24 de jan. de 2020

O pasto de capim gordura

Minha infância aconteceu na  Vila Liviero, divisa com São Bernardo do Campo, nossa humilde casa, o quintal, a rua, seus moradores, comércio, eventos como quermesse, a chegada do circo ou parquinhos de diversão...

Fora dele, o mundo era só promessa de aventuras, nos arredores tinha cinema, a Cidade das Crianças,  Museu do Ipiranga,  Parque Estoril,  Zoológico, logo ali seguindo a Via Anchieta (meu bairro era no Km 13)  começava a Serra do Mar exuberante, a estrada velha de Santos que ligava o litoral, que poucas vezes fui em excursões com direito a frango frito com farofa e fotografia preto e branco em frente ao ônibus com toda turma.


Mas esses passeios não eram a regra, diversão infantil era por ali mesmo na vila.


Da janela da frente de minha casa avistava o terreno que comentavam ser da Ford, mas acho que só uma parte era, onde havia o pátio de automóveis, o restante uma enorme área verde.


Este terreno em declive de mais de 1 quilômetro ao lado do pátio chamávamos  de pastão da Ford, um paraíso para brincar, empinar pipas,  onde cavalos e bois  pastavam, um ou outro casebre distante um do outro, algumas hortas, árvores, cercas de madeira e arames farpados querendo impor algum limite para invasores, mas facilmente  transponíveis pela molecada.


De manhã cedinho acordava com os apitos das muitas fábricas nos arredores, abria a janela e olhava  lentamente a névoa que cobria o pastão se dissipando aos poucos com a chegada da luz matutina, parecia cenário de filme, a lente se abrindo aos poucos para o dia acontecer para a natureza e para as pessoas.


Quando o capim gordura estava alto, a tela que via da janela era outra, quase tudo se tingia de rosa avermelhado, compondo uma tela viva inesquecível em minha memória.


No entanto era quando o capim estava baixo que mais brincávamos lá.


Certa vez eu e alguns amigos atravessamos a estreita e perigosa pinguela do córrego, fomos fazer um piquenique por lá, para isso imagino que caminhamos mais de um quilômetro.


Toalha embaixo da árvore solitária mais frondosa, comidas, brincadeiras, risadas...

A infância simplesmente se derramava alegremente. 
Sem câmeras  fotográficas para registrar.


Depois o descanso. Deitada no chão observava a vida agitada dos insetos que zanzavam por lá, era tão mais interessante observar assim de pertinho...Formigas incansáveis carregando seus fardos verdinhos de alimentos ou querendo compartilhar das migalhas do nosso "banquete",  vários cupinzeiros que pareciam corcovas de camelos espalhados pelo pasto, tico-ticos e outros pássaros se abrigando do sol na árvore majestosa cuja sombra nos abrigava também.

Ao longe avistava minha rua, a janela tão pequenininha de onde olhava o pasto.


O tempo começava a fechar...


Devia ser verão, calor intenso, as nuvens branquinhas que observávamos brincando e rindo de suas formas foram escurecendo e logo  raios e trovões anunciavam a tempestade de verão chegando.


Sem consciência do perigo de sermos atingidos por raios, ficamos embaixo da árvore gigante  esperando para irmos embora quando a chuva passasse.


E fomos protegidos, por sorte voltamos para casa todos intactos, apenas com chinelos enlameados, felizes com nossa aventura da qual nossos pais nem tiveram conhecimento.



Isso foi há muito tempo, devia ter uns 10 anos, nem pensava que aquilo tudo seria tomado  pelo progresso  que engole as paisagens naturais em todo lugar onde habita o bicho Homem.


Em 30 de outubro 2019 li a notícia de que seria o último dia de funcionamento da unidade da Ford do Taboão em São Bernado do Campo.


Aos poucos as montadoras estão indo embora, novos tempos, novas tecnologias, mão de obra sendo descartada, os poderosos se adequando  preferencialmente aos seus "negócios", nunca as pessoas.


Os apitos das fábricas agora são raros.


Tudo aquilo já não existe, deu lugar a necessidades humanas como hipermercado, muitos condomínios  separados do velho córrego mal cheiroso por um muro bem alto, separando realidades diferentes da mesma espécie.


Lá longe no tempo passado, olhava o pastão de minha janelinha e de certa forma ainda posso olhar enquanto as memórias não se apagarem totalmente.


O capim gordura no "meu pastão" era e é lindo de olhar.



capim gordura
Capim gordura também conhecido como capim rosa-chá
Vista de uma pequena parte do pastão
 uns 8 anos depois deste episódio.
O progresso já ocultava/recortava minha tela natural


Participei do quadro Conte Sua História de São Paulo da rádio CBN com esse texto numa versão mais curta, mas com narrativa e sonorização deliciosa. Se quiserem ouvir, link abaixo:








27 comentários:

  1. Dalva, creio que foste bem danadinha na infância! Isso é bom, tens muito a recordar das brincadeiras, aretes e peripácias, tipo essas aventuras, temporaiws, chinelos enlameados... E bom que nem se davam conta os adultos, era diferente... Hoje as crianças não podem mais ter essas liberdades. Devem estar sempre vigiadas, há perigo sempre por perto! E que lindo o quadro desse capim devia ser...Cenário lindo. Uma lástima que em nome do progresso, pessoas sejam esquecidas, vidas trocadas por máquinas...Pena mesmo! Adorei te ler e PARABÉNS pela participação na Rádio! Fico feliz e espero sejas reconhecida!!!

    Muito bom te ler,sabes que digo isso sempre ! bjs praianos,chica

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    1. Chica querida, obrigada!! Ainda bem que os pais e avós conseguem dar um jeitinho de ainda colocar um pouquinho de aventura na vida das crianças de agora e criar boas lembranças para elas, mesmo com tantos perigos...Ah, eu era danada mesmo, uma moleca, como dizia minha vó! bjs

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  2. Amiga Dalva,
    Como bem escreveu Casimiro José Marques de Abreu (1839-1860), no poema: "Meus Oito Anos":

    "Oh! que saudades que eu tenho; Da aurora da minha vida; Da minha infância querida; Que os anos não trazem mais!..."

    Que narrativa bela e sensível, das boas passagens que viveste na tua "Vila Liviero" de "ontem".
    É como diz uma de minhas frases:

    "Recordar é mesmo viver, pois, sem as lembranças do passado, o futuro não se faz presente!"

    Beijos e bom final de semana!!!

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    1. Oi Doug, obrigada! Belas e oportunas frases, quando vejo minha rua hoje, nem parece o mesmo lugar! bjs

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  3. Que texto lindo, Dalvita!

    Veja que, a nós, crianças pobres, parece que sempre é dada uma percepção maior das belezas do mundo: seus espaços, suas cores, suas luzes e texturas. São imagens que a gente retem para sempre. E, sim, tudo muda e, eventualmente, as mudanças nos jogam em situações injustas e bizarras, como esta que agora uma boa parte do mundo parece adentrar.
    Mas a vida também é cíclica, de modo que à noite segue o dia, e o choro também é substituído pelo riso.
    Espero poder testemunhar a mudança positiva que virá, ainda que demore um pouco... Eu sou otimista e acredito que ninguém pode impedir o progresso. Podem retardá-lo, é verdade, mas não podem impedir que ele se manifeste, porque a expansão faz parte da própria natureza do universo.

    Um beijo

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    1. Marly, seu comentário me faz pensar que toda evolução humana nos tenha colocado em uma cilada que não estamos preparados para sair, não vai ser fácil resolver esse enigma...Homem x natureza x ego x virtualidade. Adorei seu comentário, amiga, bjs

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  4. Muito agradável a leitura, gostei imenso!!
    Estou tentando fazer login para ouvir a narração.
    Parabéns!

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    1. Valeu, Sandra! Tem que fazer cadastro para ouvir, né? Tinha me esquecido desse detalhe, bjs

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  5. Parecia que você contava a história
    da minha infância e juventude. Adorei
    a história e o seu jeito, sempre bonito
    de contar.
    Um beijo, Dalva e bom restinho de domingo.

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    1. Valeu pelo carinho e leitura, Silvio A, boa semana para vc, bjs

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  6. Bom dia de nova semana, querida amiga Dalva!
    Adoro ouvir histórias do tipo.
    Incrível como nós temos ainda histórias para contar de uma infância vivida predominantemente na natureza ou ao redor dela.
    Muito bom tudo isso!
    Parabéns pela seleção narrada na rádio.
    Tenha dias felizes e abençoados!
    Em tempo, parabéns pelo niver de SP!
    Bjm carinhoso e fraterno de paz e bem

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    1. Muito obrigada, Roselia, é sempre bom registrar as memórias antes que se apaguem, mesmo que fiquem esquecidas no futuro. bjs

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  7. Dalva querida, adorei ler as suas peripécias tão pertinente à infância. Uma prazerosa leitura, uma excelente partilha, que lindas memórias! Impossível não gostar, ainda mais narrada com muita precisão e talento. Gosto muito de ler seus escritos.

    Creia, qdo estive em Diadema ano passado numa das viagens ao litoral, entramos em São Bernardo e que coincidência meu amigo falou do capim e do terreno onde está a Ford, que coisa!

    Feliz semana.
    Bjss

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    1. Que máximo Diná! Provavelmente seu amigo curtiu muito o pastão, porque era maravilhoso por lá...Teve uma vez que jogaram um tipo de piche no morro e descíamos escorregando em papelão naquela coisa preta e lisa, era bom demais!!
      Obrigada pela presença e trazer o relato de seu amigo, amei, bjs

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  8. Oi Dalva, eu amo ler suas historias, é como se eu viajasse na sua lembrança, estava imaginando o piquenique, a chuva, o capim gordura, tempo bom que deixa saudades.
    Muitos beijos,Vi

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    1. Vi, querida, obrigada pelo carinho da leitura, quem viveu a mesma época compreende a força dessas lembranças. bjs

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  9. OI Dalva, que delícia de post! Me lembrei da minha infância em São Pedro d'Aldeia.
    beijos
    Chris
    Inventando com a Mamãe / Instagram  / Facebook / Pinterest


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    1. Obrigada, Chris, mom demais lembrar da infância, bjs

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  10. Ah que coisa boa de ler...
    Você colhia os pendões rosinha desse capim?
    Eu colhia, fazia ramalhete e uma vez (a inocência) levei pra professora.
    Nossa... há anos não vejo esses pendões, e olha que moro quase no meio do mato...
    Será que sumiram ou eu que não consigo mais olhar pra ver?

    bjsssss

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    1. Elaine, agora que me perguntou lembrei vagamente que colhia vários galhos de flores e matinhos quando fazia o caminho para a casa de minha vó materna, acho que não era capim gordura, pelo menos na mente não vem aquele tom rosado, era claros, outro tipo de capim, acho...
      Penso que sumiram mesmo, se aí que é mais rural não tem imagine aqui que não tem mais gado algum.
      Se sua professora tinha amor no coração, de certo que recebeu com carinho! E cá pra nós, eles juntinhos fazem um buquê lindo! Obrigada pela leitura, bjs

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  11. Gente, que texto maravilhoso!!!! Dalca, andei distante (estou) dos blogs por n motivos. Vim aqui retribuir seu comentário e me deparo com tantas postagens que ainda nao li. Esse capim me chamou a atenção - leio primeiro e comento.
    Então eu devia ter passado inúmeras vezes dentro desse quadro de suas memórias. Morei no Jabaquara e brincávamos no rio que hoje passa a avenida... (putz, como chama mesmo?) Perto da Av Moaci..
    Lembro desses arredores que vc relata. Embora vc é bem mais nova do que eu, vivemos em épocas parecidas por costumes. Hoje, a cada ano as mudanças são rápidas, o que era assunto e moda mês passado, já ficou esquecido. As coisas demoravam mais para mudar. Que infância linda e pura. Curioso como naquela idade costumávamos nos abrigar da chuva debaixo das árvores.
    Vou lá no link ouvir. Bjs

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    1. Helena, obrigada pela presença e comentário, fico tão feliz!
      Você ia ao Zoológico, Helena? Cheguei a ir algumas a pé, era pura diversão. Acho que do bairro Jabaquara não era tão longe, não! Era bom demais e o acaso nos protegia enquanto a gente andava distraídos! :D

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  12. Não consegui abrir pelo celular. Pede para abrir uma conta...
    Quando abrir o computador vou tentar ouvir por lá. Bjs

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  13. Agora consegui ouvir pelo computador a sonorização. Mas ainda prefiro ler o texto seu, original, poético. Enquanto lia via ouvindo uma voz bem mansa, suave, cheia de saudades, coisa que pelo narrador eu não consegui sentir isso. Texto lindo, maravilhoso, dá até vontade chorar de tão belo.

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    1. Que bom que ouviu e deu retorno, confesso que também prefiro o texto completo, até porque ele tem uma pitada de crítica social/ambiental que ficou de fora. É tão gostoso ler e imaginar...Estes dias estava pensando nisso, assistimos filmes, séries, tudo pronto, sem precisar criar na mente que é a parte mais lúdica da leitura.
      Sua presença sempre me faz bem, não importa a frequência, fico feliz! bjs

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