27 de dez. de 2020

Minha excelência

Procuro excelência em mim, ao meu redor:

No meu lar. Nas paredes lisas, bem pintadas, sem marcas, sem rachaduras, sem mofo, bem decoradas, combinadas.
Nas roupas de corte impecável, bem passadas, sedutoras, etiquetas famosas e descoladas.

Nos amigos, nas festas, no pet enfeitado, no hobby, no político, nas redes sociais, na foto perfeitamente enquadrada, no vídeo bem editado, no celular de ponta conquistado.

Na viagem, na galeria de arte, no museu, na biblioteca, na fina sinfonia, correta ortografia. 

Na família perfeita, solidária e animada.

No sucesso profissional ou fracasso existencial.

No corpo idealizado, nos músculos definidos, peso controlado, cabelos tratados, sedosos, bem penteados, dentes branqueados, unhas impecáveis, alimentação saudável.

No fino vinho, refinada gastronomia.

Nas bocas que beijo, nos corpos com que me deito, no amor que idealizo.

No espelho sem reflexo, na idade ignorada, no filtro que ilude, na maquiagem decorativa, nos poros sufocados.

Procuro virtude em deuses, meditação, religião.

Sou escravo do meu ego, de minha necessidade de superioridade.

Ando por aí caçando perfeição. Nas construções verticais e horizontais, nos automóveis, nos pedestres, no tráfego agonizante na tarde iluminada.

Procuro validação de todas minhas escolhas, certas ou erradas.

Procuro o perfeito breve, logo colocado de lado, substituído.

Depois choro, quando sou descartado, trocado.

Ignoro a imperfeição explícita.

Cimento, palavras mal traçadas, gritadas nos grafites das paredes abandonadas, fumaça, queimadas, lama, desabamentos, emergências, sirenes, incêndios, fome, tiros, homens maus.

Ignoro a doença, a morte que não me dói, minha efemeridade.

Perfeição sem humanidade, hipócrita, evolui devastando, exterminando.

Quanto mais procuro a perfeição, mais me distancio do animal que sou.

O natureza ignora nossa sapiência, age para sobreviver, sem raciocinar, apenas se adéqua, no tempo dela e no tempo imposto pela sábia humanidade.

Há outras vidas dentro e fora de mim. E estas nem se dão conta de minha existência, de minha excelência.

Dalva Rodrigues
27/12/2020

Where Do The Children Play?





22 de nov. de 2020

MacArthur Park

No começo do ano postei um vídeo (nem vou linkar porque o vídeo foi retirado do ar) com a música MacArthur Park  na voz do cantor e ator  ( Camelot, Harry Potter, Gladiador, Um homem chamado cavalo... ) Richard Harris - Composição de Jimmy Webb.
Fiquei triste, mas muito triste mesmo, era lindo demais, em preto e branco (1968) o próprio Richard Harris atuava... 
Ainda bem que o assisti muitas vezes, o  que ajudou a guardar um pouco das cenas na mente, não sei por quanto tempo ainda.
Corre a lenda que é uma das músicas mais bregas pelo "oooh, nooo...", pela letra sem sentido da qual fazem piada, mas para mim acho maravilhosa, cheia de magia, metáforas instigantes e melodiosamente perfeita.
Não me canso de ouvir, coloco os fones de ouvido e me sinto capturada por sua sedução, morreria feliz em completa paz se a estivesse ouvindo. 
Certamente está no meu top 5 de músicas para ouvir morrendo. 😊
Há musicas que são especiais em nossas vidas, concordam?
Fiz o poema abaixo,  interpretação inspirada um pouco na letra e nas memórias do vídeo excluído. 

Link da letra

Como sugestão, antes do poema, um vídeo (1968 som original)


MacArthur Park

A primavera não esperaria por eles.
Entre árvores no parque ela corria,
Bela,  fresca como as flores que colhia,
Observada  por encantados olhos verdes.

Presos em páginas separadas,
Um mesmo livro prensado,
Eternamente transformado
Em histórias desencontradas.

A cada primavera a neve derretia,
Mais distante dele  a garota vivia.
Desabrochava, amadurecia.
Do parque aos poucos desaparecia.

Na linha do tempo se perderam.
Nunca se encontraram.
Memórias dela o perseguiam:

O vestido amarelo girando,
Fluindo como ondas em seus joelhos.
Espuma doce que nunca desfrutou.
O bolo desejado, imaculado,
Vagarosamente assado,
Receita perdida do pecado.

E ao final de  todos amores descortinados,
Dos túmulos vasculhados,
Na dança do tempo fluindo,
Seus pensamentos ainda são dela:
A garota no parque surgindo
Entre árvores, sorrindo. 

Dalva Rodrigues
21/11/2020

saia branca


saia branca - trombeta


Se chegou até aqui, obrigada pela leitura!















1 de set. de 2020

Fragmentos Aleatórios 3



Os braços
Os braços são fortes. Músculos de vida, dos bornais que carregara levando as boias tão esperadas na roça, da enxada cravada no solo duro ao longo dos cafezais, das pesadas barras de aço e ferro guiadas aos fornos na fundição envolta em chumbo e calor que gera progresso na cidade grande. "-Lá vem chumbo quente!" Quem viveu na pele sabe o que significa.
Pequeno descanso entre jornadas, gastos com gostos e desgostos, gastos com afeto.
Joga a criança para o alto, a recebe em segurança em seus braços. Entre o medo e a confiança, o pouso dominado pelas gargalhadas da brincadeira.
Juntos quebram ondas no mar, mãos fortes só a solta em segurança na areia, olhos atentos de um cuidadoso rei que não submete seu povo, cuida.

As mãos
Tão potentes, ao longo do caminho perdem o vigor, já não segurariam sequer areia entre dedos esquálidos.
Ainda batem palmas por bolinhos de chuva acompanhados de um ligeiro brilho nos olhos e um sorriso escapulido entre dor, resignação e esperança.
São lavadas com afeto, água morna e sabão, secas suavemente com a nova toalha felpuda e cheirosa. Abraço, lágrimas, despedida.
Um beijo em suas mãos: -Sua benção pai, volto logo.

O mármore
Acabou. O chumbo foi literalmente quente, seu Estado ineficiente. Aquele rei não teve um "rei" merecido. A pedra fria é para todos, cedo ou tarde, inevitável.
Suas mãos sem pressa agora se esfriam, seu corpo descansa sem vida. Vazio de ti e de mim.
Resta saudade, memórias de sons, gestos, momentos, exemplos. Saudade que agora não mais se saciará com abraço, prosas e cantorias.
Um corpo se vai, um tanto d'alma fica outro se vai, em todos os dias, até o fim.

                                                            -*-*-*-


Raphael e Maria Luisa

Ontem, 31 de Agosto de 2020 fez 10 anos que meu pai se foi, na foto acima meu sobrinho que nasceu exatamente 9 meses após sua morte, junto de sua irmãzinha de 1 aninho. 

Meu pai e  seu neto.



"Naquela mesa tá faltando ele e a saudade dele tá doendo em mim"


26 de jul. de 2020

A alegre senhora de vermelho - Conto



Era feliz, talvez porque nunca dera ouvidos aos ditadores de etiqueta e comportamentos. Correto para ela era ter caráter, não prejudicar ninguém, pagar suas contas, respeitar o próximo e a si mesma, ser dona de seus desejos e realizações que não diziam respeito a curiosos da vida alheia.

Aos sete, quinze, trinta...sessenta, setenta, oitenta, noventa...O que são os anos e representam na vida de uma mulher? Quantas mulheres viveram dentro de uma vida inteira?
Uma soma de todas, no mínimo.

Sempre foi jovial, gostava de falar, fazer amizades, não perdia oportunidade de conhecer pessoas, puxava conversa com estranhos, ia aos bailes dançar, namorava muito, bebia suficiente para se alegrar, usava as roupas que ela mesma fazia inspirada nos figurinos das atrizes dos filmes que assistia nos velhos cinemas de rua. 
Apaixonava-se, pelos homens e pela vida.

Um sorriso se abria em seu rosto ao ver-se no espelho em seu vestido preferido: vermelho, rodado, com mangas bufantes presas em delicadas pregas, chapéu vintage na mesma cor enfeitado com laço e uma pequena flor de plástico que tirava dos arranjos comprados para colocar nos vasos, enfeitar a casa. Lugar de flores vivas era no pequeno jardim que cuidava com dedicação.
Não menos importante eram os sapatos modelo boneca com saltos baixos e confortáveis, sentia-se elegante e jovial desde sempre, mesmo agora quando os cabelos se tingiram totalmente em prateado lunar.

Tinha estilo próprio, de gente feliz consigo, percebia que as pessoas olhavam para ela, uns achando graça, outros  a chamavam de brega, alguns poucos percebiam e admiravam sua ousadia em se permitir ser o que ELA queria ser. A vida inteira foi assim.

Plena e leve a definia. Uma velha menina, jamais saia sem passar batom rosado nos lábios agora plissados pelo tempo e água de colônia atrás das orelhas. Nunca se sabe quando o amor pode passar ao lado e sentir seu perfume, embora soubesse que boa parte dos homens de sua idade ignoravam suas próprias marcas de velhice e queriam apenas  as memórias dos corpos jovens, delas e deles.
E não os julgava por isso, também sonhava mesmo era com os corpos cheios de vigor, mas como ninguém vive exclusivamente de fantasia aproveitou bastante os idosos que com ela se deitaram sem se importar com as marcas físicas do tempo.

Quando andava pelo comércio do bairro periférico se recusava a pegar a fila para idosos, não por não se enxergar idosa ou não ser sabedora de seus "direitos", era por ter a consciência de que a outra fila tinha mais atendentes apesar da fila maior. Algumas aplicações de leis são para iludir, sabiamente dizia. 
Seu raciocínio não era fraco, aprendera com a vida as contas práticas de matemática mais do que nas carteiras escolares (que pouco frequentou), para não ser trapaceada pelos sem caráter que vez ou outra apareceram em seu caminho. Era simples, não boba.

A vida diz que o viver passa rápido, sabia disso, aproveitava cada momento com intensidade. 
Não casou, dedicou-se aos sobrinhos, depois aos sobrinhos netos, principalmente na primeira infância onde as crianças são livres de preconceitos e toda experiência e afeto são bem-vindos.
Quando se tornavam adolescentes seguiam novas buscas, a tia/avó espalhafatosa da Rua da Vila não acompanhava o novo tempo que viviam.
E ela compreendia, prezava pelo direito de escolhas de cada ser, transformava seu amor também, em outra fórmula do mesmo amor.

Comprou um pequeno terreno nos tempos que havia muitas industrias e trabalho, finalmente saiu do aluguel quando se aposentou. Construiu a pequena casa, simples, colorida com objetos especiais da vida enfeitando e trazendo memórias de vida e pessoas.

Agora já não tinha disposição de ir aos bailes de terceira idade que tanto frequentou até pouco tempo. Fazia passeios curtos com o grupo da comunidade, seu tempo era dedicado mais aos dois cachorros e um gato que eram seus companheiros e fonte de afeto. 
Todos os dias dedicava um tempo a costurar retalhos doados que se transformavam em quentinhas colchas de retalhos para doação aos carentes de um calorzinho e atenção quando eram entregues. Era grata à vida, poderia ser ela naquela situação, quem sabe dos caminhos que a vida pode nos levar?

Em uma manhã vestiu o vestido vermelho preferido, colocou o chapéu, passou batom, olhou-se no espelho feliz e saiu de casa para pagar as contas,  conversar com os conhecidos mais antigos do bairro. Gostava da energia de vida que sentia nos jovens, das novas visões do mundo, mas estes nos últimos tempos viviam mais nas extensões do mundo virtual , do qual ela só dominava o básico.

Na loja de aviamentos comprou tecido branco de bolinhas vermelhas, começava a se falar em uma doença trazida por um novo vírus, as pessoas deveriam usar máscaras para sair de casa. Como já passava dos  oitenta apesar de estar com a saúde razoável, melhor seria não arriscar. 

Ainda estava quente quando voltou para casa naquela  tarde de começo de outono, lavou os lençóis floridos e o tecido para as máscaras.
Sentou-se no banco do jardim, os cães e o gato sempre ao lado observando, brincando ou tirando uma soneca aos pés da senhora.
Descansou observando o zum zum zum das abelhas nas flores, os lençóis balançando no varal, o tecido branco de bolinhas vermelhas dançando ao vento lhe trouxe recordações...

Naquele mesmo dia sentou-se à velha máquina de costura que era única herança da avó, as mãos ainda habilidosas fez algumas máscaras de vários modelos para combinar com seu vestido vermelho preferido, agora sim se sentia preparada, sem medo para sair às ruas de seu amado bairro  onde vivia desde que nascera.
O dia fora intenso, o descanso merecido.

Deitou-se nos lençóis cheirosos que havia lavado à tarde, lembrou do baile em que dançara com o rapaz mais bonito do baile, de sorriso encantador, olhar sedutor e braços fortes que a faziam girar pelo salão com sua esvoaçante e perfumada echarpe branca de bolinhas vermelhas...Eram tão jovens e famintos de vida.
Adormeceu com essas gostosas memórias e a certeza de que viver era uma aventura gratificante e ainda queria muito dela.











Dalva Rodrigues
26/07/2020





19 de jun. de 2020

Fragmentos aleatórios 2

O muro

Separa casas, famílias, rotinas.
Descobrimento.
O barraco enorme, piso de terra batida.
Outro quintal, outro universo: cana, vaga-lumes, fogueira, fitas coloridas, crianças, brincadeiras e som:
"Batuque na cozinha, sinhá não quer, por causa do batuque eu queimei meu pé..." (canta: Martinho da Vila)
Se não pode estar lá, sobe  telhas velhas empilhadas.
Alcança o muro, amplia o olhar:
Patinhos amarelinhos são anjinhos.
Têm asas, não sabem voar.
Andam desajeitados, quá, quá, quá..
Muitas borboletas, flores, árvores e areia.
No muro abre o livro na imaginação.
Aprende histórias, apreende na memória.


Outro muro

Ao fim da avenida a rodovia leva ao mar.
Todo cuidado para atravessar, sempre morre um por lá.
Pernas tremem,  medo, sereno da manhã não deixa ver os carros na estrada.
O medo não é de atravessar, morrer.
É dia de vacina, posto de saúde, agulha não dói, criança não chora.
Perto dali há um muro alto, muito alto, toda criança ouve falar:
Hospício dos loucos, quem não é normal, vai para lá.
O que é ser normal?
Medo de ser levado para o universo paralelo das  histórias de horrores  de onde não se consegue escapar.
Será mesmo o louco perigoso? As histórias são verdadeiras?
Pernas tremem na espera pela agulha, medo de não aguentar a dor, chorar.
E se chorar, o Sanatório Charcot  vem buscar!?
Conflitos e aflitos que  a vida leva para além de muros misteriosos e seus gritos perdidos nos pavilhões.
A espera é longa, a picada é curta.
Medo se vai, não vai brincar no mar.
Passos deixam o muro para trás.

O camundongo

Embaixo da grande cama de casal, olhos atentos.
Observa sem medo o camundongo que  deixa sua casinha, levemente anda pelo assoalho velho de madeira.
Encara o observador, ignora, sobe na ratoeira como se flutuasse, cuidadosamente retira a isca, carrega para a minúscula passagem arredondada desenhada no rodapé.
Tão pequeno, frágil.
E esperto, ratoeira mal armada não desarma.
Um novo gato de rua se faz necessário, o camundongo some.
Décadas se passam, um camundongo aparece.
Pelo vidro da janela fechada o camundongo  encara:
-Ei, deixem-me entrar!
Olhos fixos nele, abre a porta, o bicho no mesmo lugar acompanha o movimento.
Olhos nos olhos, matar ou não matar?
Conflito existencial, cadeia alimentar, sanitarismo.
Uma vassourada de leve, um spray de veneno.
Foge, faminto e vivo.
Todos querem sobreviver, incluindo vírus.
Ouço leves passos no telhado.


Capa do compacto duplo (1972) de Michael Jackson

carteira vacina
Carteira de Saúde SP 1946
(do meu avô paterno)



sanatório
Sanatório Charcot (já desativado)








1 de jun. de 2020

Silêncio e barulho nas ruas

Bateu um silêncio inexplicável, meio parecido com cansaço,  bate aquela sensação de desânimo, parece que os caminhos estão quase sempre tortos, as soluções se distanciam quanto mais você caminha. 
As ruas se tornam frias, não fervem de pessoas, ficam tristes mesmo com o belo tom de cinza.

Estávamos começando a prestar atenção no Coronavírus por aqui, ainda se dizia que máscaras eram só para quem estava com algum sintoma ou fosse do grupo de risco. 
Sem máscara, mas já cuidadosa, levando meu frasquinho de álcool em gel, evitando ao máximo tocar nos objetos e mobílias em um ambiente grande e cheio de pessoas na  triagem da Defensoria Pública na Rua Boa Vista, centro de São Paulo.
Pessoas impacientes esperam a chamada de sua senha, não ficam serenas nem quando têm tempo de acalmar a mente. 
Estava inquieta, tudo que queria era voltar para casa com problema resolvido, fugir da sensação do que já pressentia ser iminente perigo. 
Nada resolvido, mas encaminhado, o estagiário orientou-me  para pegar um certificado logo ali na agência do INSS no Viaduto Santa Ifigênia, perto de onde  estava.
Saí do prédio aliviada por respirar o ar "puro" que na cidade é quase sempre poluído, pareceu-me mais seguro, melhor poluição do que vírus devastador.
Estava frio, garoa insistente, daquelas que lembram os velhos tempos da cidade, abri a sombrinha, caminhei até lá, cuidando para não tropeçar ou escorregar no chão molhado. Uma fratura...SAMU, pronto socorro...Isso me deu calafrios.
Neurose 2020.
Um olhar no chão, outro ao redor, outro ainda no céu que chorava lágrimas fininhas que limpavam a poluição sem no entanto o poder de álcool e sabão.
Chegando na agência me falaram que antes tinha que agendar por telefone para fazer a solicitação. Nem reclamei da informação do estagiário que me deu a orientação, havia sido tão atencioso. 
Logo estaria em casa, banho quente, finalmente um café amargo revigorante. Em segurança...(será?).
Voltei calmamente pelo famoso viaduto observando ao longe o que supus ser um grafite borrado (pela minha visão imperfeita) na parede de um prédio no Largo de São Bento. 
Tirei algumas fotos aproveitando o vazio da tarde sem correr risco de ter o celular roubado, fato comum na região.




Parei na metade do caminho, lembrei da cena  de Black Mirror (S05E01) onde o personagem aparecia no famoso Viaduto. 

Cena de Black Mirror

Ainda não tinha noção do quanto o tema Coronavírus estaria em nosso cotidiano e viveríamos uma realidade digna de ficção.

Segui, o borrão desenhado foi tomando formato: a imagem do cantor Raul Seixas, poderoso com suas músicas que eram um grito louco que transbordava sensatez.
A caminhada não havia sido à toa, tirei mais algumas fotos, fiquei algum tempo observando o trabalho (descobri mais tarde que era do fotógrafo Rui Mendes, é uma foto de 1987 ampliada) e voltei para o silêncio interior, rumo ao terminal de ônibus onde me misturei à multidão que já começava a voltar para a periferia que para muitos é dormitório.

Tirei essas fotos no dia 28 de Fevereiro/20.
Veio a quarentena, tudo parecia ter ficado mais silencioso ainda, em todos os lugares do mundo.
Vieram as mortes, de pessoas, não de números.
Ainda há cheiro de morte no ar, mas neste domingo, 31/05, parecia cheio de barulhos de vida acontecendo, pipas no céu, risos, fogos, movimento. 
Ilusão de que está tudo bem ou estão vivendo o dia como se fosse o último?
Depois de um tempo o silêncio parece que foi quebrado, serão as mortes banalizadas também? Mais um medo com o qual nos acostumaremos?

A Historia não para, acontece o tempo todo.
O mundo quer respirar...Saúde, liberdade e dignidade.
Algumas ruas no mundo ferveram estes dias, apesar de todo perigo.

O que escreveria e cantaria o  Maluco Beleza diante do que virou uma Pandemia? 
Será que a Terra ainda para, ou ainda teremos que nos exterminar para a vida na Terra continuar?


O Segredo da Luz - Raul Seixas

Os olhos verdes que piscam no escuro de céu
Filho da luz, fui nascido da lua e do sol!
Nas noites mais negras do ano eu mostro minha voz;
Estrelas, estrelas
As estrelas elas brilham como eu!
As nuvens vagueiam no espaço sem lar nem raiz
0 ódio não é o real é a ausência do amor
No fim é um grande oceano, mãe, mãe filho e luz…
Estrelas, estrelas
As estrelas elas brilham com nós!
As trevas da noite assustam escondendo o segredo da luz!
Da luz que gargalha do medo do escuro
Que é quando os meus olhos não podem enxergar!
Dia , noite,
Se é dia sou dono do mundo e me sinto filho do sol
Se é noite eu me entrego às estrelas em busca de um farol
Estrelas, estrelas,
As estrelas elas brilham como eu.
As trevas da noite…

9 de mai. de 2020

Fragmentos aleatórios 1


A igreja.
O som do hino tocado ao piano se espalha no salão.
Hinários fechados, momento de oração.
Todos se ajoelham, olhos fechados em prece a deus. 
A criança agarrada à mão da anciã, não obedece, reza de olhos abertos tecendo palavras nas mãos sulcadas pelo tempo corrido, vivido.
As veias azuis são rios com barquinhos a navegar entre as montanhas, a sumir no punho da camisa florida.

A porta.
A vida pedia,  tinha que partir, doía dizer aquele adeus.
A primeira partida.
Apoia-se no batente da porta, o pai sempre forte, deitado na cama, comovido ouve:
-Desculpe, eu preciso...Não posso ficar, mesmo querendo não deixá-lo, me perdoe, pai.
Ele queria e não conseguiu falar, olhos que nunca viu chorar agora libertam lágrimas silenciosas.
"Não posso ficar, nem mais um minuto com você
 sinto muito amor, mas não pode ser..."
A porta nunca se fechou.

A rede
Fala de pesca, redes, linhas e peixes.
Sobre ventos, nuvens, céus, luas e marés.
Cheiro de café se espalha perfumando as curtas falas enquanto tece a rede e arruma os anzóis e minhocas.
Antes do amanhecer vai pescar, alegrar o seu viver.
À tardinha limpa os peixes, não falta o pão.

O café
Dia de chuva, dia de sol, trabalha, nunca falta, sem saber a falta que faz.
No silêncio antes do dia clarear o galo canto, coa o café.
Antes de sair olha os filhos, ajeita as cobertas, dá um beijo na testa.
-Deus abençoe.
Deixa ao lado da cama um traço do café no copo.
O barulho da porta que se fecha.
Demora, mas à noite ela volta, cansada.
É muito esperada.


Dalva Rodrigues
09/05/2020




18 de abr. de 2020

As boias


A boia catada.
A boia doada.
Quando geme a barriga
Qualquer resto é o prato do dia.

A boia aquecida
Na lata descartada.
O sebo viscoso
Alimento precioso.

A mesa está posta
Na calçada exposta.
Pequena porção
Que se come calado
sentado no chão.

Hoje tem pão e macarrão.
Amanhã conta com compaixão.
Ninguém abre seu portão
Oferece um trabalho
Ou ajuda para sair da escuridão.

A noite é fria.
Hoje a boia não veio.
O bucho ronca.
A cachaça esquenta.
Não vê a lua no céu
Nem uma estrela a guiar.
Dorme.
Sonha com o mar:

A boia.
Miragem no alto mar
Esperança do náufrago desvalido
Braços  esquálidos a remar
Pele ardente, corpo ferido
É preciso remar
A boia alcançar
Rema, rema...

Desperta na cama de papelão.
Não vê o mar.
Um sonho, uma ilusão.
Não vê gente.
Não há resgate.
Nenhuma boia.
Hoje, nada o acode.


*boia é termo popularmente conhecido em algumas regiões do Brasil como marmita, comida simples, etc.

Dalva Rodrigues
17/04/20

Com menor circulação de pessoas não esqueçamos que a oferta de alimentos às pessoas em situação de rua é menor, alguns têm medo de chegar perto.
E as noites já estão mais frias. 
Quando possível, ofereça uma boia.



Radiohead - No Surprises



SEM SURPRESAS - Tradução da letra da música acima

Um coração que está cheio como um aterro
Um emprego que lentamente te mata
Feridas que não irão cicatrizar
Você aparenta estar tão cansado e infeliz
Derrube o governo
Eles não, eles não falam por nós
Eu vou levar uma vida tranquila
Um aperto de mão de monóxido de carbono
Sem sustos e sem surpresas
Sem sustos e sem surpresas
Sem sustos e sem surpresas
Silêncio, silêncio
Este é meu ajuste final, minha dor de barriga final
Sem sustos e sem surpresas
Sem sustos e sem surpresas
Sem sustos e sem surpresas, por favor
Uma casa tão bonita e um jardim tão bonito
Sem sustos e sem surpresas, (tire-me daqui)
Sem sustos e sem surpresas, (tire-me daqui)



31 de mar. de 2020

E se não houver amanhã?

Soa como pessimismo, mas a verdade é que tudo é possível, para alguns de nós não haverá amanhã, para muitos no mundo o fim chegou, talvez com curto tempo de  reflexão, despedida relâmpago, sem velório tradicional por mais simples que seja.
Ainda há tempo de suavizar os efeitos e mesmo assim ainda continuarão a ser numerosos e dolorosos. 

Vidas para ALGUNS governantes são números, desde que não sejam os seus queridos. 
Ainda bem que nesta situação mundial são poucos os alienados que ousam ir contra o instinto de sobrevivência, o bom senso.
Pouco importa se a morte ou fome bater em portas de casas ou ruas que não os abrigam.
Iludem com a falácia do falso zelo pelo povo.
O que importa preferencialmente é a economia, a manutenção do poder dos donos do dinheiro.  Para ser sincera, penso que mesmo que suas famílias sejam vítimas, não mudarão, a insensibilidade está na alma, enraizada, não existe moral, não existe ética.
Morrem frios e convictos.

Enfrentamos governantes incompetentes e fanáticos cegos de senso crítico defendendo o indefensável, o algoz que nos devora.

Está difícil ser otimista.

Exemplos (bons e ruins) no mundo estão aí, de como o contágio está ocorrendo, experiências para ajudar a não errar tanto contra um "inimigo" invisível que pode mudar sua estratégia e confundir, afinal os lugares, climas e condições sociais são diferentes assim como posturas políticas de combate.
A ciência corre contra o tempo, contra as mentiras, a favor da vida.

E vocês, o que têm feito para se distraírem dentro da nova rotina?

Para mim não está difícil, saio pouco mesmo, mas é agonizante quando você quer por exemplo, fazer um banco de madeira, não tem aguarrás para diluir o verniz e não pode/deve ir buscar.

Isso é frustrante, mas nada comparado aos que precisam sair para benefício de todos. 
Quanto menos sairmos, menos riscos para eles e em consequência nos beneficiaremos, precisamos de serviços ESSENCIAIS. 
Não precisamos sair toda hora comprar pão fresquinho na padaria.
O dono da padaria precisa vender para não quebrar, para não ter que demitir seus funcionários, no entanto pessoas doentes ou mortas não são mão de obra, não são consumidores.
Fique em casa.

Cada um tem que lidar com o que tem, racionalmente, humanamente.

E se não houver amanhã para mim? 

Resta-me o agora.

Fiz drink de Aperol que nunca havia tomado, estava esperando um espumante em promoção.
Não tinha o copo "certo", usei o que tinha, gelo, vodka, água tônica, laranja perdida e passada na geladeira. 
Tinha sabor amargo/doce em cada canto da língua,  descendo refrescante pela garganta, mais tarde subindo à cabeça até enebriá-la.
Como é bom o prazer de algo que se deseja, seja lá o que for.
Seria melhor o sabor com espumante? 
Que importa se o amanhã não existir?
O sabor da vida e das coisas é muito particular e incomparável, assim como as dores.

Assistimos filme (Dois Papas), pipoca e cerveja.

Tretei no Facebook, fui excluída por um amigo querido de infância, aproveitei a deixa e bloqueei.
Desbloqueei outros que não guardo rancor, só não os quero presente em minha vida, seja real ou virtual.


Comecei a fazer um banco mineiro.

Fico feliz por cada folhinha nova que está nascendo em minhas plantas.

Fico feliz por ter um teto, água limpa, energia, alimentos e poder prepará-los com afeto.

Hoje, amo meu mundinho, quem está ou esteve nele, sou grata pelo que vivi, tenho e sou, por quem me ajuda, com ou sem pandemia. 

Amanhã, quem sabe antes até, posso estar disputando um leito em hospital, por um respirador ou a espera de sepultamento em uma mesa fria. Fim da linha.

São palavras duras, mas não dá para fazer de conta que está tudo sob controle, ontem  (30/03) São Paulo contratava 220 coveiros em caráter emergencial.

Um hospital de campanha foi montado com 200 leitos para casos de menos complexidade.
Um hospital dentro do velho estádio do Pacaembu que tantas vezes vi o Palmeiras jogar. É triste, é necessário.


quarentena aperol
Um brinde ao agora!


Pensei em uma sugestão otimista para compensar o post seco, que tal fazermos alguma coisa para lembrarmos destes dias e depois fazermos uma postagem com o resultado? 

Qualquer coisa, uma pintura, costura, bordado, crochê, marcenaria, luminária, reforma, plantar, escrever algo diferente...
Sem pensar em habilidades ou competição, a ideia é registrar materialmente numa peça estes dias de incerteza.
Terminarei meu banco mineiro, se tudo der certo...

O mundo mudou independente da intensidade dos efeitos do coronavírus.
O que virá depois?

Dalva Rodrigues
31/03/2020