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9 de mar. de 2014

Uma história de bonecas



Serafina nem existia
Mesmo assim era persistente
Insistia que queria ser menina:
Ter pernas finas
Um lindo vestido florido
Correr pelos campos
Muitas flores poder colher.

Um dia a moça se inspirou
Largou o Tacho na cozinha.
Pegou linhas, tecidos e carinho:
De suas mãos nascia Serafina:
Uma linda  bonequinha.

Serafina era feliz
Mas queria ser menina de verdade
Ter uma amiga para olhar as estrelas
Brincar de roda, cantar.
Apesar de sonhadora
Era esperta.
Enquanto não virava menina
Nem tinha uma amiga
Brincava sozinha.

O tempo passou
Outro sonho se realizou.
A moça novamente se inspirou
E a doce Rosa criou.

Era formosa e esguia
Nos cabelos, uma rosa.
Gostava de artes
Brincava com tintas
Usava avental de bolinhas.
E toda vez que pintava
Ficava tão contente
Que depois corria pular amarelinha.

Num lindo sonho de bonecas
Serafina e Rosa se encontraram
Uma linda amizade brotou.
Para a pequena Serafina
Ser menina de verdade já não importava.
Mil aventuras viveram
 
Com os livros viajaram
E nunca morreram:
Tornaram-se memórias
Da menina de verdade
Que brincava com elas
Bonecas pelo chão
E muita imaginação. 





Quando ganhei minha primeira Pepa, lá do Tacho  dei o nome de Serafina por causa das pernas finas, lembrei do nome Serafina Rosa, personagem da Marília Pera na novela "Uma Rosa Com Amor". E agora que ganhei a outra bonequinha, não pensei 2 vezes assim que a vi pessoalmente: Rosa!
Serafina Rosa e Claude - 1972/3
Que a criança em nós nunca morra e a saudade  venha sempre acompanhada de um sorriso.
Obrigada pelo carinho, Lia e Virginia!!

Dalva Rodrigues




9 de fev. de 2014

Sobre porões e céus


Eram tempos de morte...
Ao toque da sirene todos se apressam em busca do abrigo  escuro que os receberiam, o porão abraçava-os como se tivesse os braços da morte convidando-os para o leito potencialmente fúnebre àqueles que  ainda ansiavam por viver.
Silencio mortal, apenas respirações...

Quanto tempo se passará até o alívio da sirene quebrar o silêncio mortal? Haverá vida ou será o fim eterno sem tempo sequer para despedidas? Talvez a despedida esteja nos olhares cansados  trocados no vácuo do porão.

Do silêncio brotou a voz de menina.
Seus lábios timidamente começam a narrar a história de um menino cujo sonho era crescer, enamorar-se, dançar as valsas mais belas olhando nos olhos da amada e um dia morrer velho, cansado, mas de viver.
A voz juvenil e doce embala a espera interminável dentro da escuridão,  refrigério para  aquelas almas presas no porão.

Lá fora o jovem que um dia fora menino sonhador fazia o caminho inverso. A noite fria de céu salpicado com estrelas o observava esgueirar-se de seu porão solitário, refúgio de vidas minadas.
A sirene era seu momento de liberdade, de encarar a morte percorrendo passos temerosos na calçada cinzenta.
Estaria vivo e feliz se nenhuma alma o visse. Timidamente deixou o penumbra, sentiu a beleza da luz noturna que iluminava a rua adormecida e seu desejo de viver.
Como era lindo aquele céu.


Poderia fundir sua alma nele, fechar os olhos, assim ouvir as estrelas o chamando, chamando...Era a voz da amada vindo do passado abandonado o convidando para bailar  entre elas, tendo como testemunha apenas a lua prateada.

Poderia  fechar o olhos, entregar-se à dama vestida de estrelas... à noite fria...Deixar-se morrer feliz na calçada fria, pôr um fim na angústia de sobreviver em tempos de guerra.
Relutou a tanta beleza, ouviu lá dentro de sua alma a voz da menina a chamá-lo.
Sorriu para as estrelas, não fechou os olhos.
Voltou para o refúgio no porão.

A sirene tocou, naquele dia ainda não se viram cinzas. 


Dalva Rodrigues


Fiz  esta crônica inspirada em algumas cenas do filme "A Menina que Roubava Livros".  Ainda não li o livro, mas recomendo o filme, emocionante!
A menina que roubava livros



25 de jan. de 2014

Rolando rolezinho para quê?

Assunto do momento é o tal rolezinho, um encontro marcado via redes sociais entre jovens da periferia com a finalidade de se encontrarem em shopping center.

Ok, é de direito do cidadão ir e vir, mas será que esses jovens não podem ir sozinhos, com seus amigos próximos, pais, namorados (as)? Qual a finalidade de se encontrar no shopping com uma "turminha" de centenas e até milhares de pessoas, que na maioria nem sequer se conhecem?

Que tipo de interação pode haver em um encontro assim? 
Assistir filmes juntinhos, educadamente quietos e comendo pipocas? 
Sentar na praça de alimentação para comer um lanche e bater papo, colocar as novidades em dia? 
Ou quem sabe precisam de ajuda da turminha para comprar o tênis cobiçado que custa o valor do seu salário (sim, ao contrário do que falam por aí, as pesquisas mostram que eles trabalham e até ajudam na renda familiar)?

Temos que ter bom senso, shopping não é lugar para encontros gigantescos ou  manifestações, por uma simples questão de segurança e conforto dos clientes, dos quais vocês jovens do tal rolezinho fazem parte como indivíduos. Mesmo que não haja a intenção de baderna, jovens juntos sempre provocam algazarra, imagine milhares "juntos" de repente causando tumulto num ambiente fechado, com crianças, idosos, deficientes físicos...

O governador do estado (SP) disse que isso é um fenômeno cultural (queria saber a origem dessa cultura) e que esses jovens devem ser ouvidos (mas não dentro de shopping, né governador). Penso que seria legal esses jovens fazer um role em frente (não dentro) ao palácio do governo para exigir políticas sociais que os contemplem.

Fenômeno cultural...As famílias são obrigadas a deixar de curtir seu lazer para respeitar a "cultura" desses jovens; não  podemos (pelo menos quem tem bom senso) levar nossas crianças para assistirem um filme, namorados não podem se encontrar neste local, turmas de amigos de verdade que sempre se encontraram neste tipo de local podem ser barrados pela segurança; jovens correm o risco de perder seus empregos uma vez que os lojistas terão prejuízo tendo que fechar suas lojas nos dias de maior movimento...

Tudo isso por causa do fenômeno cultural, criou-se o direito ao rolezinho "coletivão" em shopping center, em detrimento do direito a segurança e tranquilidade de todos os outros cidadãos.

Na minha juventude dar um rolê era sair com amigos, passear, ir em festas, bailes, cinemas, parques, ir à casa de outro amigo; bater papo na calçada ou no barzinho. 
Os tempos mudaram, hoje marcam encontros de blogueiros ou outros grupos virtuais, mas alugam salões, encontram-se em parques, bares, em casa de amigos ou mesmo em shopping, mas em um número adequado ao local. E os amigos vão para se conhecer, confraternizar, tornar real um convívio virtual que já pré existe mesmo que virtualmente.


Role entre AMIGOS anos 70


E alguns dizem que é preconceito, só porque são pobres não podem frequentar um shopping? Obs: quem escreveu este texto é da mesma classe social que os pobrezinhos menosprezados pela sociedade.

Então vamos pensar...


Ninguém é proibido de entrar em shopping, nunca foi, o que não pode acontecer são estes encontros (coletivos, que os normais são saudáveis) serem marcados pela internet em suas redes sociais, por sabe-se lá quem ou com que intenção por trás disso. Proíba e pronto, acabou!

Já pensou se a "moda" pega? Independente da intenção desses rolês abre-se um precedente para que punks, torcidas uniformizadas, skinheads, homofóbicos ou qualquer outro grupo faça o mesmo. O mal corta-se pela raiz antes que se perca o controle da situação, como está acontecendo com a  segurança pública neste país.

À vocês, jovens que participam desses "encontros", um desafio: 
Quer desafiar a sociedade indo ao shopping da burguesia ( shopping da zona leste não é de "bacana", não!) para se sentir aceito? Vá sozinho, vá com a turminha da sua rua, escola, trabalho, vá com a família, namorada (o).  
Ou será que vocês não têm "peito" pra encarar sozinhos a burguesia que vocês tanto almejam? 

Mostrem que são jovens inteligentes e não uns bobões manipuláveis que ao desrespeitarem  os outros desrespeitam a si mesmos.

E aos políticos, saiam de cima do muro e se posicionem perante a sociedade que vocês deveriam representar.


Dalva Rodrigues