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22 de nov. de 2020

MacArthur Park

No começo do ano postei um vídeo (nem vou linkar porque o vídeo foi retirado do ar) com a música MacArthur Park  na voz do cantor e ator  ( Camelot, Harry Potter, Gladiador, Um homem chamado cavalo... ) Richard Harris - Composição de Jimmy Webb.
Fiquei triste, mas muito triste mesmo, era lindo demais, em preto e branco (1968) o próprio Richard Harris atuava... 
Ainda bem que o assisti muitas vezes, o  que ajudou a guardar um pouco das cenas na mente, não sei por quanto tempo ainda.
Corre a lenda que é uma das músicas mais bregas pelo "oooh, nooo...", pela letra sem sentido da qual fazem piada, mas para mim acho maravilhosa, cheia de magia, metáforas instigantes e melodiosamente perfeita.
Não me canso de ouvir, coloco os fones de ouvido e me sinto capturada por sua sedução, morreria feliz em completa paz se a estivesse ouvindo. 
Certamente está no meu top 5 de músicas para ouvir morrendo. 😊
Há musicas que são especiais em nossas vidas, concordam?
Fiz o poema abaixo,  interpretação inspirada um pouco na letra e nas memórias do vídeo excluído. 

Link da letra

Como sugestão, antes do poema, um vídeo (1968 som original)


MacArthur Park

A primavera não esperaria por eles.
Entre árvores no parque ela corria,
Bela,  fresca como as flores que colhia,
Observada  por encantados olhos verdes.

Presos em páginas separadas,
Um mesmo livro prensado,
Eternamente transformado
Em histórias desencontradas.

A cada primavera a neve derretia,
Mais distante dele  a garota vivia.
Desabrochava, amadurecia.
Do parque aos poucos desaparecia.

Na linha do tempo se perderam.
Nunca se encontraram.
Memórias dela o perseguiam:

O vestido amarelo girando,
Fluindo como ondas em seus joelhos.
Espuma doce que nunca desfrutou.
O bolo desejado, imaculado,
Vagarosamente assado,
Receita perdida do pecado.

E ao final de  todos amores descortinados,
Dos túmulos vasculhados,
Na dança do tempo fluindo,
Seus pensamentos ainda são dela:
A garota no parque surgindo
Entre árvores, sorrindo. 

Dalva Rodrigues
21/11/2020

saia branca


saia branca - trombeta


Se chegou até aqui, obrigada pela leitura!















18 de abr. de 2020

As boias


A boia catada.
A boia doada.
Quando geme a barriga
Qualquer resto é o prato do dia.

A boia aquecida
Na lata descartada.
O sebo viscoso
Alimento precioso.

A mesa está posta
Na calçada exposta.
Pequena porção
Que se come calado
sentado no chão.

Hoje tem pão e macarrão.
Amanhã conta com compaixão.
Ninguém abre seu portão
Oferece um trabalho
Ou ajuda para sair da escuridão.

A noite é fria.
Hoje a boia não veio.
O bucho ronca.
A cachaça esquenta.
Não vê a lua no céu
Nem uma estrela a guiar.
Dorme.
Sonha com o mar:

A boia.
Miragem no alto mar
Esperança do náufrago desvalido
Braços  esquálidos a remar
Pele ardente, corpo ferido
É preciso remar
A boia alcançar
Rema, rema...

Desperta na cama de papelão.
Não vê o mar.
Um sonho, uma ilusão.
Não vê gente.
Não há resgate.
Nenhuma boia.
Hoje, nada o acode.


*boia é termo popularmente conhecido em algumas regiões do Brasil como marmita, comida simples, etc.

Dalva Rodrigues
17/04/20

Com menor circulação de pessoas não esqueçamos que a oferta de alimentos às pessoas em situação de rua é menor, alguns têm medo de chegar perto.
E as noites já estão mais frias. 
Quando possível, ofereça uma boia.



Radiohead - No Surprises



SEM SURPRESAS - Tradução da letra da música acima

Um coração que está cheio como um aterro
Um emprego que lentamente te mata
Feridas que não irão cicatrizar
Você aparenta estar tão cansado e infeliz
Derrube o governo
Eles não, eles não falam por nós
Eu vou levar uma vida tranquila
Um aperto de mão de monóxido de carbono
Sem sustos e sem surpresas
Sem sustos e sem surpresas
Sem sustos e sem surpresas
Silêncio, silêncio
Este é meu ajuste final, minha dor de barriga final
Sem sustos e sem surpresas
Sem sustos e sem surpresas
Sem sustos e sem surpresas, por favor
Uma casa tão bonita e um jardim tão bonito
Sem sustos e sem surpresas, (tire-me daqui)
Sem sustos e sem surpresas, (tire-me daqui)



22 de set. de 2019

Meninas, igarapés, choros e gritos.


Esta arte de rua em estêncil, criada por uma mulher, fica no centro de São Paulo, próxima a Câmara dos Vereadores na Rua Santo Antonio. Difícil não se sensibilizar ao passar por ela e ler a frase, seus supostos significados.


A frase do mural, na foto tirada de dentro do ônibus está encoberta pelas árvores que parecem um refúgio rodeado de concreto,uma pequena mata para a garotinha indígena representada na arte que grita aos nossos governantes toda destruição e tristeza que causamos. 
Ela quer proteção para as matas, bichos e povos que cuidam das riquezas naturais.

Havia tantos igarapés. Havia tantas matas.

A destruição pode ser lenta, mas de alguma forma um dia ela afetará até os que a incentivam ou seus descendentes. Se é que os donos de todo tipo de poder se importam com isso ou com os aprendizados do passado. 

Rios de lama e lágrimas se espalham nos cursos dos rios e nos olhos dos alvos de ganancia e insensibilidade.



Ághata, violência, balas
Menina Ághata


A menina da comunidade morre assim, friamente, sem despedidas, sem aviso.Fim.
Só o choro, sofrimento infinito de quem a amava e ficou.

Só existe medo onde a violência combatida com violência impera. 
Medo é o caminho diário de quem precisa ganhar o pão, sobreviver, fingir-se invisível às balas que cortam os ares, rompem paredes, penetram corpos, exterminam meninas, meninos, famílias, sonhos...
Na verdade o sonho que se tem é sobreviver , dormir e acordar sem ser alvo de balas que destroem seu lares, sem pedir licença, sem compaixão. 

Meninas não deveriam ser mortas, deveriam estudar, crescer, tornarem-se mulheres,lutar por um viver melhor,em paz. Por um mundo que não nos dão.

Meninas precisam sobreviver.
Mulheres de luta não podem ser assassinadas.
Mulheres de luta devem ser lembradas em todos cantos do mundo.

jardim



A culpa é de quem?

De onde vem as balas?
De onde vem o dolo?
De onde vem toda destruição?

Do cidadão?
Do policial bem armado?
Do malandro acuado?
Do traficante poderoso?
Do vereador relapso?
Do prefeito sem noção?
Do governador que decola de fuzil na mão
mirando a favela e o  poder da nação?
Do congresso descompromissado?
Dos juízes sem ética e parciais?
Do presidente que dá cartas brancas, 
 incentiva todos os vilões?
Da  nossa omissão?
Do voto
daqueles que não se importam
com a dor que é apenas do lado de lá
de onde ainda
podem se abrigar?!

Não se iludam
 balas e destruição
 podem estar em todo lugar.
Um  dia  podem lhe acertar.
Será sua vez de chorar
ou sua família
pelo que não se pode resgatar.


Dalva Rodrigues
22/09/2019

Paz sem voz
Não é paz, é medo!

O Happa


“Sabe qual era a arma que tinha dentro da mochila da minha neta? Lápis, caderno, apontador, livro. Tinha um simulado que ela fez nessa semana e tirou 7! Essas eram as armas que a Ágatha gostava de usar.” (Airton Félix, avô da menina morta por tiro de fuzil no Rio)

A frase acima foi colaboração da amiga, Chica.







7 de abr. de 2019

EXIT SONG



EXIT
SONG

Exato espaço sufoca a mente

Xis da questão, exposto, nu, íntimo, ardente

Itinerante busca entre êxtase e dor

Tsunami de pensamentos contidos em pudor

Soltos na superfície rasa da incompreensão

Onde morriam naufragados sem voz, sem canção.

No one

Game over

NO SONG


Amo a banda Radiohead, a cabeça divina de Thom Yorke. Essa é uma de minhas músicas preferidas, está no álbum OK Computer, fabuloso.
Existencial.



Essa música já esteve em algumas séries, entre elas  a sensacional Black Mirror (3ª temporada/episódio 3) da Netflix.

Ouso dizer que é uma série necessária diante da tecnologia que nos servem diariamente com simples cliques, que possuem alcance muito maior do que podemos ingenuamente pensar. O futuro já começou.

Cada episódio é um mini filme diferente, mas é impossível assistir um só, tem muito para mastigar, engolir, digerir. 

Exit Song também está no final do 7º episódio da série (Netflix)  Umbrella Academy,  também muito bom, mas indicado para quem curte heróis (no caso desconstruídos) e aventuras. 

Obrigada pela leitura!

Amigas/amigos, me perdoem se não conseguir visitar seus blogues ou responder comentários, meu velho note está quase em ritmo de Exit Song.


Editado: tradução da letra abaixo.


Acorde de teu sono
Do secar de tuas lágrimas
Hoje fugiremos, fugiremos

Arrume tuas coisas e se vista
Antes que teu pai nos ouça
Antes que tudo vá pelos ares

Respire, continue respirando
Não perca o controle
Respire, continue respirando
Eu não consigo fazer isso sozinho

Cante-nos uma canção
Uma canção para nos aquecer
Há tanto frio, tanto frio

E você pode rir
Uma risada assustada
Tomara que suas regras e
Sua sabedoria te sufoquem

Agora nós somos um só
Na paz eterna
Tomara que você sufoque
Que você sufoque

Tomara que você sufoque
Que você sufoque
Tomara que você sufoque
Que você sufoque






3 de mar. de 2019

Carinho, poemas e flores


Como não ficar feliz com demonstração de afeto? 

Essa semana as meninas do blog  Ipsis Litteris, a Nice e a Ale, postaram um poema meu, não bastasse essa honra ainda me fizeram e ao blog, elogios que fiquei até envergonhada, mas muito mais lisonjeada, até porque elas entendem muito de assunto literário, tem como não ficar toda toda!? Olhem a presunção da pessoa! rs

Deixo o link abaixo para vocês conhecerem o blog delas, quem  ama literatura vai amar, quem não ama também!!

E aproveitem para ler meu poema, é de 2012, ficou tão lindinho formatado por elas!!



Para Nice e Ale, com carinho: 

Quem espalha poesia aos ventos
É porque enxerga as flores
Colhe seus perfumes 
Alivia muitas dores
Enfeita amores.


Pequenas flores

Olhos distraídos não me verão
Sou tão singela e pequenina
Cresço entre ervas daninhas pelo chão
No terreno baldio da esquina.

Sou flor, somos flores
Entrelaçadas ou espalhadas
Quase nunca queridas
Mesmo que donas de belas cores.

Chuva generosa rega a terra
Para renascer a primavera
Quietinha, sopro sementes na alcova
Para que a vida nunca morra.


São muito miudinhas mesmo.

















22 de fev. de 2019

Marina-Chiquinha

Marina 
Doce menina.
Alegre e sapeca
Cheia de opinião.
Vê-se logo o quanto é talentosa
Corajosa e formosa.
Olhinhos curiosos
Tudo quer aprender.
Passeios e aventuras?
Claro, não podem faltar!
Afinal
Aprender é vivenciar.

Marina adora o mar
Já pelo nome se pode notar.
Pás, baldes e areia
Mais uma brincadeira!
Risca  gaivotas na areia
Num instante rumo ao mar elas se vão
Quanta imaginação!
Olhinhos brilhantes as seguem
Pelo céu azul, entre nuvens de algodão.
-Esperem, também quero entrar no mar!
Antes procura proteção:
-Vovô Kiko, segure minha mão!
Ondas branquinhas ela pula
Nem percebe as horas passar.
Tem tanta energia
Parece nunca se cansar.

-Olhe o picolé, olhe o picolé...
Quem quer?
Hora de se lambuzar:
-Vovô, vamos comprar!?
-Claro que sim.
-Moço, um de abacaxi, por favor!
Ufa, que calor
Sorvete é muito bom!
Depois de muita diversão
O dia chega ao fim.
Logo o sol vai se esconder
A pequena adormecer.

Outro dia amanhece.
Vovó faz maria-chiquinhas
Nos cachinhos douradinhos.
Marina já fica animadinha:
-Vovó Chica, me leva na pracinha?
-Quero brincar com minhas amiguinhas!
-Boa ideia, vamos que vamos
Temos a manhã inteira
Concorda a vovó joaninha
Eterna companheira.

Filtro solar e muita animação
Lá se vão.
Atentas à natureza
Observam toda beleza:
Nuvens , pássaros, borboletas e árvores
São tantas flores!
A menininha mais bela
Corre entre elas e aponta:
-Vovó, veja uma libélula!
Marina é a própria primavera.
Pinguinho de gente
Tão falante e determinada
Tem o mundo pela frente
Um arco-íris a lhe guiar.
Tem  cores e pincéis
Com sua arte vai reinar.
Pelos caminhos que atravessar
Marina vai brilhar!


Qual a legenda?

Ano passado passei de ônibus por uma avenida e vi esse grafite, logo lembrei da netinha da querida Chica, a Marina! Não lembra a bonequinha?!



Pensei, vou fazer um poeminha inspirado na pequena.
Na vez seguinte que passei por lá para encontrar minha mãe, desci do ônibus e fotografei, infelizmente já estava pichado, mas a essência não foi apagada, a arte de se expressar persiste.
grafite criança
outra lindeza

Para Chica:
Amiga querida, demorou mas saiu, singelo, mas com muito carinho. 
Que sorte da Narina ter avós assim tão presentes e afetuosos!!
Obrigada por todo carinho de sua amizade!!
Ah, pode mudar o sabor do picolé! :D

































20 de jan. de 2019

Etiqueta para comer melancia

Calor  de verão derrete o corpo.
Busco a brisa da memória
Traz-me o sabor de melancia gelada 
Que comia em tenra idade

Saboreada em larga fatia
Sem boas maneiras 
Talvez rebeldia
Quase animal.
Sentada sobre o muro, sob o sol
O corpo a torrar.

Nas mordidas sedentas
A fresca e suculenta polpa  se desfaz.
Suco vermelho, gelado, escorre pelos lábios
Desce sem pudor pelo pescoço
Tinge a camisa branca alvejada...
Bronca vai levar!
Não importa 
O que vale é a sede saciar
O calor abrandar.

E as formiguinhas lá no chão 
Festejam a doce chuva vermelha de verão
Que cai do céu
Vinda das mãos 
de um suposto porcalhão.

saborear melancia

Que as melancias sejam doces por inteiro
Como são ao centro.



28 de out. de 2018

Rede e redes

A rede era alegre, azul como o céu de verão, convidava para balançar nas tardes preguiçosas da vida.

A rede era para um, mas dois se enamoravam em perfeita harmonia.


A rede balançava ao som da música que tocava na sala enquanto ela cantava.


A rede ouvia as histórias dos livros que à criança ela contava.


A rede a escondia nas brincadeiras com o cachorrinho que latia, fazia folia.


A  rede girava com tantas caipirinhas saboreadas.


A rede adormecia.


E a acordava com o cheiro da comida 

que vinha da casa da vizinha.

A rede era tão cheia de vida.


E mesmo assim foi esquecida.


As redes agora são sociais e públicas.

São nuas, cruas e ferozes.
Despertam ranço nas relações.
Competição, vaidade, mentiras e desfiguração.
Ódio, inveja e ostentação.
Busca frenética por atenção.
Pouca diversão.

As redes, ditas sociais, não me atraem mais.

Quero a paz da rede de algodão
Do contato do tecido com a pele
Que acolhe afetos
Não números de ilusão.

Quero o ventinho suave do vai e vem
Na velha rede descansar.
Ouvir o tique taque do velho relógio
Até a morte me levar.