19 de jun. de 2020

Fragmentos aleatórios 2

O muro

Separa casas, famílias, rotinas.
Descobrimento.
O barraco enorme, piso de terra batida.
Outro quintal, outro universo: cana, vaga-lumes, fogueira, fitas coloridas, crianças, brincadeiras e som:
"Batuque na cozinha, sinhá não quer, por causa do batuque eu queimei meu pé..." (canta: Martinho da Vila)
Se não pode estar lá, sobe  telhas velhas empilhadas.
Alcança o muro, amplia o olhar:
Patinhos amarelinhos são anjinhos.
Têm asas, não sabem voar.
Andam desajeitados, quá, quá, quá..
Muitas borboletas, flores, árvores e areia.
No muro abre o livro na imaginação.
Aprende histórias, apreende na memória.


Outro muro

Ao fim da avenida a rodovia leva ao mar.
Todo cuidado para atravessar, sempre morre um por lá.
Pernas tremem,  medo, sereno da manhã não deixa ver os carros na estrada.
O medo não é de atravessar, morrer.
É dia de vacina, posto de saúde, agulha não dói, criança não chora.
Perto dali há um muro alto, muito alto, toda criança ouve falar:
Hospício dos loucos, quem não é normal, vai para lá.
O que é ser normal?
Medo de ser levado para o universo paralelo das  histórias de horrores  de onde não se consegue escapar.
Será mesmo o louco perigoso? As histórias são verdadeiras?
Pernas tremem na espera pela agulha, medo de não aguentar a dor, chorar.
E se chorar, o Sanatório Charcot  vem buscar!?
Conflitos e aflitos que  a vida leva para além de muros misteriosos e seus gritos perdidos nos pavilhões.
A espera é longa, a picada é curta.
Medo se vai, não vai brincar no mar.
Passos deixam o muro para trás.

O camundongo

Embaixo da grande cama de casal, olhos atentos.
Observa sem medo o camundongo que  deixa sua casinha, levemente anda pelo assoalho velho de madeira.
Encara o observador, ignora, sobe na ratoeira como se flutuasse, cuidadosamente retira a isca, carrega para a minúscula passagem arredondada desenhada no rodapé.
Tão pequeno, frágil.
E esperto, ratoeira mal armada não desarma.
Um novo gato de rua se faz necessário, o camundongo some.
Décadas se passam, um camundongo aparece.
Pelo vidro da janela fechada o camundongo  encara:
-Ei, deixem-me entrar!
Olhos fixos nele, abre a porta, o bicho no mesmo lugar acompanha o movimento.
Olhos nos olhos, matar ou não matar?
Conflito existencial, cadeia alimentar, sanitarismo.
Uma vassourada de leve, um spray de veneno.
Foge, faminto e vivo.
Todos querem sobreviver, incluindo vírus.
Ouço leves passos no telhado.


Capa do compacto duplo (1972) de Michael Jackson

carteira vacina
Carteira de Saúde SP 1946
(do meu avô paterno)



sanatório
Sanatório Charcot (já desativado)








1 de jun. de 2020

Silêncio e barulho nas ruas

Bateu um silêncio inexplicável, meio parecido com cansaço,  bate aquela sensação de desânimo, parece que os caminhos estão quase sempre tortos, as soluções se distanciam quanto mais você caminha. 
As ruas se tornam frias, não fervem de pessoas, ficam tristes mesmo com o belo tom de cinza.

Estávamos começando a prestar atenção no Coronavírus por aqui, ainda se dizia que máscaras eram só para quem estava com algum sintoma ou fosse do grupo de risco. 
Sem máscara, mas já cuidadosa, levando meu frasquinho de álcool em gel, evitando ao máximo tocar nos objetos e mobílias em um ambiente grande e cheio de pessoas na  triagem da Defensoria Pública na Rua Boa Vista, centro de São Paulo.
Pessoas impacientes esperam a chamada de sua senha, não ficam serenas nem quando têm tempo de acalmar a mente. 
Estava inquieta, tudo que queria era voltar para casa com problema resolvido, fugir da sensação do que já pressentia ser iminente perigo. 
Nada resolvido, mas encaminhado, o estagiário orientou-me  para pegar um certificado logo ali na agência do INSS no Viaduto Santa Ifigênia, perto de onde  estava.
Saí do prédio aliviada por respirar o ar "puro" que na cidade é quase sempre poluído, pareceu-me mais seguro, melhor poluição do que vírus devastador.
Estava frio, garoa insistente, daquelas que lembram os velhos tempos da cidade, abri a sombrinha, caminhei até lá, cuidando para não tropeçar ou escorregar no chão molhado. Uma fratura...SAMU, pronto socorro...Isso me deu calafrios.
Neurose 2020.
Um olhar no chão, outro ao redor, outro ainda no céu que chorava lágrimas fininhas que limpavam a poluição sem no entanto o poder de álcool e sabão.
Chegando na agência me falaram que antes tinha que agendar por telefone para fazer a solicitação. Nem reclamei da informação do estagiário que me deu a orientação, havia sido tão atencioso. 
Logo estaria em casa, banho quente, finalmente um café amargo revigorante. Em segurança...(será?).
Voltei calmamente pelo famoso viaduto observando ao longe o que supus ser um grafite borrado (pela minha visão imperfeita) na parede de um prédio no Largo de São Bento. 
Tirei algumas fotos aproveitando o vazio da tarde sem correr risco de ter o celular roubado, fato comum na região.




Parei na metade do caminho, lembrei da cena  de Black Mirror (S05E01) onde o personagem aparecia no famoso Viaduto. 

Cena de Black Mirror

Ainda não tinha noção do quanto o tema Coronavírus estaria em nosso cotidiano e viveríamos uma realidade digna de ficção.

Segui, o borrão desenhado foi tomando formato: a imagem do cantor Raul Seixas, poderoso com suas músicas que eram um grito louco que transbordava sensatez.
A caminhada não havia sido à toa, tirei mais algumas fotos, fiquei algum tempo observando o trabalho (descobri mais tarde que era do fotógrafo Rui Mendes, é uma foto de 1987 ampliada) e voltei para o silêncio interior, rumo ao terminal de ônibus onde me misturei à multidão que já começava a voltar para a periferia que para muitos é dormitório.

Tirei essas fotos no dia 28 de Fevereiro/20.
Veio a quarentena, tudo parecia ter ficado mais silencioso ainda, em todos os lugares do mundo.
Vieram as mortes, de pessoas, não de números.
Ainda há cheiro de morte no ar, mas neste domingo, 31/05, parecia cheio de barulhos de vida acontecendo, pipas no céu, risos, fogos, movimento. 
Ilusão de que está tudo bem ou estão vivendo o dia como se fosse o último?
Depois de um tempo o silêncio parece que foi quebrado, serão as mortes banalizadas também? Mais um medo com o qual nos acostumaremos?

A Historia não para, acontece o tempo todo.
O mundo quer respirar...Saúde, liberdade e dignidade.
Algumas ruas no mundo ferveram estes dias, apesar de todo perigo.

O que escreveria e cantaria o  Maluco Beleza diante do que virou uma Pandemia? 
Será que a Terra ainda para, ou ainda teremos que nos exterminar para a vida na Terra continuar?


O Segredo da Luz - Raul Seixas

Os olhos verdes que piscam no escuro de céu
Filho da luz, fui nascido da lua e do sol!
Nas noites mais negras do ano eu mostro minha voz;
Estrelas, estrelas
As estrelas elas brilham como eu!
As nuvens vagueiam no espaço sem lar nem raiz
0 ódio não é o real é a ausência do amor
No fim é um grande oceano, mãe, mãe filho e luz…
Estrelas, estrelas
As estrelas elas brilham com nós!
As trevas da noite assustam escondendo o segredo da luz!
Da luz que gargalha do medo do escuro
Que é quando os meus olhos não podem enxergar!
Dia , noite,
Se é dia sou dono do mundo e me sinto filho do sol
Se é noite eu me entrego às estrelas em busca de um farol
Estrelas, estrelas,
As estrelas elas brilham como eu.
As trevas da noite…