu ligeira passada pelos canais da televisão...tédio. Faltavam poucos minutos para meia-noite, saiu na janela, lá fora os fogos de artifício iluminavam o céu. Voltou-se, abriu o notebook, parecia que o mundo estava off line, abriu o Messenger...ninguém...Pensou se deveria...tomou mais uns goles do drink , decidiu-se.

Olhou seu único favorito, um jeitinho de menino que sempre a encantara...tão carinhoso, lindo naquele fundo azul de uma foto tão pequena de avatar...Abriu a janela de conversação, digitou com os olhos do tempo na janela do coração: 

Feliz Natal, beijos!

Enter.


Esperou alguns minutos intermináveis olhando olhando a mensagem enviada....silêncio...vazio.


Turned off.

Voltou para a cozinha, preparou mais um drink,  brindou só...

Feliz Natal!





25 de dez. de 2011

As botas de Papai Noel e o Sapateiro

É época de Natal, consumidores em frenético vai e vem em busca de presentes que alimentam a poderosa fábrica de Papai Noel!
Presentes que encantam crianças por alguns minutos, alegram alguns adultos e a outros compensam as faltas do ano inteiro...
Em meio ao corre-corre e filas, rostos impacientes, cansados e irritados com os outros filhos de deus e até mesmo com suas próprias proles que ingenuamente se alegram entre um objeto desejado e um pito dos pais rabugentos, mas para criança tudo está bom, as vitrines fascinam os pequenos e o que importa é que Papai Noel venha na tão esperada noite de Natal.
É véspera de Natal, seja em shopping  center, avenidas e ruas iluminadas dos bairros nobres ou nas barracas tão mal vistas dos camelôs em bairros pobres, os tão cobiçados presentes estão presentes...São como luzes a seduzir mariposas alimentando o consumismo e o desejo de celebrar o Natal com alegria.
Enquanto isso lá no polo norte Papai Noel correndo o risco de ser devorado pelos ursos polares que já devem estar pensando em outras fontes de alimentação diante dos efeitos do aquecimento global, está tão cansado, com as solas das tradicionais botas desgastadas lhe causando dores e odores nos pés. Pobre Papai Noel, precisa de um sapateiro!

Hoje, ao sair apressadamente de última hora para comprar um presente faltante fui parada pela vizinha em alvoroço:

- Sabe quem morreu? O velho sapateiro, será que era o último?

E quem precisa consertar os sapatos? Nas lojas tem de montão, feitos nas fábricas que geram renda, até mesmo por meninos que esperam o Papai Noel!















31 de ago. de 2011

Destino no Asfalto

Mais um dia de trabalho e lá vai o motoqueiro pelas ruas de São Paulo, personagem anônimo na imensa paisagem de concreto da grande cidade, insólito em seu tricotear busca os espaços que o levam ao destino da rotina diária do existir.
Mas ele não vê que o destino pode estar logo ali à frente, escondido no asfalto sob as águas turvas da chuva que castiga  a cidade cinza e apressada que alimenta e também devora seus habitantes. O destino ignora os sonhos do personagem...lar, amores, laços, abraços, risos e choros espalhados pelo ar...
Um segundo e o destino se faz: a vida é lançada aos ares, cai simplesmente o corpo estatelado no asfalto, o sangue sendo lavado pelas águas da chuva, novamente atrapalhando o tráfego de mais um dia frio e cruel na cidade que não pode parar.
Rapidamente o burado é tapado, será chamado de fatalidade camuflando o descaso, a omissão. A vida dos sobreviventes continua escrevendo a cada dia seu próprio destino...até encontrar um buraco no chão.
Um pai, um filho, um amante...hoje mais um alguém não vai voltar para casa.

Postagem original: Publicado em: 28 de outubro de 2009 às 9:26



28 de ago. de 2011

PELAS RUAS

Onde mora a dignidade humana? Esta foi a pergunta que me fiz.

A mulher vinha pela rua, vestes surradas, cabelos desgrenhados, olhar inseguro. Parou, olhou a rua, atrás de um poste tirou da sacola uma garrafa PET com água, despiu-se da peça íntima por baixo da saia comprida e agaixando-se lavou sua intimidade, olhando para os lados como se pudesse assim evitar possíveis olhares.
Meus passos diminuiram como a querer preservar aquele momento de pivacidade ali tão exposto na calçada pública esburacada. Passei por ela querendo ser invisível e pensando que eu estava indo e voltaria...e ela talvez nunca voltasse por não ter de onde partir, num ir e vir para o nada.
Não olhei para trás, não sei se pela consciência leve ou pesada.
Onde ela mora, a tal dignidade? Onde mora não sei, mas sei que pode ser muito...muito pouco.

Postagem original:  Publicado em: 8 de maio de 2009 às 11:55