1 de ago de 2019

Bolo de Fubá

Sempre tem aquela receita que você pediu tanto, nunca fez e acabou amarelando no papel com o passar dos anos.

Minha vó paterna fazia bolos de cabeça, batia à mão e ficavam deliciosos, dificilmente dava errado.

Amava especialmente os bolos de fubá, eram fofinhos e o cheiro dele no forno atiçava a vontade de tomar o café da tarde. 

Bolo simples na mesa, sem cobertura ou recheio,  café passado no coador de pano que caia em fio no bule, subindo a fumacinha e o aroma se espalhando...Ah, que saudade dessas coisas!

Esses dias filho comentou que comeu na festa junina da mãe da esposa do pai, um bolo de fubá muito gostoso, com uma casquinha bem fina de chocolate (casquinha mesmo, não calda).

Das receitas de bolo de fubá que tenho feito, a maioria apesar de gostosas não eram como  os feitos pela minha vó que usava fubá mimoso, aquele que precisa de bastante cozimento que ela usava para fazer aquelas polentas inesquecíveis de textura cremosa, finíssima.

Lembrei de uma receita que tenho há mais de 25 anos, dos tempos que trabalhava no Metrô, em datas comemorativas ou mesmo sem motivos, sempre rolava umas comidinhas na escala noturna que chamávamos de noitadas.

Uma colega de serviço levou um bolo de fubá que nunca esqueci, era fofinho como o de minha vó, muito saboroso.

Anotei os ingredientes, mas não o modo de fazer, então a receita abaixo, filho  fez do jeito que achei que seria o mais provável. 


MODO DE FAZER

Bata as claras em neve e reserve.
Bata bem as gemas com o açúcar (usei só 1 1/2 x) e o óleo.
Peneire juntos, farinha, fermento e fubá e alterne misturando  (sem batedeira) na massa com o leite.
Por último as claras em neve delicadamente.
Forma  untada com óleo e polvilhada com farinha (só no fundo).
Assadeira 32 x 22 x 5
Forno pré aquecido, médio.

Obs: Usei fubá mimoso mesmo.
         Usei xícara medida de 240 ml.
         Coloquei + ou - 1 col (café) de erva doce

É um bolo simples, nem precisa de cobertura, mas como filho estava com vontade...
Depois de frio cobrimos com cobertura fracionada meio amargo e chocolate ao leite derretidos (usei os dois tipos para não ter que dar o choque térmico) e completamos com granulado.

lembranças de infância
Bolo de fubá mimoso


Lembrou bastante o que minha vó fazia.
Comi com alegria lembrando a simplicidade daqueles dias e o quanto fui privilegiada por ter tido uma vó com mãos afetuosas que me banharam, alimentaram, ensinaram. Dádiva.

E obrigada, Elza Bijjot pela receita.



1 de jul de 2019

O tempo das plantas, mortandade de abelhas e saúde de todos

Passei este semestre observando o pé de amor agarradinho na esperança de obter algumas sementes para uma amiga.

Apesar dessa planta estar por aqui há mais de vinte anos, não reparei no tempo dela. Sim, plantas tem seu tempo e certamente não é o tempo que nós desejamos.

Elas dizem silenciosamente: 

-Paciência, adormecemos e acordamos, no nosso tempo. As flores são minhas, não suas.

O começo da primeira florada este ano e um visitante nada esperado:

Vaga-lume em plena luz do dia?


As flores se tornam sementes, mas nem todas conseguem esta façanha, a maioria cai, só as mais resistentes do ramo não enfeitam o solo com seu rosado e tem a tarefa de possibilitar vida nova.

As sementes só estarão boas para germinar quando estiverem bem secas e mesmo quando plantadas nem todas germinam. A seleção é rigorosa.


Observe o tanto que cai de flores em relação ao tanto que fica.

Cachos e mais cachos formosos vão nascendo, se espalhando e subindo em qualquer lugar que alcançarem e puderem se "segurar".

Não sei o que é, mas achei bem interessante este tipo de casulo, me pareceu de aranha, mas nunca descobri.

Muitas abelhas frequentam a planta o dia inteiro e essa é a espécie mais comum:



Já tem um tempinho que tenho ouvido falar que as abelhas estão morrendo, mas só no último mês  percebi isso por aqui, elas quase não aparecem mais, aparecem mortas nos arredores, entram em casa meio doidas, desorientadas.

Dei uma rápida pesquisada e parece que é o uso excessivo de agrotóxicos que estão cada vez mais sendo liberados pelo ministério da agricultura, mais fabricantes deles os colocando no mercado.

Será que só faz mal para esses serzinhos tão importantes na natureza? 

As abelhas tem seu tempo, será que estamos interferindo no tempo delas e no nosso?

Triste como isso tem sido tratado e pouco se questiona.

 Link   de uma matéria sobre o assunto.

E para encerrar, uma foto linda de uma visitante que ficou vários minutos passeando pelos últimos galhos da última florada, já sem força.

Semana passada podei, o amor agarradinho, agora ele dorme. Espero acorde como tem feito estes anos todos, se esse for o tempo dele.


Se não prestamos atenção, não vemos essa perfeição.
A transparência é linda!


E de última hora um vídeo fresquinho no tema agrotóxicos.










13 de jun de 2019

Borboletas e sonhadores na sala de estar

Eles andavam pelo bairro,  corpos desgastados pela vida dura, pela cachaça, vermelhos de sol.

Algumas vezes sóbrios, na maioria não.

Os dois amigos perambulavam pelas ruas em busca de alguém que lhes dessem um prato de comida, roupas ou uns trocados por pequenos fazeres como carpir mato, carregar entulho, uma vez que na periferia quase todos não podem pagar para descartar de forma correta.

Se paga, falta o dinheiro da água, da luz, do pão ou do IPTU.

Sorte dos catadores?

Azar da sociedade?

O entulho poderia ser queimado poluindo o ar, nunca se sabe que casa tem um idoso ou criança com doença respiratória.

Ou quem sabe ficar entulhado nos quintais renderia uns perigosos escorpiões e aranhas para compartilhar com toda vizinhança, também não é uma boa ideia.

Mas para alegria de nossos protagonistas, o descarte na maioria das vezes vai para uma calçada qualquer e a prefeitura vem recolher depois de um tempo,depois que os vizinhos reclamam.

Talvez o caminho da solução seja outro, o qual ignoramos ou fingimos ignorar. 

Eles não questionam, simplesmente existem.

Foi um dia especial, Adelino e Manuelzinho encontraram dois sofás de couro desgastados pelo tempo, dispostos na calçada em frente a casa estilo anos 70, provavelmente deixado pelos donos da casa para que alguém pegasse para reformar, estrutura de madeira boa, uma reforma os deixariam lindos, valeria a pena.

Olharam-se com cumplicidade e não pensaram duas vezes.

Sentaram-se.  A alegria invadiu os semblantes vazios, sentiam-se como cidadãos dignos de uma sala de estar particular, ao ar livre, nada de papelões e muretas fedidas. 

Um confortável par de sofás e uvas rosadas pendendo em lindos cachos pelo muro ao lado compondo o lúdico cenário.

Era como se dissessem: -Pessoas, olhem para nós!

Entre um cigarro e um gole de cachaça eles conversaram por horas enquanto os transeuntes passavam olhando a cena pitoresca.

Assim como nós em nossas próprias salas de estar, sob um teto aconchegante dividimos cervejas e um café com amigos e família, eles socializaram o momento oferecido pelo destino.

Aliás, eram duas cenas pitorescas,  em ritmo amoroso, um casal de borboletas acasalava despudoradamente ao lado do sofá em plena luz do dia.

Poucos as observaram.


acasalamento
Juntas até que a morte as separem

As horas passam, os amigos confabulando, as borboletas curtindo o sexo explícito na calçada, em pura ingenuidade da natureza, sem se preocuparem se poderiam ser esmagadas ou chamadas de promíscuas.

Depois de umas três horas de transa as borboletas lutaram (ou algo parecido) para se desprenderem e ao final da batalha  só restou uma, morta, no passeio público.

Finda a união que parecia tão duradoura.

Não sei quanto tempo os sofás ficaram expostos e seus convidados puderam aproveitar.

A vida não traz presente todo dia, nem amor.

Outro dia Vi Adelino deixando uns cacarecos no conhecido lugar de descarte, um homem passou de carro,  ralhou com ele e olhou para mim como que esperando validar sua atitude de bom cidadão ao criticar o pobre coitado.

Fiquei quieta, qual seria o ângulo que ele queria que eu visse para aprová-lo em sua indignação pelo catador malvado?

-Adelino, e o Manoelzinho? -Faz tempo que não o vejo.

-Arrumou emprego por uns mêis no canteiro de obra de um condomínio, tava bom, pouca cachaça, aí a construção acabou e ele não conseguiu outro emprego.

-Pegou o dinheiro da indenização, avisou a famía que iria pra sua cidade no nordeste, estava com saudade da filhinha, havia de conseguir um emprego por lá, mió que carregá peso na cacunda por uns trocados.


- Mas foi triste dona, a notícia correu que ele levava dinheiro, esperaro ele, robaro e fizero  judiera com o pobre.


-A última coisa que soube é que ficô acamado e bobo das ideia.


-Que tristeza, a esperança durou tão pouco.

-Cuide-se Adelino, e não fique triste com o comentário do rapaz, certamente ele não consegue vestir a sua pele para compreender seu "trabalho".

Segui meu caminho lembrando deles sentados na sala de estar ao ar livre, felizes.

Algumas vidas são mais efêmeras que outras, tão frágeis em sua invisibilidade como as borboletas.

Aproveitam as felicidades do acaso antes que as esperanças acabem em uma calçada qualquer.

O fim do êxtase 


Dalva Rodrigues
13/06/2019