As ruas se tornam frias, não fervem de pessoas, ficam tristes mesmo com o belo tom de cinza.
Estávamos começando a prestar atenção no Coronavírus por aqui, ainda se dizia que máscaras eram só para quem estava com algum sintoma ou fosse do grupo de risco.
Sem máscara, mas já cuidadosa, levando meu frasquinho de álcool em gel, evitando ao máximo tocar nos objetos e mobílias em um ambiente grande e cheio de pessoas na triagem da Defensoria Pública na Rua Boa Vista, centro de São Paulo.
Pessoas impacientes esperam a chamada de sua senha, não ficam serenas nem quando têm tempo de acalmar a mente.
Estava inquieta, tudo que queria era voltar para casa com problema resolvido, fugir da sensação do que já pressentia ser iminente perigo.
Nada resolvido, mas encaminhado, o estagiário orientou-me para pegar um certificado logo ali na agência do INSS no Viaduto Santa Ifigênia, perto de onde estava.
Saí do prédio aliviada por respirar o ar "puro" que na cidade é quase sempre poluído, pareceu-me mais seguro, melhor poluição do que vírus devastador.
Estava frio, garoa insistente, daquelas que lembram os velhos tempos da cidade, abri a sombrinha, caminhei até lá, cuidando para não tropeçar ou escorregar no chão molhado. Uma fratura...SAMU, pronto socorro...Isso me deu calafrios.
Neurose 2020.
Um olhar no chão, outro ao redor, outro ainda no céu que chorava lágrimas fininhas que limpavam a poluição sem no entanto o poder de álcool e sabão.
Chegando na agência me falaram que antes tinha que agendar por telefone para fazer a solicitação. Nem reclamei da informação do estagiário que me deu a orientação, havia sido tão atencioso.
Logo estaria em casa, banho quente, finalmente um café amargo revigorante. Em segurança...(será?).
Voltei calmamente pelo famoso viaduto observando ao longe o que supus ser um grafite borrado (pela minha visão imperfeita) na parede de um prédio no Largo de São Bento.
Tirei algumas fotos aproveitando o vazio da tarde sem correr risco de ter o celular roubado, fato comum na região.
Parei na metade do caminho, lembrei da cena de Black Mirror (S05E01) onde o personagem aparecia no famoso Viaduto.
| Cena de Black Mirror |
Ainda não tinha noção do quanto o tema Coronavírus estaria em nosso cotidiano e viveríamos uma realidade digna de ficção.
Segui, o borrão desenhado foi tomando formato: a imagem do cantor Raul Seixas, poderoso com suas músicas que eram um grito louco que transbordava sensatez.
A caminhada não havia sido à toa, tirei mais algumas fotos, fiquei algum tempo observando o trabalho (descobri mais tarde que era do fotógrafo Rui Mendes, é uma foto de 1987 ampliada) e voltei para o silêncio interior, rumo ao terminal de ônibus onde me misturei à multidão que já começava a voltar para a periferia que para muitos é dormitório.
Tirei essas fotos no dia 28 de Fevereiro/20.
Veio a quarentena, tudo parecia ter ficado mais silencioso ainda, em todos os lugares do mundo.
Vieram as mortes, de pessoas, não de números.
Ainda há cheiro de morte no ar, mas neste domingo, 31/05, parecia cheio de barulhos de vida acontecendo, pipas no céu, risos, fogos, movimento.
Ilusão de que está tudo bem ou estão vivendo o dia como se fosse o último?
Depois de um tempo o silêncio parece que foi quebrado, serão as mortes banalizadas também? Mais um medo com o qual nos acostumaremos?
A Historia não para, acontece o tempo todo.
O mundo quer respirar...Saúde, liberdade e dignidade.
Algumas ruas no mundo ferveram estes dias, apesar de todo perigo.
O que escreveria e cantaria o Maluco Beleza diante do que virou uma Pandemia?
Será que a Terra ainda para, ou ainda teremos que nos exterminar para a vida na Terra continuar?
Os olhos verdes que piscam no escuro de céu
Filho da luz, fui nascido da lua e do sol!
Nas noites mais negras do ano eu mostro minha voz;
Estrelas, estrelas
As estrelas elas brilham como eu!
As nuvens vagueiam no espaço sem lar nem raiz
0 ódio não é o real é a ausência do amor
No fim é um grande oceano, mãe, mãe filho e luz…
Estrelas, estrelas
As estrelas elas brilham com nós!
As trevas da noite assustam escondendo o segredo da luz!
Da luz que gargalha do medo do escuro
Que é quando os meus olhos não podem enxergar!
Dia , noite,
Se é dia sou dono do mundo e me sinto filho do sol
Se é noite eu me entrego às estrelas em busca de um farol
Estrelas, estrelas,
As estrelas elas brilham como eu.
As trevas da noite…
Filho da luz, fui nascido da lua e do sol!
Nas noites mais negras do ano eu mostro minha voz;
Estrelas, estrelas
As estrelas elas brilham como eu!
As nuvens vagueiam no espaço sem lar nem raiz
0 ódio não é o real é a ausência do amor
No fim é um grande oceano, mãe, mãe filho e luz…
Estrelas, estrelas
As estrelas elas brilham com nós!
As trevas da noite assustam escondendo o segredo da luz!
Da luz que gargalha do medo do escuro
Que é quando os meus olhos não podem enxergar!
Dia , noite,
Se é dia sou dono do mundo e me sinto filho do sol
Se é noite eu me entrego às estrelas em busca de um farol
Estrelas, estrelas,
As estrelas elas brilham como eu.
As trevas da noite…












