10 de fev. de 2021

Cárceres

Anda perdido em ilusões de tudo que vê e ouve falar ser um lar.
Migalhas a conta-gotas alimentam o frágil corpo.
Alma nem sabe o que é, um fio invisível do qual nem se dá conta do existir.
Dias de frio, calor, fome, sede, solidão, desamparo, dor. Dias de nada são os melhores.
Sente cheiros...O arroz frita nos temperos, ovos frigem na panela e em sua imaginação. Come a casca da banana.
Sente cheiros...Suor, seu próprio cheiro mesclado em excrementos e vapor.
Ouve sons... vindo da casa a água morna do chuveiro a escorrer em corpos asseados, sente o cheiro de sabonete de flores desconhecidas.
Acima, a centímetros de sua cabeça, ouve o barulho da chuva de verão torrencial sobre a telha que o sepulta calado.
Ouve na casa todos risos, músicas, conversas, comemorações.
"Seria um lar, por que não estou lá"?
Faz tanto tempo que vive abandonado. Ainda é tão criança, sem saber o que é sê-lo, fora ou dentro de seu cárcere não há espaço para ele. Seria a rua a salvação, com seus perigos e tentações? Eles dizem que é proteção.
O verão castiga com seu calor, seria o barril o seu caixão?
Morreu e não sabia, está no inferno. Sustentado nos cambitos inchados picados por mosquitos, atado em correntes por mentes doentes, atrozes.
Ouve crianças e suas risadas.
Vez ou outra uma pipa colorida atravessa no seu minúsculo céu, uma moldura de tijolos inacabada.
Ouve cantos tristes de pássaros engaiolados para alegrar seus donos.
Não sabe ser pássaro, não consegue cantar. Se cantasse  ficariam felizes?
Falta voz para gritar, força para reagir, aquele é o lar que conhece.
Sonha com água, ar puro, banho, pão, uma cama, se esticar, respirar, ser criança, viver. O tempo de criança é tão curto.
E ainda assim o seu algoz ele diz amar.

Dalva Rodrigues
10/02/21

U2 - Original Of The Species


  

"Por favor permaneça uma criança em algum lugar no seu coração."

A cada minuto que respiramos, muitos estão sendo sufocados.

Quem ouve os gritos silenciosos de sofrimentos em cárceres?

Em que momento, em que circunstâncias um ser deixa de ser humano?


 


27 de dez. de 2020

Minha excelência

Procuro excelência em mim, ao meu redor:

No meu lar. Nas paredes lisas, bem pintadas, sem marcas, sem rachaduras, sem mofo, bem decoradas, combinadas.
Nas roupas de corte impecável, bem passadas, sedutoras, etiquetas famosas e descoladas.

Nos amigos, nas festas, no pet enfeitado, no hobby, no político, nas redes sociais, na foto perfeitamente enquadrada, no vídeo bem editado, no celular de ponta conquistado.

Na viagem, na galeria de arte, no museu, na biblioteca, na fina sinfonia, correta ortografia. 

Na família perfeita, solidária e animada.

No sucesso profissional ou fracasso existencial.

No corpo idealizado, nos músculos definidos, peso controlado, cabelos tratados, sedosos, bem penteados, dentes branqueados, unhas impecáveis, alimentação saudável.

No fino vinho, refinada gastronomia.

Nas bocas que beijo, nos corpos com que me deito, no amor que idealizo.

No espelho sem reflexo, na idade ignorada, no filtro que ilude, na maquiagem decorativa, nos poros sufocados.

Procuro virtude em deuses, meditação, religião.

Sou escravo do meu ego, de minha necessidade de superioridade.

Ando por aí caçando perfeição. Nas construções verticais e horizontais, nos automóveis, nos pedestres, no tráfego agonizante na tarde iluminada.

Procuro validação de todas minhas escolhas, certas ou erradas.

Procuro o perfeito breve, logo colocado de lado, substituído.

Depois choro, quando sou descartado, trocado.

Ignoro a imperfeição explícita.

Cimento, palavras mal traçadas, gritadas nos grafites das paredes abandonadas, fumaça, queimadas, lama, desabamentos, emergências, sirenes, incêndios, fome, tiros, homens maus.

Ignoro a doença, a morte que não me dói, minha efemeridade.

Perfeição sem humanidade, hipócrita, evolui devastando, exterminando.

Quanto mais procuro a perfeição, mais me distancio do animal que sou.

O natureza ignora nossa sapiência, age para sobreviver, sem raciocinar, apenas se adéqua, no tempo dela e no tempo imposto pela sábia humanidade.

Há outras vidas dentro e fora de mim. E estas nem se dão conta de minha existência, de minha excelência.

Dalva Rodrigues
27/12/2020

Where Do The Children Play?





22 de nov. de 2020

MacArthur Park

No começo do ano postei um vídeo (nem vou linkar porque o vídeo foi retirado do ar) com a música MacArthur Park  na voz do cantor e ator  ( Camelot, Harry Potter, Gladiador, Um homem chamado cavalo... ) Richard Harris - Composição de Jimmy Webb.
Fiquei triste, mas muito triste mesmo, era lindo demais, em preto e branco (1968) o próprio Richard Harris atuava... 
Ainda bem que o assisti muitas vezes, o  que ajudou a guardar um pouco das cenas na mente, não sei por quanto tempo ainda.
Corre a lenda que é uma das músicas mais bregas pelo "oooh, nooo...", pela letra sem sentido da qual fazem piada, mas para mim acho maravilhosa, cheia de magia, metáforas instigantes e melodiosamente perfeita.
Não me canso de ouvir, coloco os fones de ouvido e me sinto capturada por sua sedução, morreria feliz em completa paz se a estivesse ouvindo. 
Certamente está no meu top 5 de músicas para ouvir morrendo. 😊
Há musicas que são especiais em nossas vidas, concordam?
Fiz o poema abaixo,  interpretação inspirada um pouco na letra e nas memórias do vídeo excluído. 

Link da letra

Como sugestão, antes do poema, um vídeo (1968 som original)


MacArthur Park

A primavera não esperaria por eles.
Entre árvores no parque ela corria,
Bela,  fresca como as flores que colhia,
Observada  por encantados olhos verdes.

Presos em páginas separadas,
Um mesmo livro prensado,
Eternamente transformado
Em histórias desencontradas.

A cada primavera a neve derretia,
Mais distante dele  a garota vivia.
Desabrochava, amadurecia.
Do parque aos poucos desaparecia.

Na linha do tempo se perderam.
Nunca se encontraram.
Memórias dela o perseguiam:

O vestido amarelo girando,
Fluindo como ondas em seus joelhos.
Espuma doce que nunca desfrutou.
O bolo desejado, imaculado,
Vagarosamente assado,
Receita perdida do pecado.

E ao final de  todos amores descortinados,
Dos túmulos vasculhados,
Na dança do tempo fluindo,
Seus pensamentos ainda são dela:
A garota no parque surgindo
Entre árvores, sorrindo. 

Dalva Rodrigues
21/11/2020

saia branca


saia branca - trombeta


Se chegou até aqui, obrigada pela leitura!