Páginas

29 de mar. de 2015

Vai véia

Vai véia!
Atravesse logo essa rua.
Sua vida foi tão longa
Correu tanto e agora não tem pressa?

Vai véia!
Não dobre seus joelhos frágeis.
Segure firme suas sacolas.
Não deixe seus restos pelo chão.

Vai véia, atravesse! 
Rápido!
Olhe sempre para baixo.
Não tropece no buraco.
Não me force a perder  tempo em ajudar
Basta o trajeto que me força a desviar
De sua figura
De seus passos curtos, inseguros e sem vigor.

Vai véia!
Da cabeça branca
Pele amarrotada
Costas encurvadas. 
Apresse-se!
O temporal se aproxima

A enxurrada a espera
Se nela cair
Ninguém vai segurar.
Talvez filmar.
Amanhã terão assunto para postar:
Viu a véia arrastada pelas águas?
Eu filmei
Se curte pode compartilhar!

Vai véia!
A buzina do carro é só pra assustar.
Temos pressa de viver
Você só faz esperar a morte.
Quem vai lhe notar?

E a véia foi.
Empurrada pela dignidade de quem viveu 
Sobreviveu.
O temporal caiu.
Camuflou as lágrimas.
A enxurrada era suja
E na força competiu com sua dor
Pela tristeza que a inundou.
 
Já no quarto desbotado
Correu os olhos pelas folhas de seda amassadas.
Viu-se jovem e forte
Nas poucas fotos encardidas.  
Olhou para as mãos enrugadas
Tão marcadas.
Sorriu.  
Tomou leite quente
Comeu um biscoito
E se deitou.
Pensou
Ou quem sabe sonhou.
Adormeceu.
Morreu. 

 Dalva Rodrigues
 



Vídeo: Um dos melhores solos de guitarra do rock and roll

Lynyrd Skynyrd - Free Bird

 



15 de mar. de 2015

Protesto ao volante e a profundidade dos revoltados on line.

Parece que a bizarrice do momento é gravar vídeo de protesto dentro de um carro em movimento...Alguém me explica o sentido disso?
A gente vê incitação à violência, direção perigosa e mentiras, muitas mentiras entre uma ou outra verdade.  


Uma das protagonistas de um desses vídeos disse que estava cansada de escrever, por isso resolveu falar, gravar seu protesto dirigindo um carro...Que bonitinho...

E disse tanta m***@, que qualquer pessoa que acompanha pelo menos um pouco do que acontece no país sabe que é mentira.

Resultado: mais de 6 milhões de visualizações, trocentos comentários de apoio  e compartilhamentos...


A motorista revoltada se retratou depois que a alertaram das falsas informações nas quais ela baseava seu "protesto", mas não conseguiu tirar o vídeo de circulação e continua aí recebendo elogios e compartilhamentos por um monte de asneira sem fundamento. Teve seus minutos de fama de valor duvidoso no meu conceito.
Será que esse povo que compartilha e curte é desinformado mesmo e acredita em tudo que ouve e "lê" ou é sem caráter mesmo repassando e curtindo mentiras...

Odiar alguém ou algo não é justificativa para mentir sobre.
Tenho medo de gente assim.




E Falando em mentiras, os tradicionais vídeos e imagens de pessoas compradas por merrecas e pão com queijo para participarem de determinado ato, será que são verdadeiras ou forjadas? Não seria muita ingenuidade em tempos que se filma, fotografa e compartilha até a dor, sofrimento e fraquezas do próximo?

E hoje não faltarão, manipulação existe do outro lado também. Não duvido que seja mentira, nem que seja verdade.

De qualquer forma, a manipulação das redes sociais e mídia não é muito diferente dessa acima, só o alvo é diferente, gente que certamente tem comida no prato em todas as refeições, todos os dias e um bom emprego que estão lá defendendo "digrátis".

Esse vídeo citado é só um exemplo da histeria coletiva que estamos vendo nas redes sociais. pessoas manipulados por grupos de velhos lobos loucos para estarem no poder novamente e roubar mais um pouco. Duvida? Veja quem está por trás dessas páginas "revoltadas".

Deveríamos ir para rua protestar, sim, mas por REFORMA POLÍTICA JÁ!


Por em risco nossa democracia, desestabilizando ainda mais a economia  só para tirar uma presidente eleita democraticamente,  por representar um partido que não aprovamos e achamos que contém todos os corruptos do país, achando que isso resolve todos os problemas do Brasil é bizarrice maior ainda do que gravar vídeo de protesto dirigindo um carro.


Esse vídeo é a cara de 90% do movimento Fora Dilma, um plano A sem a menor objetividade de um plano B.


Ao invés de estarmos juntos, estamos com os egos exaltados lutando uns contra os outros, em favor de políticos que não nos representam e nunca nos representarão se não for feita uma reforma política para colocar essa classe sob controle.

Mas a culpa é da Dilma, ela sai e está tudo resolvido, no país, nos estados, nos municípios, na nossa vida.


14 de fev. de 2015

Sua receita leva nome de gente?

Uma das coisas que mais está associado à memória afetiva é alimento. Quem não se lembra de determinada comidinha da mãe, do bolo da vó, da sopa da tia, do café coado pelo vô com seu aroma invadindo a casa...?

Essa semana fiz rosquinhas de anizete, receita de família que a vó e tias maternas do meu ex marido faziam, aprendi (entenda-se, leio a receita) desde a época em que começamos a namorar em 1988. Se não me falha a memória era no final de ano que dona Dolores fazia, então sempre que posso faço na época de Natal para presentear a família, esse ano me atrasei um cadinho, só fiz biscoitos de gengibre para o Natal.
Bisa Dolores e as rosquinhas


Rosquinhas de anizete da bisa Dolores - é sempre assim que chamo a receita. Tenho várias receitas com nome, acho bacana preservar essa associação, hoje tudo se copia, não dão créditos, apagam marcas d'água de fotos para usar como se fossem suas, cortam, fazem propaganda com receitas alheias e  por aí vai...É por isso que não curto essas páginas de culinária sem personalidade própria, apenas um banco de dados de receitas sem história, como se entrassem na casa da pessoa e roubassem seu caderno de receitas de família e vendessem.

E quem não compactua com essa prática, denúncia, é taxado de invejoso do sucesso de suas bem sucedidas páginas.
Pelas curtidas e compartilhamentos fazem "sucesso", temos que reconhecer, mas cada com seus valores e ética, há gosto para tudo, mas  ainda bem que ainda existem blogs, sites e páginas relacionadas a culinária feitas com afeto e ética. E não é só lá do fundo do baú, já tenho minhas receitas dos tempos virtuais, o bolo trufado da Cynthia, o pão da Pepa, a sopa paraguaia da Lyna e outras, tudo anotadinho no caderno.

Voltando ao assunto principal e mais importante; em meus cadernos de receita tenho o sorvete de ameixa da tia Margarida, a torta de Morangos da amiga Elza, o pudim de leite cozido da tia Cidinha...

Minha avó não era alfabetizada, então fazia tudo "de cabeça", infelizmente não tenho as receitas de bolos de fubá, laranja...mas elas estão na minha memória afetiva, assim como várias outras: a sopa de mandioquinha da tia Neide, a macarronada com ervilhas da Cidoca, a macarronada com batatas e ovos cozidos do meu irmão, o molho de carne vermelhinho com cheiro de louro da minha nona, o bolo de cenoura ralada da minha mãe...
Minha vozinha paterna, saudade...


Sucesso mesmo de uma receita/comida é o afeto como ingrediente principal, porque não importa quanto tempo passe a gente se lembra de alguém querido, pode ser uma simples caneca de café com leite e farinha de milho, como fazia para meu pai quando ele estava doente ou um simples bolinho de chuva que fez parte da infância de quase todo mundo que sabe o valor do afeto.

É isso, saudade dos sabores e aromas  do passado...Então sempre que posso faço uma receitinha para resgatar essa sensação tão boa que alimenta o corpo e a alma.
Um dia irei embora e espero que tenha deixado essa memória em meu filho e que ele pense: Ai que saudade do pão de mel da minha mãe, do pãozinho quentinho que comprávamos na saída da escola e dividíamos pelo caminho... 

Dalva Rodrigues