13 de jun. de 2019

Borboletas e sonhadores na sala de estar

Eles andavam pelo bairro,  corpos desgastados pela vida dura, pela cachaça, vermelhos de sol.

Algumas vezes sóbrios, na maioria não.

Os dois amigos perambulavam pelas ruas em busca de alguém que lhes dessem um prato de comida, roupas ou uns trocados por pequenos fazeres como carpir mato, carregar entulho, uma vez que na periferia quase todos não podem pagar para descartar de forma correta.

Se paga, falta o dinheiro da água, da luz, do pão ou do IPTU.

Sorte dos catadores?

Azar da sociedade?

O entulho poderia ser queimado poluindo o ar, nunca se sabe que casa tem um idoso ou criança com doença respiratória.

Ou quem sabe ficar entulhado nos quintais renderia uns perigosos escorpiões e aranhas para compartilhar com toda vizinhança, também não é uma boa ideia.

Mas para alegria de nossos protagonistas, o descarte na maioria das vezes vai para uma calçada qualquer e a prefeitura vem recolher depois de um tempo,depois que os vizinhos reclamam.

Talvez o caminho da solução seja outro, o qual ignoramos ou fingimos ignorar. 

Eles não questionam, simplesmente existem.

Foi um dia especial, Adelino e Manuelzinho encontraram dois sofás de couro desgastados pelo tempo, dispostos na calçada em frente a casa estilo anos 70, provavelmente deixado pelos donos da casa para que alguém pegasse para reformar, estrutura de madeira boa, uma reforma os deixariam lindos, valeria a pena.

Olharam-se com cumplicidade e não pensaram duas vezes.

Sentaram-se.  A alegria invadiu os semblantes vazios, sentiam-se como cidadãos dignos de uma sala de estar particular, ao ar livre, nada de papelões e muretas fedidas. 

Um confortável par de sofás e uvas rosadas pendendo em lindos cachos pelo muro ao lado compondo o lúdico cenário.

Era como se dissessem: -Pessoas, olhem para nós!

Entre um cigarro e um gole de cachaça eles conversaram por horas enquanto os transeuntes passavam olhando a cena pitoresca.

Assim como nós em nossas próprias salas de estar, sob um teto aconchegante dividimos cervejas e um café com amigos e família, eles socializaram o momento oferecido pelo destino.

Aliás, eram duas cenas pitorescas,  em ritmo amoroso, um casal de borboletas acasalava despudoradamente ao lado do sofá em plena luz do dia.

Poucos as observaram.


acasalamento
Juntas até que a morte as separem

As horas passam, os amigos confabulando, as borboletas curtindo o sexo explícito na calçada, em pura ingenuidade da natureza, sem se preocuparem se poderiam ser esmagadas ou chamadas de promíscuas.

Depois de umas três horas de transa as borboletas lutaram (ou algo parecido) para se desprenderem e ao final da batalha  só restou uma, morta, no passeio público.

Finda a união que parecia tão duradoura.

Não sei quanto tempo os sofás ficaram expostos e seus convidados puderam aproveitar.

A vida não traz presente todo dia, nem amor.

Outro dia Vi Adelino deixando uns cacarecos no conhecido lugar de descarte, um homem passou de carro,  ralhou com ele e olhou para mim como que esperando validar sua atitude de bom cidadão ao criticar o pobre coitado.

Fiquei quieta, qual seria o ângulo que ele queria que eu visse para aprová-lo em sua indignação pelo catador malvado?

-Adelino, e o Manoelzinho? -Faz tempo que não o vejo.

-Arrumou emprego por uns mêis no canteiro de obra de um condomínio, tava bom, pouca cachaça, aí a construção acabou e ele não conseguiu outro emprego.

-Pegou o dinheiro da indenização, avisou a famía que iria pra sua cidade no nordeste, estava com saudade da filhinha, havia de conseguir um emprego por lá, mió que carregá peso na cacunda por uns trocados.


- Mas foi triste dona, a notícia correu que ele levava dinheiro, esperaro ele, robaro e fizero  judiera com o pobre.


-A última coisa que soube é que ficô acamado e bobo das ideia.


-Que tristeza, a esperança durou tão pouco.

-Cuide-se Adelino, e não fique triste com o comentário do rapaz, certamente ele não consegue vestir a sua pele para compreender seu "trabalho".

Segui meu caminho lembrando deles sentados na sala de estar ao ar livre, felizes.

Algumas vidas são mais efêmeras que outras, tão frágeis em sua invisibilidade como as borboletas.

Aproveitam as felicidades do acaso antes que as esperanças acabem em uma calçada qualquer.

O fim do êxtase 


Dalva Rodrigues
13/06/2019