26 de jul. de 2020

A alegre senhora de vermelho - Conto



Era feliz, talvez porque nunca dera ouvidos aos ditadores de etiqueta e comportamentos. Correto para ela era ter caráter, não prejudicar ninguém, pagar suas contas, respeitar o próximo e a si mesma, ser dona de seus desejos e realizações que não diziam respeito a curiosos da vida alheia.

Aos sete, quinze, trinta...sessenta, setenta, oitenta, noventa...O que são os anos e representam na vida de uma mulher? Quantas mulheres viveram dentro de uma vida inteira?
Uma soma de todas, no mínimo.

Sempre foi jovial, gostava de falar, fazer amizades, não perdia oportunidade de conhecer pessoas, puxava conversa com estranhos, ia aos bailes dançar, namorava muito, bebia suficiente para se alegrar, usava as roupas que ela mesma fazia inspirada nos figurinos das atrizes dos filmes que assistia nos velhos cinemas de rua. 
Apaixonava-se, pelos homens e pela vida.

Um sorriso se abria em seu rosto ao ver-se no espelho em seu vestido preferido: vermelho, rodado, com mangas bufantes presas em delicadas pregas, chapéu vintage na mesma cor enfeitado com laço e uma pequena flor de plástico que tirava dos arranjos comprados para colocar nos vasos, enfeitar a casa. Lugar de flores vivas era no pequeno jardim que cuidava com dedicação.
Não menos importante eram os sapatos modelo boneca com saltos baixos e confortáveis, sentia-se elegante e jovial desde sempre, mesmo agora quando os cabelos se tingiram totalmente em prateado lunar.

Tinha estilo próprio, de gente feliz consigo, percebia que as pessoas olhavam para ela, uns achando graça, outros  a chamavam de brega, alguns poucos percebiam e admiravam sua ousadia em se permitir ser o que ELA queria ser. A vida inteira foi assim.

Plena e leve a definia. Uma velha menina, jamais saia sem passar batom rosado nos lábios agora plissados pelo tempo e água de colônia atrás das orelhas. Nunca se sabe quando o amor pode passar ao lado e sentir seu perfume, embora soubesse que boa parte dos homens de sua idade ignoravam suas próprias marcas de velhice e queriam apenas  as memórias dos corpos jovens, delas e deles.
E não os julgava por isso, também sonhava mesmo era com os corpos cheios de vigor, mas como ninguém vive exclusivamente de fantasia aproveitou bastante os idosos que com ela se deitaram sem se importar com as marcas físicas do tempo.

Quando andava pelo comércio do bairro periférico se recusava a pegar a fila para idosos, não por não se enxergar idosa ou não ser sabedora de seus "direitos", era por ter a consciência de que a outra fila tinha mais atendentes apesar da fila maior. Algumas aplicações de leis são para iludir, sabiamente dizia. 
Seu raciocínio não era fraco, aprendera com a vida as contas práticas de matemática mais do que nas carteiras escolares (que pouco frequentou), para não ser trapaceada pelos sem caráter que vez ou outra apareceram em seu caminho. Era simples, não boba.

A vida diz que o viver passa rápido, sabia disso, aproveitava cada momento com intensidade. 
Não casou, dedicou-se aos sobrinhos, depois aos sobrinhos netos, principalmente na primeira infância onde as crianças são livres de preconceitos e toda experiência e afeto são bem-vindos.
Quando se tornavam adolescentes seguiam novas buscas, a tia/avó espalhafatosa da Rua da Vila não acompanhava o novo tempo que viviam.
E ela compreendia, prezava pelo direito de escolhas de cada ser, transformava seu amor também, em outra fórmula do mesmo amor.

Comprou um pequeno terreno nos tempos que havia muitas industrias e trabalho, finalmente saiu do aluguel quando se aposentou. Construiu a pequena casa, simples, colorida com objetos especiais da vida enfeitando e trazendo memórias de vida e pessoas.

Agora já não tinha disposição de ir aos bailes de terceira idade que tanto frequentou até pouco tempo. Fazia passeios curtos com o grupo da comunidade, seu tempo era dedicado mais aos dois cachorros e um gato que eram seus companheiros e fonte de afeto. 
Todos os dias dedicava um tempo a costurar retalhos doados que se transformavam em quentinhas colchas de retalhos para doação aos carentes de um calorzinho e atenção quando eram entregues. Era grata à vida, poderia ser ela naquela situação, quem sabe dos caminhos que a vida pode nos levar?

Em uma manhã vestiu o vestido vermelho preferido, colocou o chapéu, passou batom, olhou-se no espelho feliz e saiu de casa para pagar as contas,  conversar com os conhecidos mais antigos do bairro. Gostava da energia de vida que sentia nos jovens, das novas visões do mundo, mas estes nos últimos tempos viviam mais nas extensões do mundo virtual , do qual ela só dominava o básico.

Na loja de aviamentos comprou tecido branco de bolinhas vermelhas, começava a se falar em uma doença trazida por um novo vírus, as pessoas deveriam usar máscaras para sair de casa. Como já passava dos  oitenta apesar de estar com a saúde razoável, melhor seria não arriscar. 

Ainda estava quente quando voltou para casa naquela  tarde de começo de outono, lavou os lençóis floridos e o tecido para as máscaras.
Sentou-se no banco do jardim, os cães e o gato sempre ao lado observando, brincando ou tirando uma soneca aos pés da senhora.
Descansou observando o zum zum zum das abelhas nas flores, os lençóis balançando no varal, o tecido branco de bolinhas vermelhas dançando ao vento lhe trouxe recordações...

Naquele mesmo dia sentou-se à velha máquina de costura que era única herança da avó, as mãos ainda habilidosas fez algumas máscaras de vários modelos para combinar com seu vestido vermelho preferido, agora sim se sentia preparada, sem medo para sair às ruas de seu amado bairro  onde vivia desde que nascera.
O dia fora intenso, o descanso merecido.

Deitou-se nos lençóis cheirosos que havia lavado à tarde, lembrou do baile em que dançara com o rapaz mais bonito do baile, de sorriso encantador, olhar sedutor e braços fortes que a faziam girar pelo salão com sua esvoaçante e perfumada echarpe branca de bolinhas vermelhas...Eram tão jovens e famintos de vida.
Adormeceu com essas gostosas memórias e a certeza de que viver era uma aventura gratificante e ainda queria muito dela.











Dalva Rodrigues
26/07/2020





19 de jun. de 2020

Fragmentos aleatórios 2

O muro

Separa casas, famílias, rotinas.
Descobrimento.
O barraco enorme, piso de terra batida.
Outro quintal, outro universo: cana, vaga-lumes, fogueira, fitas coloridas, crianças, brincadeiras e som:
"Batuque na cozinha, sinhá não quer, por causa do batuque eu queimei meu pé..." (canta: Martinho da Vila)
Se não pode estar lá, sobe  telhas velhas empilhadas.
Alcança o muro, amplia o olhar:
Patinhos amarelinhos são anjinhos.
Têm asas, não sabem voar.
Andam desajeitados, quá, quá, quá..
Muitas borboletas, flores, árvores e areia.
No muro abre o livro na imaginação.
Aprende histórias, apreende na memória.


Outro muro

Ao fim da avenida a rodovia leva ao mar.
Todo cuidado para atravessar, sempre morre um por lá.
Pernas tremem,  medo, sereno da manhã não deixa ver os carros na estrada.
O medo não é de atravessar, morrer.
É dia de vacina, posto de saúde, agulha não dói, criança não chora.
Perto dali há um muro alto, muito alto, toda criança ouve falar:
Hospício dos loucos, quem não é normal, vai para lá.
O que é ser normal?
Medo de ser levado para o universo paralelo das  histórias de horrores  de onde não se consegue escapar.
Será mesmo o louco perigoso? As histórias são verdadeiras?
Pernas tremem na espera pela agulha, medo de não aguentar a dor, chorar.
E se chorar, o Sanatório Charcot  vem buscar!?
Conflitos e aflitos que  a vida leva para além de muros misteriosos e seus gritos perdidos nos pavilhões.
A espera é longa, a picada é curta.
Medo se vai, não vai brincar no mar.
Passos deixam o muro para trás.

O camundongo

Embaixo da grande cama de casal, olhos atentos.
Observa sem medo o camundongo que  deixa sua casinha, levemente anda pelo assoalho velho de madeira.
Encara o observador, ignora, sobe na ratoeira como se flutuasse, cuidadosamente retira a isca, carrega para a minúscula passagem arredondada desenhada no rodapé.
Tão pequeno, frágil.
E esperto, ratoeira mal armada não desarma.
Um novo gato de rua se faz necessário, o camundongo some.
Décadas se passam, um camundongo aparece.
Pelo vidro da janela fechada o camundongo  encara:
-Ei, deixem-me entrar!
Olhos fixos nele, abre a porta, o bicho no mesmo lugar acompanha o movimento.
Olhos nos olhos, matar ou não matar?
Conflito existencial, cadeia alimentar, sanitarismo.
Uma vassourada de leve, um spray de veneno.
Foge, faminto e vivo.
Todos querem sobreviver, incluindo vírus.
Ouço leves passos no telhado.


Capa do compacto duplo (1972) de Michael Jackson

carteira vacina
Carteira de Saúde SP 1946
(do meu avô paterno)



sanatório
Sanatório Charcot (já desativado)








1 de jun. de 2020

Silêncio e barulho nas ruas

Bateu um silêncio inexplicável, meio parecido com cansaço,  bate aquela sensação de desânimo, parece que os caminhos estão quase sempre tortos, as soluções se distanciam quanto mais você caminha. 
As ruas se tornam frias, não fervem de pessoas, ficam tristes mesmo com o belo tom de cinza.

Estávamos começando a prestar atenção no Coronavírus por aqui, ainda se dizia que máscaras eram só para quem estava com algum sintoma ou fosse do grupo de risco. 
Sem máscara, mas já cuidadosa, levando meu frasquinho de álcool em gel, evitando ao máximo tocar nos objetos e mobílias em um ambiente grande e cheio de pessoas na  triagem da Defensoria Pública na Rua Boa Vista, centro de São Paulo.
Pessoas impacientes esperam a chamada de sua senha, não ficam serenas nem quando têm tempo de acalmar a mente. 
Estava inquieta, tudo que queria era voltar para casa com problema resolvido, fugir da sensação do que já pressentia ser iminente perigo. 
Nada resolvido, mas encaminhado, o estagiário orientou-me  para pegar um certificado logo ali na agência do INSS no Viaduto Santa Ifigênia, perto de onde  estava.
Saí do prédio aliviada por respirar o ar "puro" que na cidade é quase sempre poluído, pareceu-me mais seguro, melhor poluição do que vírus devastador.
Estava frio, garoa insistente, daquelas que lembram os velhos tempos da cidade, abri a sombrinha, caminhei até lá, cuidando para não tropeçar ou escorregar no chão molhado. Uma fratura...SAMU, pronto socorro...Isso me deu calafrios.
Neurose 2020.
Um olhar no chão, outro ao redor, outro ainda no céu que chorava lágrimas fininhas que limpavam a poluição sem no entanto o poder de álcool e sabão.
Chegando na agência me falaram que antes tinha que agendar por telefone para fazer a solicitação. Nem reclamei da informação do estagiário que me deu a orientação, havia sido tão atencioso. 
Logo estaria em casa, banho quente, finalmente um café amargo revigorante. Em segurança...(será?).
Voltei calmamente pelo famoso viaduto observando ao longe o que supus ser um grafite borrado (pela minha visão imperfeita) na parede de um prédio no Largo de São Bento. 
Tirei algumas fotos aproveitando o vazio da tarde sem correr risco de ter o celular roubado, fato comum na região.




Parei na metade do caminho, lembrei da cena  de Black Mirror (S05E01) onde o personagem aparecia no famoso Viaduto. 

Cena de Black Mirror

Ainda não tinha noção do quanto o tema Coronavírus estaria em nosso cotidiano e viveríamos uma realidade digna de ficção.

Segui, o borrão desenhado foi tomando formato: a imagem do cantor Raul Seixas, poderoso com suas músicas que eram um grito louco que transbordava sensatez.
A caminhada não havia sido à toa, tirei mais algumas fotos, fiquei algum tempo observando o trabalho (descobri mais tarde que era do fotógrafo Rui Mendes, é uma foto de 1987 ampliada) e voltei para o silêncio interior, rumo ao terminal de ônibus onde me misturei à multidão que já começava a voltar para a periferia que para muitos é dormitório.

Tirei essas fotos no dia 28 de Fevereiro/20.
Veio a quarentena, tudo parecia ter ficado mais silencioso ainda, em todos os lugares do mundo.
Vieram as mortes, de pessoas, não de números.
Ainda há cheiro de morte no ar, mas neste domingo, 31/05, parecia cheio de barulhos de vida acontecendo, pipas no céu, risos, fogos, movimento. 
Ilusão de que está tudo bem ou estão vivendo o dia como se fosse o último?
Depois de um tempo o silêncio parece que foi quebrado, serão as mortes banalizadas também? Mais um medo com o qual nos acostumaremos?

A Historia não para, acontece o tempo todo.
O mundo quer respirar...Saúde, liberdade e dignidade.
Algumas ruas no mundo ferveram estes dias, apesar de todo perigo.

O que escreveria e cantaria o  Maluco Beleza diante do que virou uma Pandemia? 
Será que a Terra ainda para, ou ainda teremos que nos exterminar para a vida na Terra continuar?


O Segredo da Luz - Raul Seixas

Os olhos verdes que piscam no escuro de céu
Filho da luz, fui nascido da lua e do sol!
Nas noites mais negras do ano eu mostro minha voz;
Estrelas, estrelas
As estrelas elas brilham como eu!
As nuvens vagueiam no espaço sem lar nem raiz
0 ódio não é o real é a ausência do amor
No fim é um grande oceano, mãe, mãe filho e luz…
Estrelas, estrelas
As estrelas elas brilham com nós!
As trevas da noite assustam escondendo o segredo da luz!
Da luz que gargalha do medo do escuro
Que é quando os meus olhos não podem enxergar!
Dia , noite,
Se é dia sou dono do mundo e me sinto filho do sol
Se é noite eu me entrego às estrelas em busca de um farol
Estrelas, estrelas,
As estrelas elas brilham como eu.
As trevas da noite…